Interview with Kaleigh Trace, disable queer sex educator

How did you learn to talk about sex and how did you, from there, got to learn more about sexuality and help people as a sexual queer educator?

I’m still very much learning how to talk about sex! While I’ve certainly grown and evolved as a communicator, there is always more to learn. The skills that I do have are things that I’ve learned from watching others. Working in a sex shop throughout my 20’s exposed me to a lot of different kinds of people and ways of having sex/experiencing pleasure, so that taught me a lot. And too, growing up disabled forced me to get comfortable discussing human bodies at a young age – the ways we function, the messes we make, the things we need. Talking about sex and talking about disability can really mirror one another in the vulnerability that both conversations may elicit.

You are the author of “Hot, Wet and Shaking”. Was it motivating and fundamental to write this book and being able to talk about your experience as someone who was sexually ignorant as well as about your path along your learning and sexual experiences? What did you learn while writing this book?

Oh man, writing a book is hard work! Hot, Wet & Shaking is over two years old now and my feelings about it are ones of relative discomfort. I am glad that I wrote it and that another personal narrative of sex and disability exists in the world, but sometimes thinking about it makes me feel like I’m 16 again and standing naked in the middle of my high school cafeteria. So, while I am not sure that I would call the experience of writing it motivational or fundamental, I would say that I am grateful to have had the opportunity to write a book, and that I really believe that more and more disabled voices need to be heard in the world.

In different interviews as in your book you make note of your disability. Is it important for you to talk about disability in sexuality? For someone who was once shy about sex, how was it to overcome twofold the barriers and to learn and teach about sexuality to people of all conditions?

Yes, talking about sexuality and disability in tandem is of great importance to me. The perceptions of people with disabilities is so skewed and limited – we are so often cast as not having sexual desires nor being sexually desirable; or we are rendered invisible; or we are fetishized in a way that might feel good for some but alienating for others. Rarely are disabled people allowed the opportunity to define our selves outside of these socially constructed parameters. So for me initiating conversations that broaden our collective ideas about bodies and value is really important.

As a queer sex educator you took part in Halifax Dyke & Trans march, you read “Show Yourself To Me: Queer Kink Erotica” and you hold a section dedicated to queer culture. How important have the reading, your part in the march and the exclusive writing on queer culture been important to the knowledge and queer living and evolution for you as a sexual queer educator?

Wow, you’ve done your research! Yep, I definitely get around and get involved in a lot of different things.
Identifying as queer is really important to me, and participating in queer culture is a place where I feel safe. Queerness makes sense for me because it often feels like when I am with a bunch of people who have already had to push beyond the traditional limits of gender and orientation, my body can be more seen and understood. While queerness and disability are not the same, I think that often difference can meet difference with more openness.

Your work is also about organizing sexual toys workshops and approaching the sexual health topic. How are sex toys important and essential to everyone’s sexuality and eroticism? In your workshops how do you present sex toys and the ways in which they can be used as a complement and beneficial to sexuality?

I love sex toys! I’m not going to claim that they are important for every single human to enjoy or to use, but in my experience, sex toys can offer a chance to experience and own your body in whole new ways. Sex toys can create sensations, can reach new places, and can offer a sense of pleasure that for some, it can be hard or impossible to do solo. For some folks who have a hard time reaching orgasm, sex toys can be totally eye opening. For people with injuries, disabilities and/or limited mobility, sex toys can provide a lot more access to pleasure.
I respect and understand that a lot of people might be imitated by sex toys. I think some people view them as competition, or others think that they are only for single people. So in my work I try to present sex toys as just another way one might want to experience physical pleasure – just as fun as eating a really good sandwich.

You have approached the sexual health topic in your work. Having in consideration the on going marginalization of disable and general sexuality, what is your perspective on the sexual health issue?

Disabled people are marginalized in a myriad of ways. We are excluded by the inaccessibility of spaces, by the unwillingness of nondisabled people to look at us and take us seriously, by so many visible and invisible barriers. Sexuality is one of many arenaa where we don’t get to experience the full breadth of our human rights – the right to pleasure, the right to self-identify, the right to treatment (often doctor’s offices are inaccessible and STI tests can’t be conducted). And so I am heartened by disabled folks who are doing work to make sexuality and sexual health more accessible (see Andrew Gurza, Loree Erikson, or Lyric Seal for example).

Thanks for your time, and all the best wishes for your work.

Project Let’s Talk About Sexuality
Interview: Pedro Marques
Translation and Correction and: Joana Correia

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Entrevista a Rui Ferreira Carvalho

Entrevista a Rui Ferreira Carvalho, Coordenador do SexED – Projecto de sexualidade dedicado às Escolas do Ensino Básico e Secundário para colmatar a falta de Educação Sexual em Portugal (https://www.facebook.com/S3xED.edu/)

De que forma é que é fundamental a realização de sessões sobre sexualidade nestas idades escolares?

A educação para a sexualidade é um elemento essencial do desenvolvimento pessoal. Antes de mais, é necessário distinguir que sexualidade (e consequentemente as informações veiculadas pelo nosso projecto SexED -https://www.facebook.com/S3xED.edu/ – nas sessões de educação sexual) engloba muito mais do que somente sexo; ao ser um conceito amplo e abrangente que inclui diversas esferas de relações interpessoais, familiares e íntimas, incluindo temáticas sociais, biológicas e psicológicas.
O que temos notado relativamente à educação sexual no Ensino Básico e no Ensino Secundário é que, apesar de estar previsto na lei, os alunos queixam-se do facto das suas formações (e informações) nesta área serem deficitárias (recorrendo frequentemente a pares para tirar dúvidas – o que raramente se traduz na informação mais correcta).
O nosso projecto constitui uma forma informal, jovial e, até certo ponto, educação pelos pares (pela nossa idade e postura), mas com informação com correcção científica e sociológica, baseada na nossa formação como médicos e no nosso investimento pessoal na área da sexologia.

A partir dos temas debatidos, com orientação sobre a gravidez indesejada, a anatomia normal e funcional do sistema reprodutivo de ambos os sexos entre outros temas, de que forma é que pode ser conseguida uma sexualidade mais satisfatória com menos riscos e mais prazer?

Ao já ter sido demonstrada a ineficiência da educação sexual centrada na abstinência (e com pouca informação biológica e anatómica) na prevenção de gravidez na adolescência ou na alteração de qualquer tipo de comportamentos de risco, o nosso projecto tem como linha orientadora a formação e o acesso a informação correcta e adequada à idade como modo de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e de gravidez indesejada na adolescência.
É importante salientar que o maior acesso a informação sobre sexualidade não se encontra associado a uma idade de início de actividade sexual mais precoce (pelo contrário!). Da mesma forma, informar acerca de contraceptivos, bem como divulgar e facilitar o seu acesso, permite uma sexualidade mais livre, com menos riscos (preservativo como único meio de prevenção de ISTs; restantes métodos para prevenção de gravidez indesejada).

Desde que começaram a fazer sessões, que principais lacunas têm encontrado? Como podem estas sessões melhorar e consciencializar as crianças e as pessoas envolventes para a sexualidade?

Apesar das dúvidas normais acerca de biologia masculina e feminina e de ISTs, a componente que é mais deficitária dentro da formação da sexualidade é a componente psico-sociológica relacionada com Orientação sexual e Identidade de género. Infelizmente, ainda existem muitos mitos perpetuados acerca da homo/bissexualidade, desconhecimento de outras orientações sexuais, incredulidade perante a assexualidade e transfobia (em relação com desconhecimento, preconceitos ou mesmo confusão de conceitos).

Partilharam um vídeo da Unicef sobre a mutilação genital feminina, num projecto de sexualidade, de ensino e aprendizagem. Para vós, em que é que este acto bárbaro pode prejudicar o normal funcionamento do órgão sexual da mulher e a sua sexualidade?

