Entrevista à Psicóloga Investigadora Daniela Pereira

A Daniela é investigadora do Sex Lab e fez o estudo de Mestrado Integrado em Psicologia, tendo como área de especialização Psicologia Clínica e da Saúde, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. A sua tese de mestrado é sobre “Estrutura Psicológica em Mulheres Sexualmente Agressivas“ Quais foram as suas motivações para este estudo?

»Eu sempre tive interesse na área da sexualidade humana. Desde que entrei para a faculdade que, quem me conhece, sabe que era a área que eu pretendia seguir em Mestrado e, consequentemente, na dissertação, recaía sobre essa área mencionada. Quando soube que tínhamos na faculdade o SexLab fiquei extremamente entusiasmada e fiz lá, inclusivamente, um miniestágio que a nossa AE nos proporciona; realizei também as unidades curriculares relacionadas com a sexologia, tendo sempre em vista um futuro nesta área particular. Aquando da altura da escolha dos orientadores e temas de dissertação eu tinha uma visão clara sobre o tema geral que queria escolher, mas o tema específico da “Estrutura psicológica em mulheres sexualmente agressivas” foi apenas escolhido na altura. Não havia um tema específico sobre o qual me interessasse, uma vez que o meu interesse pela área é vasto, pelo que escolhi aquele que, na lista que nos é fornecida, me parecia o mais interessante e inovador. A Dra. Joana tinha nos seus tópicos de investigação o mesmo tema, mas focado no sexo masculino, mas eu logo que vi este tema centrado nas mulheres, soube que era nesse que queria trabalhar, uma vez considerar ser uma população menos estudada e que me permitira um maior contributo para esta linha de investigação. Assim que comecei a pesquisa sobre o tema, percebi que efetivamente havia pouco desenvolvimento na literatura sobre mulheres sexualmente agressivas e o entusiasmo cresceu ao dar conta que o estudo que iria desenvolver poderia ser uma mais-valia e uma base para o crescimento da investigação sobre esta população e todos os fatores e contextos inerentes.

A que conclusões chegou a partir da sua investigação?

Objetivamente, pôde-se concluir através dos dados obtidos que as mulheres universitárias com relato de algum tipo de estratégia sexualmente agressiva para obter contacto sexual com o sexo oposto, quando comparadas com universitárias que não relatavam a utilização deste tipo de estratégias, apresentaram significativamente mais sintomatologia do foro psicológico. Nomeadamente, têm associadas, características psicopatológicas de somatização, obsessões e compulsões, sensibilidade interpessoal, depressão, ansiedade, hostilidade, ansiedade fóbica, sintomas paranóides e psicoticismo; uma personalidade pautada por maiores níveis de neuroticismo e menores de amabilidade e conscienciosidade; maiores níveis de impulsividade motora/planeamento e impulsividade cognitiva; mais afeto negativo; e, por fim, maiores dificuldades na identificação de sentimentos. Indo além destes resultados, pude observar, a partir desta investigação, que esta temática é pouco desenvolvida e ainda bastante “estranha” na sociedade (particularmente junto da população universitária, sendo aquela com o qual tenho mais contacto). Digo isto, porque quando andava a publicitar o meu estudo notava-se o interesse das pessoas na temática por ser algo diferente. À primeira vista, as pessoas achavam que seriam pessoas sexualmente agressivas “na cama”, ou seja, com uma forma sexual de ser mais agressiva; quando eu passava a explicar aquilo de que efetivamente se tratava, notava-se a surpresa na expressão delas e havia até um discurso de certa forma trocista, como que a desvalorizar o ato e agressão sexual de mulheres contra homens. Em acréscimo, quando eu obtive os meus resultados preliminares, que revelavam uma percentagem significativa de mulheres sexualmente agressivas, e comecei a falar sobre o assunto, mais uma vez obtive surpresa como reação predominante.

Para si qual é a importância de estudar esta problemática?

»Em seguimento do que disse na questão anterior, a investigação nesta área revela-se essencial numa altura em que as mulheres começam a ter menos pudor de se exprimirem sexualmente e de se “arriscarem” naquilo que desejam realmente obter e fazer, ao invés de desempenharem o papel de parceiras sexuais passivas. Por um lado, isto parece positivo para as mulheres que se começam a empoderar, contudo, isto pode ser perigoso se pensarmos que as mulheres estão a adotar cada vez mais comportamentos sexualmente agressivos, mantendo, simultaneamente, a ideia de que os homens apreciam estes comportamentos e não sofrem consequências dos mesmos (o que não se revela na realidade). Assim sendo, considero de extrema importância estudar esta problemática e estabelecer perfis de características psicológicas e de personalidade associadas a mulheres com comportamentos sexualmente violentos. Estes perfis permitirão, não só compreender a etiologia e os fatores de manutenção subjacentes aos mesmos, como também desenvolver estratégias de prevenção e intervenção direcionadas ao combate desta preocupação social. Em acréscimo, a investigação e proliferação deste tema permitirá informar e educar a sociedade para a existência deste fenómeno e, desejavelmente, contribuir para a redução, não só da agressão sexual masculina, mas da agressão sexual no geral. Isto é, instruir sobre os comportamentos que podem ser considerados como sexualmente agressivos, permitirá uma maior consciencialização dos próprios comportamentos, do tipo de relação em que se está inserido e dos recursos que se tem disponíveis. A falta de reconhecimento de uma pessoa como vítima pode impedir que esta procure ajuda e que saia de uma relação não-saudável, e a não identificação de uma pessoa como coerciva quando esta utiliza comportamentos identificados como sexualmente agressivos, pode impedir que sejam realizadas intervenções apropriadas e que esta continue a envolver-se nestes comportamentos.

O que aprendeu desde que começou a sua investigação?

Desde que comecei a investigar nesta área, aprendi que o fenómeno de agressão sexual feminina contra homens é muito maior do que se pensa e está representado em vários comportamentos, desde o mais “simples” roubar de um beijo, à mais agressiva forma de violação como a conhecemos comumentemente. Isto é, podemos falar em agressão sexual em termos de coação sexual, ou seja, predominantemente agressão verbal (i.e., ameaçar, pressionar,…), em termos de abuso sexual (i.e., utilizar uma posição de poder sobre o outro, embebedar o outro,…) e em termos de força física, que consiste em ameaçar ou utilizar força física. Principalmente, aprendi que dentro destas categorias estão comportamentos que as pessoas na generalidade não consideram como agressivos, como por exemplo, amuar quando o parceiro não quer ter relações sexuais, numa tentativa de o convencer, insistir com beijos e toques sensuais quando outra pessoa não tem vontade de ter relações sexuais, entre outros.

A sua Tese de Mestrado enquadra-se na investigação forense da sua Orientadora, de que forma é que foi uma mais-valia para a sua investigação, e influência?

Trabalhar com a Dra. Joana Carvalho há-de ser sempre uma honra, quer por razões profissionais como pessoais. Para o meu tema em particular foi, sem dúvida, uma mais-valia, porque me orientou sempre na linha certa daquilo que seria o nosso objetivo final, tendo já um maior conhecimento sobre os estudos realizados na área e quais os resultados obtidos.

Segundo a sua orientadora o seu estudo: “Versa sobre a caracterização psicológica de mulheres (estudantes universitárias) com relato de estratégias sexualmente agressivas com vista a iniciar contacto sexual com o sexo oposto (e.g., manipulação verbal, uso da autoridade, etc). Os dados indicam que estas mulheres apresentam mais sintomatologia do foro psicológico relativamente ao grupo controlo.” Focou-se nas mulheres universitárias, o que a levou a cingir-se às mulheres universitárias? Tendo em conta que é um estudo sobre violência geral que se foca na sexualidade dessas mulheres, viu uma necessidade acrescida? Como é que deve ser vista esta problemática, de que forma deve ser encarada, e que mais estudos devem ser desenvolvidos?

Optamos por nos cingir às mulheres universitárias por considerarmos que estas constituíam uma amostra apropriada e uma mais-valia para a população, uma vez que o contexto universitário é caracterizado pela procura e incentivo da atividade sexual e onde, segundo Oswald & Russell (2006), um certo nível de coação sexual é considerado normal em relações de namoro universitárias heterossexuais.
Quanto à segunda questão que colocou, não sei se estou a entender claramente a pergunta. Contudo, o estudo não é sobre violência geral, é mesmo sobre violência sexual. Com um tema tão privado e sensível está sempre sujeito ao enviesamento por parte das mulheres que respondem ao questionário, uma vez que, à partida, ninguém quer admitir que adota comportamentos sexualmente agressivos, pelo que foi necessário ter cuidado com a divulgação do estudo, não o divulgando como sendo um estudo sobre agressão sexual, mas sim sobre formas de interação sexual do sexo oposto (o que não é errado, mas omite a questão central da agressão).
Esta problemática deve ser vista com seriedade, ao invés da leveza com que a população no geral a vive. Isto acontece, pois as pessoas têm tendência a achar que os homens se conseguem defender das mulheres, que estas não conseguem subjugar um homem, contudo, isto remete quase sempre para a coação física, sendo que as pessoas se esquecem da coação verbal e psicológica. É necessário haver uma proliferação sobre a temática para que homens que sejam vítimas destes comportamentos não tenham medo de se identificarem como vítimas e procurarem apoio. Quanto aos estudos a ser realizados, existem vários que permitiriam expandir o conhecimento sobre os comportamentos sexualmente agressivos cometidos por mulheres. Nomeadamente, uma comparação do perfil psicológico de mulheres que relatam tentativas de agressão sexual e atos efetivamente consumados; compreensão das variáveis contextuais envolventes do comportamento agressivo (e.g., relação com o perpetrador, história partilhada de atividade sexual consensual e não-consensual, local do incidente, utilização de droga e/ou álcool); compreensão da avaliação que as perpetradoras fazem sobre o seu próprio comportamento sexualmente agressivo e da interpretação que os homens recetores dão. Além disso, esta ampliação de conhecimentos também poderia ser conseguida a partir da compreensão das razões subjacentes aos comportamentos sexualmente agressivos por mulheres; e através da obtenção de perfis psicológicos e de personalidade associados a formas especificas de ofender sexualmente (e.g., carícias, beijos, relações sexuais) e de interagir com o sexo oposto (i.e., coação sexual, abuso sexual, força física).

Partilhou no seu facebook, o Tedx da Nicole Prause – sobre It may not be orgasm
“se pode não ser orgasmo” e “Quais as vantagens e motivações associadas ao sexo?” O que aprendeu sobre este Tedx, e para si quais são as vantagens e motivações associadas ao sexo? Como pode ser importante a reflexão sobre o orgasmo e as vantagens e motivações?

Este Tedx veio, para mim, reforçar uma ideia sobre a qual já tinha refletido, que recaí sobre a questão da importância do orgasmo durante a relação sexual. Eu considero que o sexo é importante não apenas por uma questão de prazer, mas para aproximar duas pessoas, pois, contrariamente àquilo que muita gente pensa, o sexo é, para mim um ato muito íntimo, que quer queiramos, quer não, nos liga à outra pessoa de uma forma bastante complexa. Contudo, não considero que o mais importante seja o orgasmo, porque se pensarmos bem, qualquer pessoa pode atingir o orgasmo, sem necessitar de um parceiro sexual, mas ninguém consegue atingir, sozinho, o nível de proximidade e intimidade que as relações sexuais conseguem. O orgasmo tem, na minha opinião, muito uma função de alívio de stress, mas também de prazer; contudo, tal como a Nicole Prause fala no Tedx, concordo que não seja o orgasmo que nos traz o máximo prazer, mas sim os pequenos momentos de grande ativação e excitação sexual que lhe precedem. Creio que seja importante as pessoas refletirem sobre isto, como forma de talvez desvalorizarem um pouco o orgasmo em si e começarem a valorizar mais as restantes componentes associadas à atividade sexual, como o contacto, a interação, a relação entre as duas pessoas.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
04 de Dezembro de 2016

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Entrevista a Ana Luísa Costa

Entrevista a Ana Luísa Costa – Modelo, Comediante, actriz

Pedrinho, em primeiro lugar, obrigada pela tua paciência e pelo teu interesse na minha pessoa. És um menino de Leiria de quem sempre gostei pela tua genuinidade, por se poder olhar e acreditar.

Tens trabalhado como modelo e já foste capa da Preguiça Magazine. O que mais te atrai no trabalho como modelo e pousares para a câmara? Disseste que como está a moda não te atrai tanto por falta de condições. Como é que gostarias que estivesse a situação e quais são as condições que consideras ideais para que possas trabalhar mais enquanto modelo?

Ora, permite-me dividir a resposta em duas partes. Em primeiro lugar, o meu ritual de iniciação no mundo da moda aconteceu quando tinha 14 anos e um pouco contra a minha vontade (como tudo o que me era sugerido durante a adolescência). Nessa altura, portanto há cerca de 7 anos ( ^_^ ) eu era uma tremenda “maria-rapaz”, escolhia roupa na secção de homem e tinha um andar e postura extremamente deselegantes para uma menina, e medíocres se fosse um menino. A minha mãe decidiu inscrever-me num curso de moda exclusivamente com a missão de correcção de postura.
Missão cumprida com sucesso. Daí para a frente tudo acabou por decorrer com naturalidade. O curso correu bem, acabei por tirar um segundo curso na área mais completo e com mais qualidade e visibilidade, um trabalho levou a outro, um contacto a outro, uma recomendação a outra e sempre fui fazendo os meus trabalhos a par da minha vida dita “normal”. Nunca fiz disso a minha vida, sempre fui fazendo à medida que ia surgindo e dentro da minha disponibilidade, mas as minhas ambições eram outras e não passavam exclusivamente por esse meio (chato e superficial se vivido de forma demasiado intensa).

Em segundo lugar, ganhei-lhe o gosto porque quando descobri a “minha sexualidade” e o meu lado feminino descobri que era uma grande namoradeira (o meu pai já o era e a minha mãe por mais que tente disfarçar… Tenho ali algumas suspeitas de grandes seduções). Não há nada melhor do que namorar uma máquina fotográfica! Aquele jogo de olhares, aquele ritual de acasalamento para descobrires o melhor ângulo, a provocação constante e, no fim, não tens de dar o número de telefone! Perfeito.
Quanto ao meio e às condições, sinceramente, já não me interessam. Considero-me reformada do mundo da moda. Diverti-me o que tinha para me divertir, aturei o que por vezes preferia não ter aturado, ganhei o meu dinheiro (muitas vezes quase à chapada para mo pagarem) e agora, venham as próximas.
Continuarei uma apaixonada pela fotografia, pela beleza não convencional e por mamas.

Estás neste momento a percorrer palcos a levar humor por esse país fora. Sendo uma paixão recente, o que tens aprendido desde que tiraste o curso com o Rui Sinel de Cordes e com os espectáculos que tens tido?

Aprendi tanta coisa sobre mim que já compensou pelo montante que paguei pelo curso. Também já o recuperei com os espectáculos… Não ando aqui a brincar ao voluntariado. Para isso vou limpar o rabo a velhinhos num Lar malcheiroso que é bem mais útil. Infelizmente neste país continuam com a mania que, se são artistas dos que não aparecem na televisão, fazem de borla. Ponham lá as vossas mães com um microfone na mão e divirtam-se.

Stand-up comedy era a última coisa que me imaginava a fazer na vida. Eu nem gostava de stand-up, aliás, não ligava nenhuma, estava completamente desatenta ao meio.
Fui para o curso pela vertente de guionismo e acabei por experimentar o palco. O palco já conhecia do teatro, desde garota que comecei a envolver-me nesse meio mas, sozinha com um microfone na mão e com a missão de fazer desconhecidos rirem-se… Isso foi inédito. A merda é que na primeira tentativa, na minha estreia nestas andanças, riram-se.
Perco anos de vida por causa dos nervos mas tem valido a pena.
Eu que detesto coisas radicais (para mim ir à Feira de Maio comer uma fartura “Penim” e ficar 5 minutos pasmada a olhar para o Crazy Dance já me faz suar), de repente descobri a adrenalina de estar em palco desprotegida a valer-me de uma personagem inocente e “esquisita” que assusta maioritariamente os homens (segundo consta).

Da pouca experiência que tenho já senti que é uma área que está a arrancar só muito recentemente em Portugal, muitas pessoas vão aos espectáculos e não fazem ideia do formato, do que é, como funciona, não têm referências, estão simplesmente à espera de ver alguém contar anedotas. Eu só sei uma anedota que envolve uma foca e é ridícula.

O público também está a ser formado neste momento, por critérios de gosto, de género, de empatia, etc.
Eu felizmente sou mulher. Há poucas no meio e claramente pertenço a um nicho. Nunca serei uma comediante da TVI e dos programas da manhã porque sou esquisita o suficiente e eu gosto disso. Como em tudo: na música, no cinema, nos homens, no clube que não ganha nada há anos…

És admiradora de porno, erotismo, sexualidade, através do humor focas-te muito nisso. Consideras importante abordar estes temas que ainda assim não são tão discutidos ou discutidos da melhor forma?