Numa sessão que contou com a participação de associações com acções em África (nomeadamente Guiné) e comunidades portuguesas com população guineense em que pude estar presente foi salientada a relevância deste tema para a comunidade portuguesa. Estima-se que esta prática tenha ocorrido em mais de 125 milhões de mulheres e crianças em 29 países em África e no Médio Oriente, mas também ocorre mais perto do que possamos imaginar (foi precisamente este o fundamento da campanha publicitária anti-FGM “It happens here”, também divulgada pelo SexED).
A Mutilação Genital Feminina (MGF) classifica-se em vários tipos de acordo com as estruturas genitais externas que são manipuladas ou excisadas/removidas; indo desde modificações que incluem “apenas” a excisão do prepúcio do clítoris até procedimentos que têm como objectivo a remoção do clítoris (“o órgão do prazer feminino”) e dos pequenos lábios e até mesmo fundir (com queimaduras ou suturas) os grandes lábios. Estes são procedimentos feitos em crianças/adolescentes sem qualquer tipo de assepsia ou condições de higiene, podendo pôr em risco a vida da mulher devido a infecções ou complicações hemorrágicas. Para além deste perigo imediato, as complicações para a sua saúde sexual e reprodutiva (e mental) podem perdurar para o resto da vida; existindo relatos de dor com excitação, dor/dificuldade com penetração, dor com o orgasmo, dificuldades num eventual parto por via vaginal, entre outros.
Outros nomes/expressões para esta mutilação incluem: “corte”, “submeter-se à tradição”, “fanado”, “circuncisão”.

Um artigo que partilharam sobre sexo e consentimento refere que 29% consideram que sexo sem consentimento pode ser justificado. De que forma pode ser prejudicial para o bem-estar psicológico, afectando a sexualidade e a própria vida? Como o vosso trabalho pende para as escolas, de que forma deve este tema ser retratado?

Sexo sem consentimento é violação. Este conceito tem de estar presente nas mentes de toda a gente; e é essa uma das mensagens-chave do SexED. Nunca é excessivamente salientado na comunicação social ou na comunidade em geral a relevância de não existirem áreas cinzentas no que toca a violação versus consentimento. Ninguém nunca está “a pedi-las”/”asking for it” no que diz respeito a actos sexuais não consensuais; independentemente de roupa, género, comportamento, estado de consciência ou embriaguez, mudanças de decisão (o consentimento é revogável em qualquer momento)…
Quanto ao bem-estar psicológico, é evidente e está amplamente descrita a ocorrência de Perturbação de Stress Pós-Traumático em vítimas de violação. Nas nossas sessões, chamamos sempre à atenção o facto de ocorrer violação no sexo masculino (inclusivamente por mulheres), que é muitas vezes sub-reportada ou subvalorizada pelas vítimas, seus pares e autoridades (constituindo uma forma de perpetuar a vitimização secundária).
Como conclusão, é necessário que esses 29% (e restantes pessoas que poderiam não estar conscientes do imperativo da necessidade de consentimento) que responderam dessa forma a esse estudo passem a ter noção que responderam “sim” à questão “violação pode ser justificada?”; o que é completamente desumano.

Partilharam igualmente uma notícia sobre as declarações da Presidente da Associação dos Psicólogos Católicos. Que visão transmitem para as crianças em relação ao tema da homossexualidade?

A nossa visão corresponde à visão da Organização Mundial de Saúde (OMS/WHO) e da American Psychological Association (APA) acerca da orientação sexual: não é uma escolha, não é hereditária (e não se encontrou fundamento genético único – “causa”), não é uma patologia, nem é um estilo de vida. É difícil reduzir um comportamento tão complexo a certos aspectos biológicos ou psicológicos.
Orientação sexual refere-se ao padrão de atracção física e emocional (incluindo fantasias, actividades e comportamento sexual) e ao género dos indivíduos pelos quais se exerce essa atracção. A avaliação individual que um indivíduo faz da sua orientação sexual constitui a sua identidade sexual.
Divulgamos, nesse sentido, o “Dia Nacional contra a Homofobia e a Transfobia” #IDAHOT, celebrado a 17 de Maio. Este dia “é celebrado em todo o mundo e reconhecido oficialmente em diversos Estados e na própria União Europeia como a data em que se assinala o longo percurso do combate à discriminação homofóbica e transfóbica e a luta pelo reconhecimento de direitos face à lei, recordando o momento em que, em 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua classificação internacional de doenças, derrubando uma barreira simultaneamente real e simbólica de preconceito homofóbico”.
Desde 2004 (há 12 anos atrás) que a APA – American Psychological Association (entidade de referência científica internacional) adopta uma resolução a favor da adopção por casais do mesmo sexo, baseada em vários estudos científicos (de qualidade).

Enquanto ainda alunos de quintos e sextos anos da universidade e jovens médicos, é importante e enriquecedor para vós a criação deste projecto voluntário de partilha de sabedoria sobre educação sexual e sexualidade para as escolas? O que têm aprendido e como têm conseguido quebrar a enorme falta de educação sexual?

Neste momento, todos os elementos do nosso projecto de educação sexual SexED concluíram a Licenciatura em Estudos Básicos da Saúde (incluída no Mestrado Integrado em Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa). Alguns dos nossos membros, incluindo eu, são já Médicos (com Mestrado) Internos de Ano Comum em hospitais na região de Lisboa e Vale do Tejo. Assim, em acréscimo à formação da componente curricular anatomofisiológica, biológica, clínica e médico-legal adquirida na Faculdade de Medicina de Lisboa, foi necessário um investimento pessoal para frequentar formações extra-curriculares relacionadas com Sexologia e investigação própria em bibliografia de relevo científico e sociológico no âmbito do estudo da sexualidade; desenvolvendo as temáticas menos discutidas em Medicina (como orientação sexual, identidade de género, violação e consentimento, violência de género e papéis de género).
Aprendemos sempre imenso com as sessões que fazemos e as dúvidas que nos colocam, pelo que apelamos sempre que nos contactem, sem vergonhas ou inibições, pelo nosso Facebook https://www.facebook.com/S3xED.edu/ ou pelo nosso email sexed.edu@gmail.com

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Daniel Abrunheiro
11 de Janeiro de 2017

Entrevista ao Psicólogo e Investigador Tiago Pereira

Para o seu mestrado está a estudar: “O Papel da Discrepância de Desejo Sexual na Satisfação Sexual e Relacional em Homens: O Papel da Orientação Sexual”. O que o levou a querer investigar sobre a sexualidade, o desejo e a satisfação sexual e relacional entre homens?

O meu interesse pela área da sexualidade surgiu já no início do meu Mestrado Integrado em Psicologia na Universidade do Minho e desde cedo foi meu objetivo trabalhar nesta área. Nos primeiros anos do curso, envolvi-me no projeto de colaboradores de investigação que a Escola de Psicologia disponibiliza aos seus alunos e a partir desse momento tive a oportunidade de contactar tanto com a área da sexualidade como dos relacionamentos amorosos, ao acompanhar as investigações realizadas pela Professora Doutora Joana Arantes. No âmbito desse projeto, acompanhei investigações que se debruçavam sobre o impacto da infidelidade no desejo sexual, atratividade e qualidade do relacionamento e sobre o impacto do diagnóstico de cancro nos relacionamentos íntimos. O envolvimento nesse projeto proporcionou-me, além do contacto com os diversos temas mencionados, o desenvolvimento de competências de investigação e pesquisa.
Chegado ao 2º ciclo do Mestrado Integrado e tendo oportunidade de trabalhar e investigar sobre sexualidade decidi agarrar esta oportunidade. Inicialmente, não havia um tema definido, mas após algumas leituras e com a ajuda da minha orientadora, a Doutora Manuela Peixoto, cheguei a este tema. O desejo sexual e, em particular, a discrepância de desejo sexual despertaram-me particular interesse, tendo-se elaborado, por isso, uma investigação nesse sentido. Ao perceber que existia uma lacuna na literatura e por questões metodológicas, a investigação foi delineada no sentido de se estudar o papel da discrepância de desejo sexual sobre a satisfação sexual e relacional numa amostra masculina. Uma vez que a maioria dos estudos se foca numa perspetiva heteronormativa decidiu-se expandir o estudo a todas as orientações sexuais, também com o objetivo de perceber se a orientação sexual tem alguma influência sobre o papel da discrepância do desejo sexual.

O que tem aprendido com o seu estudo sobre este papel do desejo sexual? Que importância tem para si e para as pessoas este estudo? De que forma pode ser fundamental para a compreensão e uma visão diferente do papel do desejo sexual e da satisfação sexual?