A minha mãe vai ler isto Pedro…
Gosto disso tudo que referes, fui aprendendo a gostar à medida que ia descobrindo o meu gosto e predilecções por estas temáticas (o meu primeiro namorado é que fica lixado quando lê isto agora… Não teve oportunidade de usufruir desta fase  ).
Considero-me uma pessoa bastante física e sexual / sensual, como se queira chamar, à minha maneira. Falar disso é libertador. Não no sentido de desvendar pormenores demasiado pessoais e de forma leviana (que são bons e excitantes porque são só meus e dos que partilham a vida comigo), não o faço por opção, mas brincar com esses temas de forma geral, é o máximo. Não há nada mais ridículo e maravilhoso do que o sexo. Todos pensam nisso, todos têm as suas pancadas e depravações. Somos animais e cada um solta o seu nas mais variadas circunstâncias.
Do meu lado, como tenho uma personagem em palco que alia um perfil de grande inocência a um lado desbocado e muito atrevido, falar disso torna-se quase peremptório e, sinceramente, acho que não choca. Ou se choca, também diverte. Espero eu…

Abordares esses temas através do humor é para ti a melhor forma de se relativizar os temas, para que se possa rir e falar-se com mais facilidade sobre eles?

O humor é solução para tudo. A receita já descobri. Agora a luta é transportar essa faculdade para todos os campos da minha vida, o que requer uma espécie de “reaprender a andar”. Quando estamos perante uma situação adversa o instinto é reagir com a força, ou desespero, ou desequilíbrio. Ao invés, se conseguirmos usar o humor como arma de gestão de conflitos externos e interiores, serve como uma atenuante extraordinária.

Já representaste para a curta Utopia, para WE ARE DESPERATE. Que gozo te deram e como é que te fizeram evoluir enquanto artista e actriz?

Essas duas curtas-metragens deram-me um gozo especial porque foram com a mesma realizadora, que adoro (Joana Maria Sousa). Ambas tiveram uma carga emocional muito forte o que me permitiu testar um outro extremo (oposto ao humor) e que me fizeram crescer por ter de aprender a lidar com as emoções e a organizá-las. Tenho esta tristeza por nunca ter conseguido fazer mais no plano da representação mas o meu caminho acabou por ser outro, não necessariamente por opção. Curiosamente agora estou a retomar também essa área, desde filmagens de sketches e participação em séries como o “Very Typical” e “Falta de Chá”, e tenho também alguns projectos de curtas-metragens no horizonte para o início de 2017.
Pode ser que ainda venha a saciar este desejo mais a sério.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
25 de Outubro de 2016

Entrevista a Tamar

Entrevista a Tamar – O Mel da Deusa, Socióloga, Formadora Comportamental, Educadora no projecto “O Mel da Deusa”

Abraçou o poder e a magia do sagrado feminino e da sexualidade sagrada em 2011. De onde surgiu a vontade de trabalhar a sexualidade feminina através do sagrado? De que forma é que a sexualidade feminina se pode desenvolver a partir do sagrado?

A vontade surgiu de maneira intuitiva e orgânica: algo em mim sabia que havia outras dimensões na vivência da sexualidade, algo em mim dizia que havia mais prazer para ser sentido e outras posturas a ter.
Uma mulher desenvolver a sua sexualidade através do sagrado tem muito a ver com: abrir-se a uma sabedoria que já foi partilhada nas sociedades ancestrais de índole matrifocal: vivênciar os vários aspectos da energia arquetípica feminina (cujos panteões de várias tradições espirituais retratam através de deusas), aceitando a variabilidade, a ciclicidade inerente ao ser mulher; religar-se ao legado/história das suas antepassadas; dedicar-se a um trabalho interior profundo de cura de feridas e mágoas e de rendição à expansão do prazer, da beleza, da inspiração, do erótico presente na vida; reeducar-se quanto a outras esferas de utilização da energia sexual que não só o sexo (para a criatividade e criação, como medicina, como ritual e ligação à visão multi-dimensional da realidade); desenvolver posturas no sexo que garantam o absoluto respeito por si, suas vontades e necessidades, assim como do(a) parceiro(a) e permitindo-se rasgar com crenças obsoletas e limitativas, honrando cada vez mais a dádiva e o potencial para uma vida plena de sentir prazer intenso e profundo e, finalmente, restabelecer a sua ligação natural à terra, à natureza e aos seus ciclos, também eles inerentemente femininos.

Desde que começou a desenvolver o trabalho para a sexualidade, o que aprendeu e conseguiu melhorar na sexualidade das mulheres que procuram o seu trabalho?

É muito forte a zanga, a vergonha, a culpa e o medo que a mulher sente ao lidar com a sua sexualidade. Encarando que a sexualidade diz respeito à sua relação com o próprio corpo; à sua capacidade de expressar as várias facetas da sua personalidade e de assumir e gerir plenamente as suas emoções; de ser e manter-se inteira num relacionamento amoroso; de integrar o que parece uma dicotomia fracturante – a mãe e a amante – em si; de entender verdadeiramente que propostas trazem as principais fases e idades da vida da mulher e que nenhuma delas exclui a manifestação da energia sexual; de conhecer e explorar, com amor e dedicação, a sua própria anatomia sexual e sobretudo de se permitir sentir à sua própria maneira (ora mais eroticamente ora mais sexualmente) sem julgamentos, comparações e cobranças a outros; de compreender como a energia na sua polaridade feminina e masculina se manifestam de forma distinta mas complementar (uma não é melhor que a outra, nem uma tem de se subjugar à outra). Deste trabalho e do empenho e compromisso destas mulheres tem resultado um empoderamento significativo e uma confiança pessoal forte, o que faz com que mais facilmente elas irradiem para o seu ambiente um brilho e um magnetismo que não só encanta, como magnetiza uma qualidade de vida bem mais enriquecedora.

“Trabalho corporal e emocional para cura de bloqueios e memórias obsoletas e expansão da energia erótico/sexual e consagração do corpo enquanto templo~ Círculos de Mulheres ~ Workshops ~ Meditações activas”. Através das oficinas e dos círculos de mulheres, como é que trabalha na cura dos bloqueios e como se processa a expansão da energia erótico/sexual? Como é que este trabalho/oficinas e círculos podem ser essenciais para o desenvolvimento da sexualidade da mulher?

O trabalho em grupo tem a capacidade de potenciar a energia que é activada individualmente, como em qualquer grupo que se forma sob um mesmo propósito. No entanto, sendo o tema o sexo e a sexualidade feminina e tendo esta sido tão castrada não só na esfera pública como também na privada, é extremamente enriquecedor escutar as histórias pessoais de cada uma. A única coisa que costumo dizer que está garantida é que vamos sempre nos reconhecer nas outras e ver que não estamos sozinhas, que não é só um problema nosso ou que (melhor ainda) afinal nem é problema! Várias mulheres chegam à idade adulta com medo ou repulsa de estar entre mulheres, sobretudo aquelas que foram alvo de desrespeito, abuso de poder e deslealdades por parte de amigas, familiares e outras mulheres. Por outro lado, e apesar de cada mulher ser todo um universo, a verdade é que entre mulheres é quase instintivo saber ser empática, acolher, nutrir, apoiar e sustentar. É natural, por isso, que além de ensinamentos e partilha de informação, as mulheres reportem que encontraram um ninho do qual tinham muitas saudades e o quanto isso as revitaliza, só por si.

O projecto neste momento também se enquadra para homens. O que podem os homens conhecer e aprender com a sexualidade sagrada? Tem igualmente sessões privadas, massagens, reeducação da sexualidade, entre outros. De que forma é que são essenciais estas sessões e como pode haver mais adesão?

A sexualidade masculina está também carregada de noções limitativas e de estereótipos pouco capazes de expressar os vários ingredientes que o homem precisa para a sua satisfação e plenitude na intimidade. Quer na pornografia, quer no cinema e meios de comunicação é retratado um homem musculado, ostentando sinais de status e com muita potência sexual, ou seja, predomina uma visão materialista e orientada para resultados e desempenhos… mais fazer do que ser. Na minha prática, vejo a pressão que os homens carregam para corresponder a todo o tempo a esse ideal que julgam ser o que faz deles um homem com H, vejo o peso que carregam no peito por não soltar as emoções e permitir-se ser vulnerável, como o seu corpo está carente de toque amoroso, como é difícil gerir o ímpeto vulcânico da sua energia sexual e começar a serem os guias e gestores dessa energia, deixando de estar à mercê daquilo que denominam como necessidade de descarga fisiológica e que, por vezes, os levam a escolhas de parcerias sexuais pobres, com ausência de uma verdadeira troca e de intimidade emocional.
Assim para os homens há a possibilidade de descoberta do próprio corpo e do seu órgão genital à luz de conceitos positivos, há o convite à ligação à energia erótica e ao sentir que é precisamente a chave para melhor manobrar a energia sexual e partilhar intimidade emocional e cultivarem a criatividade, além claro da transmissão e treino de uma panóplia de técnicas corporais capazes de promover auto-conhecimento e auto-regulação das várias fases da energia sexual, bem como potenciar a cura de disfunções sexuais. Nas sessões privadas, essas técnicas corporais, assentes na respiração, som, movimento e toque têm a vantagem de ser adaptadas ao referencial de cada homem, ao seu quadro actual e às suas motivações específicas.
Tal como para a mulher, a adesão de mais homens a esta via de desenvolvimento pessoal está profundamente ligado à desvinculação a tabus e à abertura à noção de que todo o corpo foi feito para sentir prazer e que se quero ser melhor amante para mim mesmo e nas minhas parcerias terei de trilhar o caminho da abertura do coração, da exposição, da sensibilidade aos ritmos e necessidades da outra pessoa e que isso também é ser viril.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
24 de Outubro de 2016

Intervewing Erika Lust

You’ve elaborated an illustrative guide explaining how to create better home-made sex tapes. You refer several times throughout that porn needs to change. This book and your X-Confessions project are great examples of that. In what way they can help commercial porn change and in what way can it give new points of view about porn and sexuality?

I think we need to see more accurate descriptions of real people’s desires and fantasies and sex lives! It doesn’t make sense that so much of a cultural genre is only catered to very small, niched part of the world’s population. That’s why it’s so important to create our own alternatives. There are so many bad associations with porn because the industry has largely stood for something actually sex-negative and shameful. Porn really holds the power to educate as well as to arouse, so I think it’s massively important that we have adult films that are built on sex-positive values too, that strive to show the beauty and fun of sex and seduction!

Apart from your movies that differ from common porn movies (where the woman is just a playtoy for the man, whereas in your movies that doesn’t happen), you also have X-Confessions project that emphasizes what you’ve been developing: the body, the scenes around beautiful sexuality, imagination… That said, to you, what is the importance of creating this movies and having the participation of readers and fans with the X-Confessions? Do you think that having a special corner for readers to express their own fantasies was the missing puzzle piece?

Yes exactly! I felt there was a huge missing piece in the puzzle of adult films, where the actual desires and fantasies of real people were never heard. That’s why I love the project so much – the stories I tell in XConfessions come from the hearts and brains and sexy imaginations of real people! Some might think that real people’s fantasies would make things boring but it’s the opposite – people are so imaginative and dirty! And many of the stories are modern and relatable like the Couch Surfer short films, or I found your Mother on Tinder…or even one called I Fucking Love Ikea, which is about a girl who gets turned on by her boyfriend putting together Ikea-furniture. Haha! They have building blocks that people today can relate to and find exciting, which is something that is largely absent from mainstream films. They can also be very funny, which I think many can relate to. Often real sexual encounters are filled with a lot of excitement and joy, giggles and laughs, not just super serious hard fucking!

Using porn and modern eroticism, do you think it’s possible that everybody’s minds open a bit more and they’ll start to wonder and question more about self-pleasure, body, to believe that porn and eroticism in general can definitely change for better and that Erika and all the producers are working for that goal, so woman can stop being seen as a sexual object, so that fake bodies and fake orgasms get eradicated?

I don’t believe in cencorship but I do hope we will see more diversity and better values in adult film making! I don’t want to shame anyone who likes mainstream adult films, but I do want people to know that there are many amazing alternatives to those films. And I hope we will see a lot more women behind the camera in the future, making their desires heard and working in active decision-making roles telling tales that excite them too! Of course, making a man come can be fun and feel satisfying but surely there’s a lot more fun to be had with sex than that! There is a whole world of seduction out there….

How can we “kill” the image of the housewife, that is just there¸ for male purposes…a sexual object? In what way can this concept be harmful for women? Women’s desires, their sexuality, body etc, can continually be likely ignored because of this situation?

Yes, I think it can be harmful to women and men, especially younger people! If they are over and over again presented with sexual imagery where the woman is just a passive object and the man is the active dominant participant – what does that tell them about men and women, about the roles we play, about power, about sex? Just to be clear, I’m not saying there’s anything wrong with wanting to be passive or submissive sexually -that’s a totally different thing! But when there’s so much of these chauvinistic images being produced, it’s like it’s not about sex and pleasure anymore! It’s about power, and it says something about our society and its views on women. We can reduce these images by creating our own films with good values, to create the films we want to see ourselves. And it’s hugely important that we educate our children about pornography. There’s no use hiding such a HUGE cultural genre under a rug. It’s a big part of our culture and we need to talk about it!

UK has implemented many prohibitions. In what way has this situation harmed
pornography, its progress, in order to show everybody that sex, sexuality, eroticism and porn aren’t bad and that they should be seen as something beneficial?

What’s so annoying about the U.K prohibitions is that it attacks sexual acts that women enjoy and that have nothing to do with violence, like female ejaculation and facesitting. Seriously! It just shows how out of touch some of these politicians are with even addressing sexuality and pornography – they don’t even know what they are prohibiting! The prohibition is not just prudish but also alarmingly sexist.

As a Women’s Rights’ defender, what’s your opinion about Worldwide home violence, which is growing each day? What should we do to make it stop?

Women still have a long way to go, and we need the men and women of the world to further the progress of equal rights, and to end violence. We have to have conversations, not just in universities and within academia, but in public forums, about the severe problems in the world today. We are so used to seeing women get murdered and raped that it’s almost like we don’t react anymore – and we have to be pissed off about it! Also for the men who suffer violence and sexual abuse, we have to challenge our gender roles in order for more of them to be able to speak out and get help. Many male victims feel they can’t speak out because it’s not seen as manly. And we have to change these fake, harmful illusions of masculine and feminine to see real progress. I don’t mean that men and women can’t be different, everyone should be as they wish as long as they don’t hurt anyone else. But to say violence is ok and that macho is natural is just not true, or that it’s weak to cry or to show feelings – we have to work on making those oppressive ideas disappear!

Your first movie for women was released 10 years ago. In your perspectibe, what has changed in pornography and eroticism ever since?

During my decade as a filmmaker I’ve seen a huge increase in female directors, which is great! It has worked both ways. As mainstream pornography has become more and more extreme, a lot of people have felt their need to make their own desires heard and known! So we have also seen an increase in alternative erotica and erotic projects. People dare to express themselves artistically and erotically without feeling shame about it. I applaud that and hope this shift will continue inspiring people to make great erotica!

You’ve been creating movies “Girl on Girl” in a more realistic way than the common “macho” porn. What’s your point of view? In what way can we promote women’s sexuality without making them look like a playtoy, as it happens in “macho” porn?

As a woman and a sexual being I listen to my own desires and use that in my art. As a female film maker and director, I care that the performers, both men and women, experience real pleasure and feel chemistry! By speaking up and listening to women we can promote a different side of female sexuality, one that doesn’t just serve as a passive playtoy…but of course sometimes it can be fun to be a playtoy too, haha!

You’ve mentioned that you were very unpleased by the first porn movie you’ve seen. In Portugal sexuality isn’t spoken as free as in Sweden, where you’re from. How can someone help deconstruct this idea of commercial porn and watch alternatives like your works, or Madison Young, Lilyanne Bloom and Chloe Morgane?

You’d be surprised, but Sweden can actually be quite conservative when it comes to talking about sex! Sweden’s very good at talking about safe sex and contraceptives but get very confused when confronted with work like mine! So stigma about adult movies exists everywhere. What we need is education, education, education! Make talking about porn part of the sex education in schools. We have to teach young people to think critically about the genre, and also to let them know that if they are interested, there are many alternatives to the violent internet porn that takes up much of the porn sites!

Thank you so much for your time!

Project For The Pleasure Genesis

Interview: Pedro Marques
Translation and Correction: Mariana Dias

Entrevista a Elizabet Silva

Entrevista a Elizabet Silva, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto

O seu estudo foi sobre: “O papel mediador da distracção cognitiva no impacto das crenças sexuais na resposta sexual.” Antes de mais, para os leitores que não saibam o que é a distracção cognitiva, o que é que significa e o que é que a motivou a investigar este tema?

A distracção cognitiva encontra-se relacionada com o facto das pessoas focarem antecipadamente a sua atenção em estímulos não eróticos, ao invés de imergirem nos aspectos sensoriais da experiência sexual. Os estudos confirmam que a distracção cognitiva durante a actividade sexual consiste, essencialmente, em preocupações com o desempenho sexual e, cada vez mais, nas preocupações com a aparência corporal. O meu interesse pelo tema surgiu devido ao facto da sexualidade ser uma das dimensões mais importantes e marcantes para o ser humano, contribuindo para o seu bem-estar psicológico e relacional, assim como pelo facto de não existirem estudos prévios, com a população portuguesa, que comprovassem a relação existente entre as crenças sexuais e a distracção cognitiva durante a actividade sexual. Além disso, dada a pressão social existente à volta da aparência corporal feminina e, recentemente, da aparência corporal masculina, considerei que seria interessante compreender de que forma as preocupações com a aparência corporal poderiam afectar o desempenho sexual.