Desde o início do estudo que tenho aprendido bastante sobre o tema, sendo que o desejo sexual pode definir-se, de uma forma muito sumária, como o componente motivacional do ciclo de resposta sexual. Este pode preceder e acompanhar a excitação sexual e regra geral sofre flutuações ao longo do tempo, não só na vida de um indivíduo como de um casal. Num casal o nível de desejo sexual pode estar sincronizado ou pode acontecer que um indivíduo experiencie maior ou menor desejo sexual do que o parceiro, havendo nesse caso uma situação de discrepância de desejo sexual.
O desejo sexual é um dos principais fatores que afeta não só a satisfação sexual como relacional dos indivíduos e do casal. Segundo a literatura, a discrepância de desejo sexual é comum entre os casais e de acordo com a capacidade dos indivíduos para lidar com esta diferença ao nível do desejo do casal pode ou não constituir um problema, podendo de igual forma ter um impacto significativo sobre a satisfação sexual e relacional.
De entre os problemas sexuais mais apontados pelos pacientes em terapia, destacam-se os problemas com o desejo sexual. Na maioria das vezes, o foco é o parceiro com baixo desejo sexual, e menor atenção é dada ao parceiro com elevado desejo sexual, isto porque ter maior desejo é visto como normal e saudável. Por outro lado, ter baixo desejo é visto como patológico. No entanto, não existem padrões de desejo sexual, e ter mais desejo sexual não é necessariamente melhor que o contrário, sendo o mais importante o equilíbrio satisfatório entre o casal. O estudo das discrepâncias de desejo sexual entre parceiros torna-se fundamental para a prática clínica, uma vez que permitirá, por exemplo, o entendimento do baixo desejo sexual dentro da relação de intimidade de cada casal, impedindo a atribuição de diagnósticos precoces de problemas de desejo sexual. Tal como Zilbergeld & Ellison (1980) defendem, o tratamento perante situações de discrepância de desejo sexual passará pelo foco no casal, tentando em simultâneo aumentar o desejo sexual de um parceiro e diminuir o do outro.

O prazo do estudo conclui em Fevereiro de 2017, no entanto o que é que já nos pode falar sobre os objectivos do estudo?

O estudo tem como objetivo principal perceber se a discrepância de desejo sexual dentro de um casal tem impacto sobre a satisfação sexual e relacional do homem, e perceber se existem diferenças entre homens que mantêm relacionamentos com mulheres e homens que mantêm relacionamentos com outros homens. De momento, o estudo encontra-se ainda em fase de recolha de dados, mas, e de acordo com a literatura existente sobre o tema, é esperado que homens que experienciam discrepância de desejo sexual no seu relacionamento e a consideram problemática se sintam menos satisfeitos sexual e relacionalmente em comparação com homens que não experienciam discrepância de desejo sexual ou não a consideram problemática, independentemente da sua orientação sexual.

Tradução e Validação da Escala de Funcionamento do Sistema Sexual para a Língua Portuguesa. –
Em 2014 fez a apresentação do póster dos resultados preliminares da investigação do V Seminário de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho. O que significou este trabalho para si? De que forma foi enriquecedor este trabalho de apresentação dos resultados e do funcionamento do sistema sexual?

Esse trabalho foi desenvolvido em conjunto com outras colegas no âmbito de uma unidade curricular de investigação, no segundo ano de do curso. Por essa altura, fomos desafiados pela docente responsável pela UC, a Professora Doutora Joana Arantes, não só a traduzir e validar este instrumento como a apresentar os resultados preliminares da investigação desenvolvida. Este trabalho permitiu tanto o desenvolvimento de competências ao nível da investigação, como o desenvolvimento de um trabalho sobre sexualidade, nomeadamente, sobre funcionamento sexual. Um bom funcionamento do sistema sexual requer a coordenação das motivações e ações de ambos os parceiros, e depende não só da capacidade de atrair um parceiro, mas também da disponibilidade para as preferências sexuais do parceiro. Esta escala permite avaliar as diferenças individuais no sistema comportamental sexual e como estas podem afetar o bem-estar pessoal e interpessoal.
A apresentação deste trabalho num simpósio de investigação permitiu a exposição do mesmo, o contacto com outros investigadores e a partilha de conhecimentos e opiniões.

“Está a decorrer um estudo sobre discrepância de desejo sexual em homens, no âmbito da dissertação de Mestrado Integrado em Psicologia (Universidade do Minho) do aluno Tiago Pereira. Para participar basta ter mais de 18 anos, ser homem e estar numa relação monogâmica (independentemente da orientação sexual). O questionário é muito breve e tem a duração de cerca de 5 minutos. Para participar basta aceder ao link:https://goo.gl/forms/VOULkViUJ5JpZUEP2

Desde já agradeço a sua colaboração.”

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
06 de Janeiro de 2017

Entrevista a Carla Felício

Entrevista a Carla Felício – Massagista, Naturista, Massagista Tântrica, Tailandesa, Ayurvedic, Lingam e Yoni

Faz massagem Tântrica, Yoni, Tailandesa e Ayurvedic. De onde surgiu a vontade de trabalhar estas vertentes das massagens, a sexualidade e o prazer nelas inerentes? De que forma é que o seu trabalho desenvolve a sexualidade dos seus pacientes através das massagens Tântricas e Tailandesas?

Sempre tive um enorme gosto pela saúde e o tratamento de corpo. Desde cedo fui revendedora de marcas de cosmética e já me atraia aquilo que aprendia nas formações que ia tendo, no entanto nunca me despertou grande interesse a massagem.
Gostava e gosto de SPA e massagens e tudo o que envolva esses temas e ambientes, mas não me via a mim como massagista.
O caminho que me trouxe até este trabalho nada teve a ver com um interesse meu mas uma última alternativa para resolver a minha vida. Sou uma pessoa bastante sensível, e após o meu divórcio sofri algumas desilusões amorosas que me foram deixando emocionalmente muito frágil. Por outro lado, sendo o pilar de uma família monoparental num país que pouco ajuda, também a minha situação económica estava completamente desastrosa, passámos alguns momentos complicados, por vezes ficávamos sem electricidade, ou sem gás, e muitas vezes já não sabia o que dar de comer às crianças.
Qualquer emprego que tivesse, não só não era suficiente para eu poder viver, como me deixava muitas vezes sem alternativas para estar e cuidar dos meus filhos.
Toda esta pressão sobre mim, tornou-se um desespero e um dia acabei por ceder a uma proposta de uma colega para entrar no mundo da prostituição. Bastaram-me uns dias para perceber que não gostava desse trabalho. É demasiado frio, demasiado insensível para o meu feitio. Um dia recebi uma chamada de uma massagista que pretendia uma colega. Na mesma altura fui também chamada para uma formação de estética e massagem e comecei a conhecer e a gostar da massagem. Fiz os primeiros anúncios de massagem, fui aprendendo e evoluindo o que já tinha aprendido. 3 anos passados, considero que gosto do meu trabalho que como qualquer outro tem coisas boas e menos boas.
Gosto de dar prazer e bem estar aos outros, existem prazeres que muitas vezes as pessoas não se dão oportunidade de os sentir. O toque, o envolvimento geral de uma massagem mesmo sem sexo, especialmente se tiver a componente Yoni ou Lingam, é realmente muito intenso e prazeiroso.
Por vezes recebo clientes que não procuram bem o que eu tenho para oferecer. Querem somente sexo, trazem na ideia uma qualquer imagem pornográfica e acham que eu estou aqui para lhes realizar essas fantasias. Normalmente esses clientes não levam o que de melhor tenho para oferecer. Primeiro porque nem deixam que eu faça a massagem devidamente e depois porque o resto já não é tão bom como deveria ser pois eu não gosto desse tipo de pressão.
O meu trabalho é muitas vezes mais terapêutico a nível emocional. Mais que uma vez alguns clientes acabam por desabafar problemas sexuais que vivem, ou problemas em relacionamentos, às vezes choram, eu também já chorei com alguns clientes. No fundo estamos nus de corpo e alma, ali naquele quarto não há julgamentos, eu tento ajudar naquilo que posso mas também tenho clientes que se tornam meus confidentes. Este trabalho tem-me mostrado um mundo masculino cheio de carências de afecto, cheio de solidão, de problemas sexuais ou emocionais. Um mundo que passa um pouco ao lado do que é a visão do sexo masculino. Tento sempre ajudá-los a entender a mulher e o que aprendo com eles, tento ajudar as mulheres a entenderem os homens.

Desde que começou a desenvolver o trabalho para a sexualidade, o que aprendeu e conseguiu melhorar na sexualidade das mulheres e dos homens que procuram o seu trabalho?