Que impactos podem ter as crenças sexuais?

As crenças sexuais consistem em ideias que os indivíduos têm sobre a sexualidade, sendo que vários estudos científicos têm indicado que muitos indivíduos com disfunções sexuais evidenciam um conjunto de ideias inadequadas sobre a sexualidade. Por exemplo, um homem que atribui uma falha na erecção à falta de “masculinidade” e de competência sexual, quando se encontra perante uma dificuldade eréctil ocasional, irá considerar que preenche os requisitos estipulados pela sua crença sexual (e.g.: “um homem que não consegue ter uma erecção é um completo fracasso”), activando a crença de que o próprio é um fracasso sexual. Consequentemente, os níveis de ansiedade durante a actividade sexual poderão aumentar e o seu desempenho sexual poderá ser negativamente afectado. Deste modo, as crenças sexuais podem funcionar como factor de vulnerabilidade para o desenvolvimento e manutenção das dificuldades sexuais, pois guiam os significados atribuídos pelos indivíduos aos acontecimentos sexuais.

O que descobriu com o estudo que realizou?

O estudo que realizei comprovou o efeito negativo de algumas crenças sexuais, assim como da distracção cognitiva no funcionamento sexual masculino e feminino. Além disso, a partir do estudo, ficou comprovado que a satisfação relacional é uma componente fundamental da saúde sexual e que esta poderá, eventualmente, funcionar como uma variável moderadora entre os factores cognitivos e o funcionamento sexual. Deste modo, as pessoas que se encontram mais satisfeitas com a sua relação amorosa podem evidenciar um menor efeito das crenças sexuais ou da distracção cognitiva no seu funcionamento sexual.
Quanto ao objectivo geral do estudo, comprovar o papel mediador da distracção cognitiva na relação das crenças sexuais com o funcionamento sexual, os resultados indicaram que as mulheres com determinadas crenças negativas acerca do sexo anal são mais propensas à distracção cognitiva com o desempenho sexual, evidenciando um funcionamento sexual mais negativo. Importa aqui salientar que a dimensão das crenças sobre o sexo anal é composta por um grupo de crenças relacionadas com a ideia de que o sexo anal não suscita prazer ou excitação sexual nas mulheres.

Em que é que as distracções cognitivas podem influenciar a sexualidade, quer negativa quer positivamente?

Como já referi anteriormente, a distracção cognitiva pode afectar negativamente a sexualidade porque o individuo deixa de estar concentrado nos estímulos eróticos da experiência sexual, encontrando-se distraído com pensamentos sobre o seu desempenho ou a sua aparência corporal. Nesse sentido, acaba por interromper o fluxo normal do funcionamento sexual e, por consequência, pode inibir a sua excitação sexual e o orgasmo. Contudo, no caso dos indivíduos evidenciarem uma percepção ou uma expectativa positiva acerca da sua aparência corporal ou do seu desempenho sexual, a distracção cognitiva poderá ter uma influência positiva no funcionamento sexual. Por exemplo, um homem que tem uma expectativa positiva acerca do seu desempenho sexual, quando observa o seu órgão genital e percebe que está com um bom nível de erecção peniana, pode sentir-se ainda mais excitado e evidenciar um desempenho sexual positivo.

Qual é a importância deste estudo para o impacto das crenças sexuais na resposta sexual?

Dado que o os resultados comprovaram o efeito negativo das crenças sexuais no funcionamento sexual, o estudo salientou a importância dos factores cognitivos no funcionamento sexual, contribuindo para fundamentar a inclusão de estratégias terapêuticas cognitivas no tratamento dos problemas sexuais. Acima de tudo, os resultados do estudo podem ter implicações, não apenas ao nível da compreensão dos fenómenos psicológicos envolvidos no funcionamento sexual, mas também na compreensão de processos potencialmente envolvidos nas disfunções sexuais.

De que forma se pode anular o impacto das cognições?

O impacto das crenças sexuais não pode ser anulado sem trabalhar a raiz do problema, isto é, desmistificar e alterar as crenças sexuais dos indivíduos. Assim, a desmistificação de alguns mitos ou crenças sexuais tem um papel primordial para a manutenção de uma vida sexual saudável. Ao nível da prevenção, o estudo realizado acabou por reforçar a necessidade de incluir a desmistificação de crenças acerca do funcionamento sexual no conteúdo dos programas de educação sexual, assim como desenvolver formações contínuas, destinadas aos profissionais de saúde, acerca da influência dos factores cognitivos no funcionamento sexual.

Dirigiu/elaborou um grupo terapêutico para mulheres na menopausa. O que é que a levou a criar um grupo terapêutico sobre mulheres na menopausa?

A elaboração do grupo terapêutico esteve relacionado com o facto de existir um elevado número de mulheres que evidenciam dificuldades associadas à menopausa, tanto a nível psicológico como sexual. Assim, e dada a elevada incidência de sintomas depressivos e de ansiedade nesta fase de transição, pareceu importante a formação de um grupo terapêutico para que as participantes pudessem informar-se acerca das características associadas à fase da menopausa e pós-menopausa, trocarem experiências e ampliarem a sua auto-estima, bem como o seu nível de suporte social. No final deste projecto, foi interessante verificar que as participantes evidenciaram melhorias significativas, aprendendo a importância de se auto-valorizarem e de, em certas situações, colocarem o seu bem-estar em primeiro lugar.

O que é que aprendeu durante todo o processo?

Aquilo que realmente me marcou durante todo o processo foi ter verificado que muitas vezes as mulheres anulam os seus sonhos e as suas necessidades em prol da sua família, principalmente dos filhos. Muitas vezes, encontram-se tão focadas nas necessidades dos outros que não param para pensar naquilo que gostariam de fazer no seu tempo livre, nos objectivos que querem alcançar, nos seus sentimentos… Esta “falta de dedicação a elas próprias” muitas vezes pode estar na origem das dificuldades emocionais que podem vir a apresentar, não só na menopausa mas noutras fases da vida. Ao longo do processo terapêutico, penso que a necessidade de se auto-valorizarem foi reforçada, tendo contribuído para o bem-estar das mulheres que participaram no grupo.

Para o estágio profissional de que está à procura e para o seu futuro como psicóloga e investigadora no SexLab, quais são os seus interesses ao nível de áreas de estudo?

No futuro, espero ter a possibilidade de continuar a trabalhar com a população adulta. Contudo, saber que meu trabalho poderia melhorar a qualidade de vida das pessoas, de qualquer faixa etária, seria gratificante. Enquanto investigadora do SexLab, este ano já publiquei dois artigos científicos, relacionados essencialmente com a distracção cognitiva, as crenças sexuais e as crenças sobre a aparência, sendo que gostaria de continuar a estudar as diferentes variáveis psicológicas que podem afectar o funcionamento sexual de homens e mulheres.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vamos Falar Sobre Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Jú Matias
14 de Setembro de 2016

Entrevista à Investigadora Inês Tavares

A Inês é investigadora do Sex Lab e fez o estudo de Mestrado Integrado em Psicologia, tendo como área de especialização Psicologia Clínica e da Saúde, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Os seus pontos de interesse são: a psicofisiologia da resposta sexual humana e os factores psicológicos associados às dificuldades de orgasmo feminino. Quais foram as suas motivações para estudar os factores psicológicos associados às dificuldades de orgasmo feminino?

Os meus interesses sempre foram bastante vastos, e o interesse pela sexologia em particular foi emergindo ao longo do meu percurso académico. Após ter tido contacto com o estado da arte na sexologia e, principalmente, nos estudos acerca da sexualidade feminina, fui compreendendo que, apesar de existir já um corpo teórico e conceptual relativamente sólido, há ainda muito por investigar. Apercebi-me que esta área de estudo é bastante recente quando comparada com outros domínios de investigação, e isso faz com que exista a possibilidade de que tenhamos um contributo genuinamente relevante. Penso que nesse processo fui desenvolvendo uma motivação para contribuir para a lacuna muitas vezes presente em vários domínios da investigação em sexualidade humana, sendo um deles o orgasmo feminino. O orgasmo feminino é um daqueles tópicos que, ainda hoje, gera uma onda de “misticismo” e de excitação ao seu redor, cheio de tabus e de curiosidade, de mitos e de conceções erróneas. À medida que me fui apercebendo da teia de complexidade em que este fenómeno está envolto, quer a nível anatómico, quer a nível fisiológico, quer até a nível social, cresceu também a motivação para o estudar. Acabei por, em colaboração com o meu orientador de Mestrado, o Professor Dr. Pedro Nobre, desenhar um estudo que pudesse contribuir para compreender de forma mais aprofundada qual o papel que vários fatores psicológicos desempenham na experiência de orgasmo feminino, contemplando simultaneamente a diversidade de atividades sexuais em que as mulheres se envolvam.

O que aprendeu desde que começou a sua investigação?

Num primeiro momento, aprendi muito acerca da anatomia genital feminina, acerca dos processos fisiológicos associados a cada uma das fases da resposta sexual feminina, sobre genética, sobre endocrinologia. Li muito, quis estar bem informada acerca das bases anatómicas e fisiológicas daquilo que é o fenómeno de orgasmo feminino, para que posteriormente pudesse refletir acerca do papel da psicologia. E é verdade que, mesmo a um nível anatómico, existe muita controvérsia. Aprendi que apenas no ano de 1998 se conheceu integralmente a anatomia do clítoris, órgão que até então, das duas uma, ou era ignorado ou era representado de forma errónea nos livros de anatomia. Desconhecia-se, até há cerca de vinte anos, a totalidade da intrincada anatomia interna, ou não visível, do clítoris. Posteriormente, fui descobrindo que a maioria das mulheres está relativamente bem informada acerca da anatomia do seu corpo, mas que há ainda uma parte importante de mulheres que não o está. Penso que existe trabalho a fazer ao nível de possibilitar o conhecimento das noções mais básicas acerca de quais são as zonas que poderão trazer prazer às mulheres, e de que forma. Ainda é necessário desconstruir alguns mitos associados à importância do coito para a obtenção de orgasmo feminino. Na verdade, um dado transversal a várias investigações é o de que a relação coital, por si só, não é um fator muito importante na obtenção de orgasmo feminino, enquanto que a estimulação do clítoris é.

Em que consiste este palavrão da “psicofisiologia” e de que forma é essencial para a análise da resposta sexual humana e dos factores psicológicos associados às dificuldades de orgasmo feminino? De que forma é importante estudar-se esta problemática?

A psicofisiologia é o estudo da relação entre fenómenos psicológicos e fisiológicos, e é de extrema importância na compreensão da sexualidade humana. Sabemos que estes são dois domínios da vida humana que estão em constante interação, ‘o corpo e a mente’ como tantas vezes escutamos. E na esfera sexual é fundamental que os dados da fisiologia (ou seja, as respostas manifestadas pelo corpo e que fazem parte de determinado fenómeno) sejam integrados com os fatores psicológicos, dada a sua reciprocidade, que poderá levar a respostas sexuais mais ou menos funcionais.
O trabalho psicológico na terapia sexual muitas vezes é feito com pessoas que não demonstram nenhum problema orgânico que seja capaz de explicar as suas dificuldades sexuais atuais. É importante contemplar ambos os domínios, até porque quando não existem de facto impedimentos orgânicos, o foco da intervenção será de teor psicológico. E para que isso se leve a cabo de forma eficaz, é importante que os terapeutas tenham informações acerca de como funciona a resposta sexual humana, quais os fatores que poderão levar ao desenvolvimento e à manutenção de determinado tipo de dificuldades, e que tipo de intervenções se têm demonstrado eficazes tendo em conta as características de cada caso. E isso é um trabalho que é substancialmente levado a cabo pelos investigadores, tentando compreender aquilo que ainda não se sabe e melhorar o conhecimento atual. No campo das dificuldades de orgasmo feminino, apesar do crescente interesse e debate sobre os seus determinantes fisiológicos e anatómicos, a investigação sobre os aspetos psicossociais que podem contribuir para a sua ocorrência é ainda rudimentar. E foi precisamente esse o objetivo do estudo que desenvolvemos.

Quais foram os resultados e o que se pode aprender e desenvolver a partir dos resultados que obteve?

Num primeiro passo, interessava-nos estudar de que forma os diferentes tipos de atividades sexuais prediziam a ocorrência de orgasmo feminino. De forma geral, podemos dizer que neste estudo as mulheres demonstraram frequências de orgasmo mais elevadas em resposta a atividades sexuais que envolvem a estimulação do clítoris em comparação com a atividade coital por si só. O coito sem estimulação adicional do clítoris foi, de todas as analisadas, a atividade sexual que menos parece contribuir para a experiência de orgasmo feminino. A constatação de que a frequência de orgasmo feminino aumenta com o envolvimento em comportamentos sexuais que contemplem estimulação do clítoris está de acordo com várias teorias postuladas por diversos investigadores de que as mulheres podem ter orgasmos tão facilmente quanto os homens, desde que suficientemente excitadas. Um resultado muito interessante deste estudo foi o de que as mulheres que consideram a obtenção de orgasmo como mais importante são também aquelas que o obtêm de forma mais frequente, e vice-versa. Este dado é explicado através do fenómeno de dissonância cognitiva, segundo o qual a simultaneidade de manter dois valores ou características contraditórios causaria desconforto, o qual seria reduzido ajustando o valor ou a característica mais suscetível de alteração de acordo com o menos suscetível de alteração. Desta forma, se o orgasmo é difícil ou impossível de alcançar, as mulheres com estas dificuldades usariam uma estratégia de redução da importância dos mesmos. Adicionalmente, também era nosso objetivo compreender se as próprias mulheres percecionavam de forma diferente os orgasmos obtidos através de diferentes tipos de estimulação e, caso o fizessem, se organizavam as sensações orgásmicas de acordo com uma perspetiva anatómica ou de acordo com outros critérios. Os resultados obtidos não propuseram uma separação entre sensações vaginais e clitorianas mas, mais bem, reforçam a ideia de que distinguir orgasmos como claramente iniciados na vagina ou no clítoris é uma tarefa difícil. Estes dados indicam-nos que as próprias mulheres têm dificuldade em distinguir os componentes anatómicos específicos que originam as sensações orgásmicas, o que não fortifica a separação entre vários tipos de orgasmo, mas mais bem indica-nos que o fenómeno de orgasmo feminino seja um fenómeno psicofisiológico único. Para além disso, os resultados sugerem-nos que um fator importante para a preferência das mulheres no que toca à atividade sexual é o facto de esta ser realizada com parceiro, mais do que o facto de esta conter um tipo de estimulação específico (seja este clitoriano, vaginal ou até anal). Finalmente, um outro dado relevante corresponde ao facto de que as variáveis estado (o afeto e os pensamentos automáticos experienciados pelas mulheres durante a atividade sexual) parecem ter maior importância do que variáveis disposicionais, ou traço, na experiência de orgasmo feminino. Por outras palavras, isto indica-nos que aquilo que as mulheres sentem e pensam durante o contexto específico da atividade sexual é, de facto, um fator importante quando queremos compreender a ocorrência ou não de orgasmo, e que estas variáveis cognitivo-afetivas podem constituir alvos clínicos importantes quando se consideram, em termos clínicos, dificuldades de orgasmo feminino. De forma geral, é sugerido por este estudo que as variáveis psicológicas parecem ter influência na experiência de orgasmo feminino, independentemente do tipo de estimulação sexual em que as mulheres se envolvam.

O seu estudo focou-se nas mulheres heterossexuais, o que a levou a cingir-se apenas a mulheres heterossexuais? A partir destes resultados, e desta investigação, quais serão os seus interesses futuros? Que outros trabalhos de investigação pretende realizar?

Parte dos objetivos deste estudo prendia-se com a clarificação de aspetos associados com a discussão da existência de um ou de vários tipos de orgasmo feminino (e.g., orgasmo vaginal versus orgasmo clitoriano). Para isso, e dado que era nossa intenção replicar alguns procedimentos usados por diversos autores em anteriores estudos, a amostra teria de incluir mulheres que se envolvessem de forma regular em atividade coital. Essa foi a principal razão pela qual um dos critérios de inclusão no estudo era a pessoa autoidentificar-se como heterossexual. Mas é interessante olharmos para outros estudos realizados com mulheres lésbicas, em que estas mulheres reportam muito mais orgasmos durante o sexo com parceira, porque simplesmente ocorre uma estimulação do clítoris bastante mais robusta.
Considerando o facto de que o presente estudo investigou uma amostra de mulheres predominantemente funcional do ponto de vista sexual, e através de uma abordagem transversal, seria relevante que se pudessem desenvolver estudos que tenham em conta os resultados atuais com o objetivo de estabelecer de forma mais clara, possivelmente com uma abordagem longitudinal e utilizando amostras clínicas, a contribuição específica dos fatores analisados para o desenvolvimento e manutenção da perturbação do orgasmo feminino. Relativamente a interesses futuros, ficaria muito satisfeita de continuar a dedicar-me ao estudo do orgasmo feminino, sendo este um fenómeno tão complexo e existindo ainda muitas outras perguntas que ficam por responder. Para além disso, interessam-me as questões da sexualidade na transição para a parentalidade, quer durante a gravidez quer no pós-parto, que é uma área sobre a qual apenas recentemente se tem dedicado alguma atenção científica. A nível futuro, pretendo continuar a desenvolver trabalhos no estudo da psicofisiologia da resposta sexual em colaboração com o SexLab, e futuramente incluiremos a termografia como técnica pioneira no estudo da resposta sexual humana.