O objectivo do meu trabalho em relação à sexualidade de quem procura, é libertar as pessoas dos tabus, do receio de conhecerem melhor o próprio corpo e os prazeres que podem sentir. Aprendi algumas coisas que tento sempre transmitir a quem me quer ouvir. Por ex: que muitas vezes os homens amam as suas parceiras, mas com os anos deixam de ter apetite sexual com elas. É como o perfume, se usamos muito tempo deixamos de o sentir, mas continuamos cientes que ele cheira bem e que gostamos dele. Se mudarmos de perfume uns tempos, quando voltamos a usar o outro, já o conseguimos cheirar novamente. Acho que isto se passa com muitos homens, quando procuram outras mulheres, outras sensações, normalmente voltam a sentir também maior desejo pelas companheiras. Porque ao contrário das mulheres, um homem que não sinta desejo não consegue ter sexo. Neste sentido seria bom haver mais abertura entre os casais para entenderem estas coisas. Há muita falta de abertura no que toca a assuntos sexuais, por vezes por parte da mulher, outras por parte do homem. Muitos querem viver muitas coisas mas não as querem viver com os parceiros ou têm receio de falar sobre isso com eles, isso acaba muitas vezes por arruinar a vida sexual dos casais.
Aprendi que os homens não pensam só em sexo como é normal as mulheres pensarem, e até eles se confundem um pouco e confundem carência de afecto com falta de sexo.
Descobri que existem mulheres que vivem ainda uma sexualidade muito reprimida, ou pela educação que tiveram, ou pelo receio dos julgamentos sociais. O número é bem maior do que eu imaginava.

Como podem as pessoas conhecer melhor estas vertentes da sexualidade, do erotismo e das massagens para que possam retirar mais prazer e ter uma melhor sexualidade?

As pessoas podem conhecer melhor estas vertentes da sexualidade procurando, conhecendo-se melhor, explorando o mundo dos desejos no seu intimo e deixarem-se levar entregando-se à realidade de os viver. Como pode alguém oferecer prazer a outra pessoa se não tiver ciente do que é ter prazer? Como pode alguém ter e dar prazer se não de libertar para isso?

Nos seus blogues tem publicados vários contos eróticos. De que forma é que escrever estes contos, a dupla que faz com Laura, o serviço de Suaves e Sensuais Dominações, a fazem ter uma mente mais desperta e aberta para o erotismo, a sexualidade e a fazem desenvolver nesse sentido?

O que me leva a escrever é o gosto pela escrita, mas acima de tudo é a forma de continuar em contacto com que me segue e me gosta de ler e de partilhar os meus ideais que podem servir de ajuda a outros. Sempre gostei de escrever e contar fantasias minhas e ao longo dos anos as pessoas a quem eu mostrava ou falava as minhas fantasias, todas me foram aconselhando criar um blog, e assim fiz. Fiquei um pouco surpresa pois não imaginava que em tão pouco tempo fosse ter tanta visualização. Por vezes não ando inspirada algum tempo, há sempre coisas da nossa vida privada que nos podem tirar a vontade de escrever de vez em quando. Quando passo um tempo sem lançar nada de novo, começo a receber mensagens dos leitores que querem sempre ler mais qualquer coisa. Por vezes os clientes também querem que escreva sobre os nossos momentos. Eu tento escrever para todos, por vezes coisas que vivo, outras coisas que fantasio, e por vezes misturo um pouco de tudo. Também costumo escrever alguns desabafos, nestes trabalhos sofremos quase todos os dias algum tipo de discriminação ou insultos. Escrevo também para mostrar ao mundo que o sexo é algo natural, que deve ser vivido em liberdade, que não devemos discriminar opções ou a sexualidade de cada um. As pessoas não são o sexo, não são as relações que têm ou as profissões que fazem, as pessoas são aquilo que são. Podem existir pessoas fantásticas ou menos boas em qualquer trabalho ou com qualquer tipo de vida sexual.

Escreveu um texto sobre masturbação. Como é importante para si a prática da masturbação, falar-se sobre masturbação e haver uma maior abertura para esta prática natural e sexual?

Como já tinha referido anteriormente, não se pode dar prazer aos outros sem sabermos dar prazer a nós mesmos.
Todos nós nascemos com a curiosidade de descobrir o corpo e em determinada altura todos temos a ideia de nos tocarmos e acariciarmos, é algo natural que nasce connosco, e mesmo sem que tenhamos a menor ideia do que é o sexo, na idade da puberdade começamos a sentir necessidade de conhecer essas novas sensações. Não dá para fugir à natureza das coisas. A masturbação é algo que nos faz conhecer o próprio corpo. Amar-nos a nós mesmos! Independentemente de se ter uma vida sexual mais ou menos activa, acho que todos nós devemos masturbar-nos de vez em quando. Só dessa forma descobrimos melhor o que o corpo tem para nos oferecer e ajuda-nos a descontrair e libertar-mo-nos de pudores e vergonhas. Temos de amar o nosso corpo e aceitar-mo-nos da forma que somos.

Como é que as pessoas conseguem saber até onde as suas massagens as podem levar em termos de erotismo, sexualidade…?

As pessoas só podem saber onde as massagens as podem levar se vivenciarem o momento. Eu adoro sushi, muita gente poderá dizer o mesmo, mas outros não podem com o cheiro. Cada um terá uma opinião sobre a massagem e sobre o erotismo que a envolve. Existem pessoas que só procuram mulheres de peito ou rabo grande, elegantes ou gordinhas, novinhas ou mais velhas. Cada um terá o seu gosto e nas massagens passa-se exactamente o mesmo, alguns irão viajar por mundos paradisíacos, porque gostam e procuram as sensações, o erotismo, o sexo intenso. Outros irão achar que não tenho o corpo perfeito, que não digo muitos palavrões ou não grito, ou que perco muito tempo na massagem etc. Não posso agradar a quem não aprecia este prato.
Quanto aos que procuram relaxar e sentir todo o envolvimento do meu trabalho, com certeza irão gostar, e por vezes tentam também aprender, o que é uma mais-valia, pois acabam por conseguir dar aos outros parceiros algo bom. Fico contente quando vejo que os clientes procuram saber mais sobre como dar prazer aos parceiros. É uma barreira derrubada, é um passo para a evolução sexual ter vontade de aprender e de dar ao outro o que de melhor se pode oferecer.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Mário Martins
07 de Janeiro de 2017

Entrevista à Psicóloga Investigadora Daniela Pereira

A Daniela é investigadora do Sex Lab e fez o estudo de Mestrado Integrado em Psicologia, tendo como área de especialização Psicologia Clínica e da Saúde, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. A sua tese de mestrado é sobre “Estrutura Psicológica em Mulheres Sexualmente Agressivas“ Quais foram as suas motivações para este estudo?

»Eu sempre tive interesse na área da sexualidade humana. Desde que entrei para a faculdade que, quem me conhece, sabe que era a área que eu pretendia seguir em Mestrado e, consequentemente, na dissertação, recaía sobre essa área mencionada. Quando soube que tínhamos na faculdade o SexLab fiquei extremamente entusiasmada e fiz lá, inclusivamente, um miniestágio que a nossa AE nos proporciona; realizei também as unidades curriculares relacionadas com a sexologia, tendo sempre em vista um futuro nesta área particular. Aquando da altura da escolha dos orientadores e temas de dissertação eu tinha uma visão clara sobre o tema geral que queria escolher, mas o tema específico da “Estrutura psicológica em mulheres sexualmente agressivas” foi apenas escolhido na altura. Não havia um tema específico sobre o qual me interessasse, uma vez que o meu interesse pela área é vasto, pelo que escolhi aquele que, na lista que nos é fornecida, me parecia o mais interessante e inovador. A Dra. Joana tinha nos seus tópicos de investigação o mesmo tema, mas focado no sexo masculino, mas eu logo que vi este tema centrado nas mulheres, soube que era nesse que queria trabalhar, uma vez considerar ser uma população menos estudada e que me permitira um maior contributo para esta linha de investigação. Assim que comecei a pesquisa sobre o tema, percebi que efetivamente havia pouco desenvolvimento na literatura sobre mulheres sexualmente agressivas e o entusiasmo cresceu ao dar conta que o estudo que iria desenvolver poderia ser uma mais-valia e uma base para o crescimento da investigação sobre esta população e todos os fatores e contextos inerentes.

A que conclusões chegou a partir da sua investigação?