Participou numa mesa redonda sobre a Saúde da Mulher e o Pavimento Pélvico; que aprendizagem obteve dessa discussão e que importância teve e tem para si discutir-se estes temas?

Tive a oportunidade de dar o meu contributo para essa discussão, da qual fazia igualmente parte uma fisioterapeuta, que desenvolve o seu trabalho na terapia do pavimento pélvico. A realidade é que em muitos casos, principalmente nos quadros de dor génito-pélvica, é importante ser realizado um trabalho de treino do pavimento pélvico, em colaboração com a intervenção da terapia sexual. Recordo-me que foi bastante interessante, quer pela curiosidade do público presente quer também pela oportunidade rica de partilha de conhecimento entre profissionais. No meu ponto de vista, a discussão informada e com base em evidências deveria ser proporcionada tanto quanto possível, no maior número de contextos possível. É comum que se fale de sexualidade, mas nem sempre da melhor forma… muitas das vezes existe ainda algum pudor ou desconhecimento, ou algumas crenças erróneas, o que acaba por manter limitações ao nível da vivência de uma sexualidade plena, que acredito que deveria ser um direito transversal a todos nós, tal como o é a vivência de tantos outros domínios da vida.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vamos Falar Sobre Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Jú Matias
01 de Setembro de 2016

Interview with Stephen Wood

Stephen Wood is an international development researcher within the Gender & Sexuality cluster at the Institute of Development Studies. His current research is around sexuality and poverty, the intersections of gender, sexuality and other forms of disadvantage, plus the evolving nature of global LGBTI movements. He can be found on Twitter as: @StephenWoodUK and on his YouTube Vlog series “Global LGBTI Politics”

What led you to study, write and defend questions about gender, LGBT and sexuality?

I guess my starting point was growing up in a deprived, poor part of north-east England and becoming aware of my difference from those around me as a gay youth in the early 1980s. The impact of the Thatcher Government in dismantling jobs and livelihoods in communities like mine was something I heard about before I even understood politics and I had a strong sense of how the rhetoric of equality and fairness we heard on the news didn’t translate through the prism of lived lives.

Being raised in a family where women were the driving force in leading, setting the tone, yet being lumbered with the vast amount of domestic and emotional heavy lifting really hung heavy on me, so when I eventually escaped and moved to London to study, I already felt on an instinctual level that I understood how gender and sexual equality were parallel and interlinking injustices I wanted to put my energies into challenging.

Already in 2012 you talked about the legislative fights for equality, its progresses and regressions in western societies. You stated that through the Sexuality & Development Programme in the IDS you are developing ways to make sexuality and law progress. Do you think the legislative fights for equality are changing people’s minds concerning LGBT rights?

For those of us who live in the West, the narrative of sexual equality has always rested on incremental change through the work of social movements, solidarity with others and the translation of that into measurable Parliamentary legislative change. As a strategy, it has made sense and even the recent (contested) agreement to appoint an Independent Expert on protection against violence and discrimination based on sexual orientation and gender identity by the UN Human Rights Council has the potential to go some way towards pushing for legislative change in many countries with represessive legal regimes for homosexuals.

That said, resorting to law reform can be a messy, dangerous and at times unproductive route towards these changes. Here at the Institute of Development Studies, we held a workshop (with an outstanding collection of reflections from participants) with a lot of the key thinkers and activists engaging in these movements and what came up from the diversity of voices was the need to interrogate the implications and shortcomings of cleaving to a legal route to equality that doesn’t account for social justice, solidarity movements and the engagement in different political spaces and movements, such as art, intersectional activism and movement building. In some contexts such as Ethiopia, there just isn’t the civil society space allowed to operate in ways that can apply pressure on Government safely.

In 2012 you said that the discussion of pleasure was still a matter out of many debates. Although some time has passed, how harmful can this failing be in discussing pleasure? Since 2012 have you seen a lot of developments about this theme?

As someone working with the aid / development world, trying to talk about sexual pleasure when discussing issues of sexual and reproductive health can be like banging your head against the same brick wall that LGBT activists have in taking their issues seriously. In spite of a great deal of convincing research and the inspiring work of such organisations as The Pleasure Project and Love Matters that are producing innovative, engaging strategies for talking to (particularly young) people about issues of sex, choice and pleasure in their sexual health strategies, a regressive and judgemental attitude that alienates target populations still holds sway.

Much of the sex education that is taking place amongst those starting their sexual lives globally is now coming from online pornography sites, places not known for gender-equitable sexual behaviour and conspicuous safety around condom use. One of my colleagues at IDS, Pauline Oosterhoff, is increasingly exploring dialogue with pornography gatekeepers and producers in order to have these conversations at the sharp end of modern sexual education. It is an exciting time to really reframe our understanding and expectations around sexual pleasure, but remains very contested amongst political and religious convservatives.

In your recent research you talk about sexuality and poverty and about the politics to reduce poverty. What differences do you see between people who live their sexuality in poverty and those who live it beyond poverty? In what way can this study help reduce poverty among the marginalized communities?

Those people with non-normative sexual and gender identities, young women who find themselves excluded as a result of their sexual behaviours and those who work within the sex industry to make ends meet can find the factors that lead to poverty magnified. The likelihood of such maginalisation, such as exclusion from education, discrimination in the workforce, being forced to migrate to areas where they arent known and having a lack of networks and support to strengthen their social mobililty tends to be higher.

If we want to reduce the sheer number of people living in poverty in either Western societies or the Global South, we need to understand that certain exclusions and marginalisations experienced by people intersect in ways that compound the livelihood that they live in poverty. In purely instrumentalist terms, you can argue that poverty alleviation strategies and programmes that fail to understand the particular circumstances and implications of exclusion for sexual minorities will not reach as many people and run the risk of not being successful (or for conservatives, not good value for money). Personally, I find that argument problematic, but at the same I’m happy to work with whatever rationale can get people behind concrete improvements to the lives of poor queer people. The options, opportunity and physical safety for those with access to resources, whilst not nullifying the discrimination they face daily, are much higher than for those without.

What motivated you to know more about the problematics of sexuality among poor and wealthy people and the marginalized communities?

I think traditionally, when looking at sexual rights internationally, there were two main entry points for engagement – you either worked with others fighting for human rights in coalition or explicitly on LGBTI equality or you used reproductive health and HIV/AIDS as a way to reach and engage in with young people, women and men who have sex with men (MSM). Examining sexuality and poverty as an entry point was until recently, not something that a lot of time was expended upon – thanks to the work of IDS, Lee Badgett of the Williams Institute and even actors such as the World Bank, it is becoming a legitimate area of study.

One of the most striking insights I received when I first started travelling and collaborating with sexual rights activists in the global South was the realisation that the same establishment and elitist tendencies we see in our own LGBT movements are just as prevalent in places like the Philippines or India, for example. Prominent LGBT organisations can, in many cases, be lead by richer gay men (not always, but lesbian, bi and trans leaders still remain under-represented) with a world-view of LGBT life that has more in common with places like the US and Europe than the needs of poorer, marginalised domestic sexual and gender minorities. This can be reflected in their priorities. It isn’t that surprising that in countries where the majority lives in poverty, that the ability to become a public activist is financially and politically easier if you come from particular classes or castes, so I’m not criticising it per se, but saying that (as is the case in the UK), the voices and demands from the grassroots are heard less than they should.

How do you see the present and future of sexuality and LGBT fights?

As you might suspect from the answer above, I think one of the key planks for sexual equality moving forward is a critical analysis of the power and class divisions faced by (and amongst) sexual and gender minorities. The time for thinking that LGBT people are richer, have more disposable income and are more mobile should be a thing of the past. That also means interrogating neo-liberal, individualistic narratives of citizenship and not buying wholesale into economic models that promote entrenched inequality.

I’m also very interested in how online and digital forms of citizenship and activism are changing the ways in which we campaign for global sexual rights. These are without their pitfalls either – I think those of living in the West need to take a long hard look at how we engage in solidarity with activist movements in other parts of the world to ensure we act in solidarity, placing the strategies of those we aim to support from and centre and always mindful of the unforseen political and security implications of what we do.

Thanks for your time, and all the best wishes for your work.

Project Let’s Talk About Sexuality
Interview: Pedro Marques
Translation and Correction and: Jú Matias

Interview to Annie Sprinkle

Interview to Annie Sprinkle – Sexecologist, Ecosexual, Artist, Performer, Former Prositutute and Porn star, College lecturer

Has the Sexecology project (ecosexuality Also) with your partner Elizabeth Stephens (1). When they had the interest to take the LGBT community to become involved in environmental activism?

There are very little environmental activism movements and groups in the GLBTQI communities. Huge amounts of individual gay and queer people care about the issues, but there isn’t really much of a movement where punks, porn stars, freaks, drag queens, trans people, and other outside the heteronormative boxes feel comfortable… Our film, for example, was the first queer environmental activist documentary in the US. Its called Goodbye Gauley Mountain—An Ecosexual Love Story. You can watch it on Netflix and itunes. Its about horrific coal mining destruction in the West Virginia mountains. The coal companies have taken the tops off of over 500 mountains. So we bring our queer sensibilities and sex positivity and odd sense of humor to these issues. We call this sthe “ecosex movment.”

We have now officially added the E to GLBTQI. So from now on, don’t forget to add the E! Artist Guillermo Gomez Pena collaborated with us to add the E when we did an ecosexual contingent in the Pride parade in San Francisco last summer.

Make a combination between art, activism, theory and practice, is a hotter project with absurd humor, sex-positive …

I have been interested in sensuality with nature for years. And in nature festishes and fantasies. As has Beth. WE both had a lot of early experiences as kids where we found nature sensual. Most people have if they think about it. We are both inspired by Fluxus art movement more than any other kind of art movement. We love the humor and obsuridity. As an academic, with a PhD in performance studies, Bethe wanted to develop ecosex theory as a response to or growth from ecofeminism and queer theory. As a sex person for many years, and with my Phd in sexology, I was interested in expanded kinds of sexuality, that isn’t so genitally focused and more energy based, and includes more than just human to human sex. Why not connect erotically to mountains, clouds, flowers, butterflies…

How important was for you to create to your wife an alternative draft environmental activism on sexuality ?

We were doing an art project, loveartlab.org, and married the Earth as an art project. We took vows to “love, honor and cherish the Earth until death brought us closer together forever.” The next day we came out as ecosexuals. We realized we seriously loved the earth. And imagining the Earth as a lover, a partner, was very satisfying.

We had both done a lot of art projects about sex, and then about love with our loveartlab.org (no archived) so when we married the Earth in an art project, we became very excited about helping the planet.
I grew up in Los Angeles, and we had a swimming pool in the back yard. I also went to Yosemite a lot as a kid and felt a sensual connection with nature. My first sexual experience was on the beach. For Beth she connected with Earth works as a kid. And loved riding her horse. WE grew up to have a lot of sensual and erotic experiences in and with nature.

What results has been able to get this quest to teach sex-positive, the environmental part and engage the LGBT community?

WE have had really great ecosex workshops in several countries. They are so much fun. Our workshop in England had people there from 21 countries. They loved it! And they are all pollinating ecosex everywhere. So now some porn stars are making ecosex porn, there is an ecosex sex toy shop called As You Like it in Oregon. There was an Ecosex Convergence at Windward, the world’s first ecosex community. 150 people attended. WE were there a few weeks ago. It was fun. But not really our kind of ecosex completely. There are many kinds of ecosexuals doing different things. Beth and I are artists and activists and do it our own way. You can see our film trailer and some of our projects on our many web sites.

Annie Sprinkle’s Herstory of porn (2), this solo and daily movie is your view on the 30th anniversary of their sexual development and sexual revolution. How they evolved? That knowledge can be acquired your sexual development and sexual revolution? Through this balance of knowledge what allowed to teach all citizens?

Don’t understand the question. This film was aobut my best and worst porn movies and my evolution. Ecosex is just my next big interest. But I think now its my life’s work for many years to come. There is a lot of work to do, and its super fun, because its so includive and interesting a topic. Anyone can be ecosexual. Or ecocurious, or ecoromantic, or simply ecosensual.

Works with female orgasm, you have an orgasm your model represented in seven types of orgasm (3). What led to this topic that is part of the pleasure of the woman? What have you learned and what he intended to explore and teach? How can orgasm be rewarding and pleasurable for the woman?

Beth and I are working on a book, titled An Explorer’s Guide to Planet Orgasm for Janet Hardy and her Greenery Press. Its about orgasm for everyone, using nature metaphors. Nature is a great sex educator. I have already done a movie documentary about orgasm. And wrote about it a lot. Because I really love to research orgasm. And use my body as a laboratory. We also have a book with Univerisity of Minnesota press. An excellent press. To do a book called Assuming the Ecosexual Position. About our work of the past 14 years collaborating together. Mostly focused on the ecosex work we have done for the last 9 or so years.

You built a picture in vulva format to your face (4), arms and your breast outside. What message would convey to show the vulva and breast? How important is for you to address both sexual organs of the woman? This work is to respond to a gap of lack of love and knowledge for breast and vulva?

In my older work, and in Beth’s older work, we were more focused on the human body, particularly the erogenous zones. Now we have expanded our interest to include the whole body and beyond. For example, we are interested in how our bodies have a biome cloud, and our biome clouds are all having sex with each other. Our own sexuality is part of a whole ecosystem. We just don’t think about it or acknowledge it. All human sex is ecosex because we are all part of the Earth, not separate from it. When you masturbate, you make love to the Earth. When you make love to the soil, you make love to the Earth, and that’s part of us also.

You traveled throughout the world to study ancient sex techniques of the spiritual side of sex, did many workshops and held a magical masturbation ritual to evoke the legend of the sacred prostitute. How these trips by former studies, the learning of masturbation and prostitution legend contributed to your knowledge?

I’ve been doing work about sex for 42 years now. I’m going to be 62 in a week. So I’ve had a lot of experience. When you stick with something long enough, you’re going to learn about it. But the more you learn, the more you realize there’s a lot more to learn. Sexuality is a huge subject. Its like life. Beth has always been a very sexual person also. So we are a great team. We have lots of the same interests, same politics, same kind of things we like to do. But also quite different perspectives. She sees things from a sculptors point of view. I still see things as a sex worker often. But the big thing is we are both artists, and we both love experimental and conceptual art.

Developed a 14-step program (5). In what way this program can be positive for the exploitation of sexuality and its opening? It has the ‘Spectacular Sex massage’ how can these programs, exercises be important for the development of pleasure?

I have written a 12 Step Program to Cure Sex Worker Burn Out. Its tips for self care that anyone really can use. I also developed the female genital massage rituals that Joseph Kramer developed during the AIDS crisis, thorugh his Body Electric School of Massage, and his Celebrating the Body Erotic workshops. These days there are a lot of people teaching versions of what Joe and I developed. He is a sex visionary, and I concider him our husband. Beth and I are very close with him and he is our ‘sacred intimate’ whom we love deeply and enjoy spending quality time with.

It has been a sex worker for 20 years during this period and your work, which bases acquired to explore in your academic studies? How it is that it was enriching for your sexual exploitation?

My interests in sex now days are very different than in past decades. Everything seems to change from extreme to extreme. I’m all about ecosex now. I couldn’t’ imagine doing some of the things I did before. Mostly it would be boring, because I did some things so much. Sex after menopause is quite different. The sex drive changes quality. I eroticise nature and just about everything. Its all more sublte, and soft. Where as when younger I focused totally on people and I wanted it all really hard.

Has this project as free public service to the people ‘Sex Sidewalk Clinics'(6). What added value is this project for those who pass on the street and risk being consulted for you? What can people take learning to be open to sexuality and your know?

Beht and I have done dozens of Free Sidewalk Sex Clinics at all sorts of public places. Mostly on college campuses, where they really need it. We simply give out free sex advice with a group of 5-7 sex experts. Its fun and always interesting. And people appreciate it. Also the sex educators get to network with each other and we like to meet sex educators. When we say sex educators, they can be therapists, and AIDS educators, and Planned Parenthood people. Or they can be sex toy people, prostitutes, professional dominatrixes or anyone that works in sex and is an expert on something about sex. WE like to offer a wide ranging menu. Its fun, and it’s a performance art happening.

Wehave had several Free Sidewalk Ecosex Clinics where we teach about ecosex. People love it or don’t like it or hate it. We welcome criticism of all kinds. It only helps us develop our art, theories, practices and our activism. There are many critiques of ecosex. And we have good answers to the critiques, which we are writing in a book for University of Minnesota press. Our book will be called Assuming the Ecosexual Position. I have to get back to working on it right now!

Beth sends her regards.
Use whatever you want from our web sites.

Here is a nice little video made recently. Just five mintues long.

Eco Artists Transform “Mother Earth” into “Lover Earth”

(1) http://sexecology.org/

(2) Sex Sidewalk Clinics

(3) – can be read here: http://anniesprinkle.org/seven-types-of-female-orgasm/
(4) http://anniesprinkle.org/the-sex-addiction-myth/

(5) http://anniesprinkle.org/photos/photo-archive/2000s/

(6) http://anniesprinkle.org/projects/archived-projects/annie-sprinkles-herstory-of-porn/

Project Let’s Talk About Sexuality
Interview: Pedro Marques
Translation and Correction and: Mário Martins