Objetivamente, pôde-se concluir através dos dados obtidos que as mulheres universitárias com relato de algum tipo de estratégia sexualmente agressiva para obter contacto sexual com o sexo oposto, quando comparadas com universitárias que não relatavam a utilização deste tipo de estratégias, apresentaram significativamente mais sintomatologia do foro psicológico. Nomeadamente, têm associadas, características psicopatológicas de somatização, obsessões e compulsões, sensibilidade interpessoal, depressão, ansiedade, hostilidade, ansiedade fóbica, sintomas paranóides e psicoticismo; uma personalidade pautada por maiores níveis de neuroticismo e menores de amabilidade e conscienciosidade; maiores níveis de impulsividade motora/planeamento e impulsividade cognitiva; mais afeto negativo; e, por fim, maiores dificuldades na identificação de sentimentos. Indo além destes resultados, pude observar, a partir desta investigação, que esta temática é pouco desenvolvida e ainda bastante “estranha” na sociedade (particularmente junto da população universitária, sendo aquela com o qual tenho mais contacto). Digo isto, porque quando andava a publicitar o meu estudo notava-se o interesse das pessoas na temática por ser algo diferente. À primeira vista, as pessoas achavam que seriam pessoas sexualmente agressivas “na cama”, ou seja, com uma forma sexual de ser mais agressiva; quando eu passava a explicar aquilo de que efetivamente se tratava, notava-se a surpresa na expressão delas e havia até um discurso de certa forma trocista, como que a desvalorizar o ato e agressão sexual de mulheres contra homens. Em acréscimo, quando eu obtive os meus resultados preliminares, que revelavam uma percentagem significativa de mulheres sexualmente agressivas, e comecei a falar sobre o assunto, mais uma vez obtive surpresa como reação predominante.

Para si qual é a importância de estudar esta problemática?

»Em seguimento do que disse na questão anterior, a investigação nesta área revela-se essencial numa altura em que as mulheres começam a ter menos pudor de se exprimirem sexualmente e de se “arriscarem” naquilo que desejam realmente obter e fazer, ao invés de desempenharem o papel de parceiras sexuais passivas. Por um lado, isto parece positivo para as mulheres que se começam a empoderar, contudo, isto pode ser perigoso se pensarmos que as mulheres estão a adotar cada vez mais comportamentos sexualmente agressivos, mantendo, simultaneamente, a ideia de que os homens apreciam estes comportamentos e não sofrem consequências dos mesmos (o que não se revela na realidade). Assim sendo, considero de extrema importância estudar esta problemática e estabelecer perfis de características psicológicas e de personalidade associadas a mulheres com comportamentos sexualmente violentos. Estes perfis permitirão, não só compreender a etiologia e os fatores de manutenção subjacentes aos mesmos, como também desenvolver estratégias de prevenção e intervenção direcionadas ao combate desta preocupação social. Em acréscimo, a investigação e proliferação deste tema permitirá informar e educar a sociedade para a existência deste fenómeno e, desejavelmente, contribuir para a redução, não só da agressão sexual masculina, mas da agressão sexual no geral. Isto é, instruir sobre os comportamentos que podem ser considerados como sexualmente agressivos, permitirá uma maior consciencialização dos próprios comportamentos, do tipo de relação em que se está inserido e dos recursos que se tem disponíveis. A falta de reconhecimento de uma pessoa como vítima pode impedir que esta procure ajuda e que saia de uma relação não-saudável, e a não identificação de uma pessoa como coerciva quando esta utiliza comportamentos identificados como sexualmente agressivos, pode impedir que sejam realizadas intervenções apropriadas e que esta continue a envolver-se nestes comportamentos.

O que aprendeu desde que começou a sua investigação?

Desde que comecei a investigar nesta área, aprendi que o fenómeno de agressão sexual feminina contra homens é muito maior do que se pensa e está representado em vários comportamentos, desde o mais “simples” roubar de um beijo, à mais agressiva forma de violação como a conhecemos comumentemente. Isto é, podemos falar em agressão sexual em termos de coação sexual, ou seja, predominantemente agressão verbal (i.e., ameaçar, pressionar,…), em termos de abuso sexual (i.e., utilizar uma posição de poder sobre o outro, embebedar o outro,…) e em termos de força física, que consiste em ameaçar ou utilizar força física. Principalmente, aprendi que dentro destas categorias estão comportamentos que as pessoas na generalidade não consideram como agressivos, como por exemplo, amuar quando o parceiro não quer ter relações sexuais, numa tentativa de o convencer, insistir com beijos e toques sensuais quando outra pessoa não tem vontade de ter relações sexuais, entre outros.

A sua Tese de Mestrado enquadra-se na investigação forense da sua Orientadora, de que forma é que foi uma mais-valia para a sua investigação, e influência?

Trabalhar com a Dra. Joana Carvalho há-de ser sempre uma honra, quer por razões profissionais como pessoais. Para o meu tema em particular foi, sem dúvida, uma mais-valia, porque me orientou sempre na linha certa daquilo que seria o nosso objetivo final, tendo já um maior conhecimento sobre os estudos realizados na área e quais os resultados obtidos.

Segundo a sua orientadora o seu estudo: “Versa sobre a caracterização psicológica de mulheres (estudantes universitárias) com relato de estratégias sexualmente agressivas com vista a iniciar contacto sexual com o sexo oposto (e.g., manipulação verbal, uso da autoridade, etc). Os dados indicam que estas mulheres apresentam mais sintomatologia do foro psicológico relativamente ao grupo controlo.” Focou-se nas mulheres universitárias, o que a levou a cingir-se às mulheres universitárias? Tendo em conta que é um estudo sobre violência geral que se foca na sexualidade dessas mulheres, viu uma necessidade acrescida? Como é que deve ser vista esta problemática, de que forma deve ser encarada, e que mais estudos devem ser desenvolvidos?

Optamos por nos cingir às mulheres universitárias por considerarmos que estas constituíam uma amostra apropriada e uma mais-valia para a população, uma vez que o contexto universitário é caracterizado pela procura e incentivo da atividade sexual e onde, segundo Oswald & Russell (2006), um certo nível de coação sexual é considerado normal em relações de namoro universitárias heterossexuais.
Quanto à segunda questão que colocou, não sei se estou a entender claramente a pergunta. Contudo, o estudo não é sobre violência geral, é mesmo sobre violência sexual. Com um tema tão privado e sensível está sempre sujeito ao enviesamento por parte das mulheres que respondem ao questionário, uma vez que, à partida, ninguém quer admitir que adota comportamentos sexualmente agressivos, pelo que foi necessário ter cuidado com a divulgação do estudo, não o divulgando como sendo um estudo sobre agressão sexual, mas sim sobre formas de interação sexual do sexo oposto (o que não é errado, mas omite a questão central da agressão).
Esta problemática deve ser vista com seriedade, ao invés da leveza com que a população no geral a vive. Isto acontece, pois as pessoas têm tendência a achar que os homens se conseguem defender das mulheres, que estas não conseguem subjugar um homem, contudo, isto remete quase sempre para a coação física, sendo que as pessoas se esquecem da coação verbal e psicológica. É necessário haver uma proliferação sobre a temática para que homens que sejam vítimas destes comportamentos não tenham medo de se identificarem como vítimas e procurarem apoio. Quanto aos estudos a ser realizados, existem vários que permitiriam expandir o conhecimento sobre os comportamentos sexualmente agressivos cometidos por mulheres. Nomeadamente, uma comparação do perfil psicológico de mulheres que relatam tentativas de agressão sexual e atos efetivamente consumados; compreensão das variáveis contextuais envolventes do comportamento agressivo (e.g., relação com o perpetrador, história partilhada de atividade sexual consensual e não-consensual, local do incidente, utilização de droga e/ou álcool); compreensão da avaliação que as perpetradoras fazem sobre o seu próprio comportamento sexualmente agressivo e da interpretação que os homens recetores dão. Além disso, esta ampliação de conhecimentos também poderia ser conseguida a partir da compreensão das razões subjacentes aos comportamentos sexualmente agressivos por mulheres; e através da obtenção de perfis psicológicos e de personalidade associados a formas especificas de ofender sexualmente (e.g., carícias, beijos, relações sexuais) e de interagir com o sexo oposto (i.e., coação sexual, abuso sexual, força física).

Partilhou no seu facebook, o Tedx da Nicole Prause – sobre It may not be orgasm
“se pode não ser orgasmo” e “Quais as vantagens e motivações associadas ao sexo?” O que aprendeu sobre este Tedx, e para si quais são as vantagens e motivações associadas ao sexo? Como pode ser importante a reflexão sobre o orgasmo e as vantagens e motivações?

Este Tedx veio, para mim, reforçar uma ideia sobre a qual já tinha refletido, que recaí sobre a questão da importância do orgasmo durante a relação sexual. Eu considero que o sexo é importante não apenas por uma questão de prazer, mas para aproximar duas pessoas, pois, contrariamente àquilo que muita gente pensa, o sexo é, para mim um ato muito íntimo, que quer queiramos, quer não, nos liga à outra pessoa de uma forma bastante complexa. Contudo, não considero que o mais importante seja o orgasmo, porque se pensarmos bem, qualquer pessoa pode atingir o orgasmo, sem necessitar de um parceiro sexual, mas ninguém consegue atingir, sozinho, o nível de proximidade e intimidade que as relações sexuais conseguem. O orgasmo tem, na minha opinião, muito uma função de alívio de stress, mas também de prazer; contudo, tal como a Nicole Prause fala no Tedx, concordo que não seja o orgasmo que nos traz o máximo prazer, mas sim os pequenos momentos de grande ativação e excitação sexual que lhe precedem. Creio que seja importante as pessoas refletirem sobre isto, como forma de talvez desvalorizarem um pouco o orgasmo em si e começarem a valorizar mais as restantes componentes associadas à atividade sexual, como o contacto, a interação, a relação entre as duas pessoas.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
04 de Dezembro de 2016

Entrevista a Ana Luísa Costa

Entrevista a Ana Luísa Costa – Modelo, Comediante, actriz

Pedrinho, em primeiro lugar, obrigada pela tua paciência e pelo teu interesse na minha pessoa. És um menino de Leiria de quem sempre gostei pela tua genuinidade, por se poder olhar e acreditar.

Tens trabalhado como modelo e já foste capa da Preguiça Magazine. O que mais te atrai no trabalho como modelo e pousares para a câmara? Disseste que como está a moda não te atrai tanto por falta de condições. Como é que gostarias que estivesse a situação e quais são as condições que consideras ideais para que possas trabalhar mais enquanto modelo?

Ora, permite-me dividir a resposta em duas partes. Em primeiro lugar, o meu ritual de iniciação no mundo da moda aconteceu quando tinha 14 anos e um pouco contra a minha vontade (como tudo o que me era sugerido durante a adolescência). Nessa altura, portanto há cerca de 7 anos ( ^_^ ) eu era uma tremenda “maria-rapaz”, escolhia roupa na secção de homem e tinha um andar e postura extremamente deselegantes para uma menina, e medíocres se fosse um menino. A minha mãe decidiu inscrever-me num curso de moda exclusivamente com a missão de correcção de postura.
Missão cumprida com sucesso. Daí para a frente tudo acabou por decorrer com naturalidade. O curso correu bem, acabei por tirar um segundo curso na área mais completo e com mais qualidade e visibilidade, um trabalho levou a outro, um contacto a outro, uma recomendação a outra e sempre fui fazendo os meus trabalhos a par da minha vida dita “normal”. Nunca fiz disso a minha vida, sempre fui fazendo à medida que ia surgindo e dentro da minha disponibilidade, mas as minhas ambições eram outras e não passavam exclusivamente por esse meio (chato e superficial se vivido de forma demasiado intensa).

Em segundo lugar, ganhei-lhe o gosto porque quando descobri a “minha sexualidade” e o meu lado feminino descobri que era uma grande namoradeira (o meu pai já o era e a minha mãe por mais que tente disfarçar… Tenho ali algumas suspeitas de grandes seduções). Não há nada melhor do que namorar uma máquina fotográfica! Aquele jogo de olhares, aquele ritual de acasalamento para descobrires o melhor ângulo, a provocação constante e, no fim, não tens de dar o número de telefone! Perfeito.
Quanto ao meio e às condições, sinceramente, já não me interessam. Considero-me reformada do mundo da moda. Diverti-me o que tinha para me divertir, aturei o que por vezes preferia não ter aturado, ganhei o meu dinheiro (muitas vezes quase à chapada para mo pagarem) e agora, venham as próximas.
Continuarei uma apaixonada pela fotografia, pela beleza não convencional e por mamas.

Estás neste momento a percorrer palcos a levar humor por esse país fora. Sendo uma paixão recente, o que tens aprendido desde que tiraste o curso com o Rui Sinel de Cordes e com os espectáculos que tens tido?

Aprendi tanta coisa sobre mim que já compensou pelo montante que paguei pelo curso. Também já o recuperei com os espectáculos… Não ando aqui a brincar ao voluntariado. Para isso vou limpar o rabo a velhinhos num Lar malcheiroso que é bem mais útil. Infelizmente neste país continuam com a mania que, se são artistas dos que não aparecem na televisão, fazem de borla. Ponham lá as vossas mães com um microfone na mão e divirtam-se.

Stand-up comedy era a última coisa que me imaginava a fazer na vida. Eu nem gostava de stand-up, aliás, não ligava nenhuma, estava completamente desatenta ao meio.
Fui para o curso pela vertente de guionismo e acabei por experimentar o palco. O palco já conhecia do teatro, desde garota que comecei a envolver-me nesse meio mas, sozinha com um microfone na mão e com a missão de fazer desconhecidos rirem-se… Isso foi inédito. A merda é que na primeira tentativa, na minha estreia nestas andanças, riram-se.
Perco anos de vida por causa dos nervos mas tem valido a pena.
Eu que detesto coisas radicais (para mim ir à Feira de Maio comer uma fartura “Penim” e ficar 5 minutos pasmada a olhar para o Crazy Dance já me faz suar), de repente descobri a adrenalina de estar em palco desprotegida a valer-me de uma personagem inocente e “esquisita” que assusta maioritariamente os homens (segundo consta).

Da pouca experiência que tenho já senti que é uma área que está a arrancar só muito recentemente em Portugal, muitas pessoas vão aos espectáculos e não fazem ideia do formato, do que é, como funciona, não têm referências, estão simplesmente à espera de ver alguém contar anedotas. Eu só sei uma anedota que envolve uma foca e é ridícula.

O público também está a ser formado neste momento, por critérios de gosto, de género, de empatia, etc.
Eu felizmente sou mulher. Há poucas no meio e claramente pertenço a um nicho. Nunca serei uma comediante da TVI e dos programas da manhã porque sou esquisita o suficiente e eu gosto disso. Como em tudo: na música, no cinema, nos homens, no clube que não ganha nada há anos…

És admiradora de porno, erotismo, sexualidade, através do humor focas-te muito nisso. Consideras importante abordar estes temas que ainda assim não são tão discutidos ou discutidos da melhor forma?

A minha mãe vai ler isto Pedro…
Gosto disso tudo que referes, fui aprendendo a gostar à medida que ia descobrindo o meu gosto e predilecções por estas temáticas (o meu primeiro namorado é que fica lixado quando lê isto agora… Não teve oportunidade de usufruir desta fase  ).
Considero-me uma pessoa bastante física e sexual / sensual, como se queira chamar, à minha maneira. Falar disso é libertador. Não no sentido de desvendar pormenores demasiado pessoais e de forma leviana (que são bons e excitantes porque são só meus e dos que partilham a vida comigo), não o faço por opção, mas brincar com esses temas de forma geral, é o máximo. Não há nada mais ridículo e maravilhoso do que o sexo. Todos pensam nisso, todos têm as suas pancadas e depravações. Somos animais e cada um solta o seu nas mais variadas circunstâncias.
Do meu lado, como tenho uma personagem em palco que alia um perfil de grande inocência a um lado desbocado e muito atrevido, falar disso torna-se quase peremptório e, sinceramente, acho que não choca. Ou se choca, também diverte. Espero eu…

Abordares esses temas através do humor é para ti a melhor forma de se relativizar os temas, para que se possa rir e falar-se com mais facilidade sobre eles?

O humor é solução para tudo. A receita já descobri. Agora a luta é transportar essa faculdade para todos os campos da minha vida, o que requer uma espécie de “reaprender a andar”. Quando estamos perante uma situação adversa o instinto é reagir com a força, ou desespero, ou desequilíbrio. Ao invés, se conseguirmos usar o humor como arma de gestão de conflitos externos e interiores, serve como uma atenuante extraordinária.

Já representaste para a curta Utopia, para WE ARE DESPERATE. Que gozo te deram e como é que te fizeram evoluir enquanto artista e actriz?

Essas duas curtas-metragens deram-me um gozo especial porque foram com a mesma realizadora, que adoro (Joana Maria Sousa). Ambas tiveram uma carga emocional muito forte o que me permitiu testar um outro extremo (oposto ao humor) e que me fizeram crescer por ter de aprender a lidar com as emoções e a organizá-las. Tenho esta tristeza por nunca ter conseguido fazer mais no plano da representação mas o meu caminho acabou por ser outro, não necessariamente por opção. Curiosamente agora estou a retomar também essa área, desde filmagens de sketches e participação em séries como o “Very Typical” e “Falta de Chá”, e tenho também alguns projectos de curtas-metragens no horizonte para o início de 2017.
Pode ser que ainda venha a saciar este desejo mais a sério.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
25 de Outubro de 2016

Entrevista a Tamar

Entrevista a Tamar – O Mel da Deusa, Socióloga, Formadora Comportamental, Educadora no projecto “O Mel da Deusa”

Abraçou o poder e a magia do sagrado feminino e da sexualidade sagrada em 2011. De onde surgiu a vontade de trabalhar a sexualidade feminina através do sagrado? De que forma é que a sexualidade feminina se pode desenvolver a partir do sagrado?

A vontade surgiu de maneira intuitiva e orgânica: algo em mim sabia que havia outras dimensões na vivência da sexualidade, algo em mim dizia que havia mais prazer para ser sentido e outras posturas a ter.
Uma mulher desenvolver a sua sexualidade através do sagrado tem muito a ver com: abrir-se a uma sabedoria que já foi partilhada nas sociedades ancestrais de índole matrifocal: vivênciar os vários aspectos da energia arquetípica feminina (cujos panteões de várias tradições espirituais retratam através de deusas), aceitando a variabilidade, a ciclicidade inerente ao ser mulher; religar-se ao legado/história das suas antepassadas; dedicar-se a um trabalho interior profundo de cura de feridas e mágoas e de rendição à expansão do prazer, da beleza, da inspiração, do erótico presente na vida; reeducar-se quanto a outras esferas de utilização da energia sexual que não só o sexo (para a criatividade e criação, como medicina, como ritual e ligação à visão multi-dimensional da realidade); desenvolver posturas no sexo que garantam o absoluto respeito por si, suas vontades e necessidades, assim como do(a) parceiro(a) e permitindo-se rasgar com crenças obsoletas e limitativas, honrando cada vez mais a dádiva e o potencial para uma vida plena de sentir prazer intenso e profundo e, finalmente, restabelecer a sua ligação natural à terra, à natureza e aos seus ciclos, também eles inerentemente femininos.

Desde que começou a desenvolver o trabalho para a sexualidade, o que aprendeu e conseguiu melhorar na sexualidade das mulheres que procuram o seu trabalho?

É muito forte a zanga, a vergonha, a culpa e o medo que a mulher sente ao lidar com a sua sexualidade. Encarando que a sexualidade diz respeito à sua relação com o próprio corpo; à sua capacidade de expressar as várias facetas da sua personalidade e de assumir e gerir plenamente as suas emoções; de ser e manter-se inteira num relacionamento amoroso; de integrar o que parece uma dicotomia fracturante – a mãe e a amante – em si; de entender verdadeiramente que propostas trazem as principais fases e idades da vida da mulher e que nenhuma delas exclui a manifestação da energia sexual; de conhecer e explorar, com amor e dedicação, a sua própria anatomia sexual e sobretudo de se permitir sentir à sua própria maneira (ora mais eroticamente ora mais sexualmente) sem julgamentos, comparações e cobranças a outros; de compreender como a energia na sua polaridade feminina e masculina se manifestam de forma distinta mas complementar (uma não é melhor que a outra, nem uma tem de se subjugar à outra). Deste trabalho e do empenho e compromisso destas mulheres tem resultado um empoderamento significativo e uma confiança pessoal forte, o que faz com que mais facilmente elas irradiem para o seu ambiente um brilho e um magnetismo que não só encanta, como magnetiza uma qualidade de vida bem mais enriquecedora.

“Trabalho corporal e emocional para cura de bloqueios e memórias obsoletas e expansão da energia erótico/sexual e consagração do corpo enquanto templo~ Círculos de Mulheres ~ Workshops ~ Meditações activas”. Através das oficinas e dos círculos de mulheres, como é que trabalha na cura dos bloqueios e como se processa a expansão da energia erótico/sexual? Como é que este trabalho/oficinas e círculos podem ser essenciais para o desenvolvimento da sexualidade da mulher?

O trabalho em grupo tem a capacidade de potenciar a energia que é activada individualmente, como em qualquer grupo que se forma sob um mesmo propósito. No entanto, sendo o tema o sexo e a sexualidade feminina e tendo esta sido tão castrada não só na esfera pública como também na privada, é extremamente enriquecedor escutar as histórias pessoais de cada uma. A única coisa que costumo dizer que está garantida é que vamos sempre nos reconhecer nas outras e ver que não estamos sozinhas, que não é só um problema nosso ou que (melhor ainda) afinal nem é problema! Várias mulheres chegam à idade adulta com medo ou repulsa de estar entre mulheres, sobretudo aquelas que foram alvo de desrespeito, abuso de poder e deslealdades por parte de amigas, familiares e outras mulheres. Por outro lado, e apesar de cada mulher ser todo um universo, a verdade é que entre mulheres é quase instintivo saber ser empática, acolher, nutrir, apoiar e sustentar. É natural, por isso, que além de ensinamentos e partilha de informação, as mulheres reportem que encontraram um ninho do qual tinham muitas saudades e o quanto isso as revitaliza, só por si.

O projecto neste momento também se enquadra para homens. O que podem os homens conhecer e aprender com a sexualidade sagrada? Tem igualmente sessões privadas, massagens, reeducação da sexualidade, entre outros. De que forma é que são essenciais estas sessões e como pode haver mais adesão?

A sexualidade masculina está também carregada de noções limitativas e de estereótipos pouco capazes de expressar os vários ingredientes que o homem precisa para a sua satisfação e plenitude na intimidade. Quer na pornografia, quer no cinema e meios de comunicação é retratado um homem musculado, ostentando sinais de status e com muita potência sexual, ou seja, predomina uma visão materialista e orientada para resultados e desempenhos… mais fazer do que ser. Na minha prática, vejo a pressão que os homens carregam para corresponder a todo o tempo a esse ideal que julgam ser o que faz deles um homem com H, vejo o peso que carregam no peito por não soltar as emoções e permitir-se ser vulnerável, como o seu corpo está carente de toque amoroso, como é difícil gerir o ímpeto vulcânico da sua energia sexual e começar a serem os guias e gestores dessa energia, deixando de estar à mercê daquilo que denominam como necessidade de descarga fisiológica e que, por vezes, os levam a escolhas de parcerias sexuais pobres, com ausência de uma verdadeira troca e de intimidade emocional.
Assim para os homens há a possibilidade de descoberta do próprio corpo e do seu órgão genital à luz de conceitos positivos, há o convite à ligação à energia erótica e ao sentir que é precisamente a chave para melhor manobrar a energia sexual e partilhar intimidade emocional e cultivarem a criatividade, além claro da transmissão e treino de uma panóplia de técnicas corporais capazes de promover auto-conhecimento e auto-regulação das várias fases da energia sexual, bem como potenciar a cura de disfunções sexuais. Nas sessões privadas, essas técnicas corporais, assentes na respiração, som, movimento e toque têm a vantagem de ser adaptadas ao referencial de cada homem, ao seu quadro actual e às suas motivações específicas.
Tal como para a mulher, a adesão de mais homens a esta via de desenvolvimento pessoal está profundamente ligado à desvinculação a tabus e à abertura à noção de que todo o corpo foi feito para sentir prazer e que se quero ser melhor amante para mim mesmo e nas minhas parcerias terei de trilhar o caminho da abertura do coração, da exposição, da sensibilidade aos ritmos e necessidades da outra pessoa e que isso também é ser viril.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
24 de Outubro de 2016

Intervewing Erika Lust

You’ve elaborated an illustrative guide explaining how to create better home-made sex tapes. You refer several times throughout that porn needs to change. This book and your X-Confessions project are great examples of that. In what way they can help commercial porn change and in what way can it give new points of view about porn and sexuality?

I think we need to see more accurate descriptions of real people’s desires and fantasies and sex lives! It doesn’t make sense that so much of a cultural genre is only catered to very small, niched part of the world’s population. That’s why it’s so important to create our own alternatives. There are so many bad associations with porn because the industry has largely stood for something actually sex-negative and shameful. Porn really holds the power to educate as well as to arouse, so I think it’s massively important that we have adult films that are built on sex-positive values too, that strive to show the beauty and fun of sex and seduction!

Apart from your movies that differ from common porn movies (where the woman is just a playtoy for the man, whereas in your movies that doesn’t happen), you also have X-Confessions project that emphasizes what you’ve been developing: the body, the scenes around beautiful sexuality, imagination… That said, to you, what is the importance of creating this movies and having the participation of readers and fans with the X-Confessions? Do you think that having a special corner for readers to express their own fantasies was the missing puzzle piece?

Yes exactly! I felt there was a huge missing piece in the puzzle of adult films, where the actual desires and fantasies of real people were never heard. That’s why I love the project so much – the stories I tell in XConfessions come from the hearts and brains and sexy imaginations of real people! Some might think that real people’s fantasies would make things boring but it’s the opposite – people are so imaginative and dirty! And many of the stories are modern and relatable like the Couch Surfer short films, or I found your Mother on Tinder…or even one called I Fucking Love Ikea, which is about a girl who gets turned on by her boyfriend putting together Ikea-furniture. Haha! They have building blocks that people today can relate to and find exciting, which is something that is largely absent from mainstream films. They can also be very funny, which I think many can relate to. Often real sexual encounters are filled with a lot of excitement and joy, giggles and laughs, not just super serious hard fucking!

Using porn and modern eroticism, do you think it’s possible that everybody’s minds open a bit more and they’ll start to wonder and question more about self-pleasure, body, to believe that porn and eroticism in general can definitely change for better and that Erika and all the producers are working for that goal, so woman can stop being seen as a sexual object, so that fake bodies and fake orgasms get eradicated?

I don’t believe in cencorship but I do hope we will see more diversity and better values in adult film making! I don’t want to shame anyone who likes mainstream adult films, but I do want people to know that there are many amazing alternatives to those films. And I hope we will see a lot more women behind the camera in the future, making their desires heard and working in active decision-making roles telling tales that excite them too! Of course, making a man come can be fun and feel satisfying but surely there’s a lot more fun to be had with sex than that! There is a whole world of seduction out there….

How can we “kill” the image of the housewife, that is just there¸ for male purposes…a sexual object? In what way can this concept be harmful for women? Women’s desires, their sexuality, body etc, can continually be likely ignored because of this situation?

Yes, I think it can be harmful to women and men, especially younger people! If they are over and over again presented with sexual imagery where the woman is just a passive object and the man is the active dominant participant – what does that tell them about men and women, about the roles we play, about power, about sex? Just to be clear, I’m not saying there’s anything wrong with wanting to be passive or submissive sexually -that’s a totally different thing! But when there’s so much of these chauvinistic images being produced, it’s like it’s not about sex and pleasure anymore! It’s about power, and it says something about our society and its views on women. We can reduce these images by creating our own films with good values, to create the films we want to see ourselves. And it’s hugely important that we educate our children about pornography. There’s no use hiding such a HUGE cultural genre under a rug. It’s a big part of our culture and we need to talk about it!

UK has implemented many prohibitions. In what way has this situation harmed
pornography, its progress, in order to show everybody that sex, sexuality, eroticism and porn aren’t bad and that they should be seen as something beneficial?

What’s so annoying about the U.K prohibitions is that it attacks sexual acts that women enjoy and that have nothing to do with violence, like female ejaculation and facesitting. Seriously! It just shows how out of touch some of these politicians are with even addressing sexuality and pornography – they don’t even know what they are prohibiting! The prohibition is not just prudish but also alarmingly sexist.

As a Women’s Rights’ defender, what’s your opinion about Worldwide home violence, which is growing each day? What should we do to make it stop?

Women still have a long way to go, and we need the men and women of the world to further the progress of equal rights, and to end violence. We have to have conversations, not just in universities and within academia, but in public forums, about the severe problems in the world today. We are so used to seeing women get murdered and raped that it’s almost like we don’t react anymore – and we have to be pissed off about it! Also for the men who suffer violence and sexual abuse, we have to challenge our gender roles in order for more of them to be able to speak out and get help. Many male victims feel they can’t speak out because it’s not seen as manly. And we have to change these fake, harmful illusions of masculine and feminine to see real progress. I don’t mean that men and women can’t be different, everyone should be as they wish as long as they don’t hurt anyone else. But to say violence is ok and that macho is natural is just not true, or that it’s weak to cry or to show feelings – we have to work on making those oppressive ideas disappear!

Your first movie for women was released 10 years ago. In your perspectibe, what has changed in pornography and eroticism ever since?

During my decade as a filmmaker I’ve seen a huge increase in female directors, which is great! It has worked both ways. As mainstream pornography has become more and more extreme, a lot of people have felt their need to make their own desires heard and known! So we have also seen an increase in alternative erotica and erotic projects. People dare to express themselves artistically and erotically without feeling shame about it. I applaud that and hope this shift will continue inspiring people to make great erotica!

You’ve been creating movies “Girl on Girl” in a more realistic way than the common “macho” porn. What’s your point of view? In what way can we promote women’s sexuality without making them look like a playtoy, as it happens in “macho” porn?

As a woman and a sexual being I listen to my own desires and use that in my art. As a female film maker and director, I care that the performers, both men and women, experience real pleasure and feel chemistry! By speaking up and listening to women we can promote a different side of female sexuality, one that doesn’t just serve as a passive playtoy…but of course sometimes it can be fun to be a playtoy too, haha!

You’ve mentioned that you were very unpleased by the first porn movie you’ve seen. In Portugal sexuality isn’t spoken as free as in Sweden, where you’re from. How can someone help deconstruct this idea of commercial porn and watch alternatives like your works, or Madison Young, Lilyanne Bloom and Chloe Morgane?

You’d be surprised, but Sweden can actually be quite conservative when it comes to talking about sex! Sweden’s very good at talking about safe sex and contraceptives but get very confused when confronted with work like mine! So stigma about adult movies exists everywhere. What we need is education, education, education! Make talking about porn part of the sex education in schools. We have to teach young people to think critically about the genre, and also to let them know that if they are interested, there are many alternatives to the violent internet porn that takes up much of the porn sites!

Thank you so much for your time!

Project For The Pleasure Genesis

Interview: Pedro Marques
Translation and Correction: Mariana Dias

Entrevista a Elizabet Silva

Entrevista a Elizabet Silva, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto

O seu estudo foi sobre: “O papel mediador da distracção cognitiva no impacto das crenças sexuais na resposta sexual.” Antes de mais, para os leitores que não saibam o que é a distracção cognitiva, o que é que significa e o que é que a motivou a investigar este tema?

A distracção cognitiva encontra-se relacionada com o facto das pessoas focarem antecipadamente a sua atenção em estímulos não eróticos, ao invés de imergirem nos aspectos sensoriais da experiência sexual. Os estudos confirmam que a distracção cognitiva durante a actividade sexual consiste, essencialmente, em preocupações com o desempenho sexual e, cada vez mais, nas preocupações com a aparência corporal. O meu interesse pelo tema surgiu devido ao facto da sexualidade ser uma das dimensões mais importantes e marcantes para o ser humano, contribuindo para o seu bem-estar psicológico e relacional, assim como pelo facto de não existirem estudos prévios, com a população portuguesa, que comprovassem a relação existente entre as crenças sexuais e a distracção cognitiva durante a actividade sexual. Além disso, dada a pressão social existente à volta da aparência corporal feminina e, recentemente, da aparência corporal masculina, considerei que seria interessante compreender de que forma as preocupações com a aparência corporal poderiam afectar o desempenho sexual.

Que impactos podem ter as crenças sexuais?

As crenças sexuais consistem em ideias que os indivíduos têm sobre a sexualidade, sendo que vários estudos científicos têm indicado que muitos indivíduos com disfunções sexuais evidenciam um conjunto de ideias inadequadas sobre a sexualidade. Por exemplo, um homem que atribui uma falha na erecção à falta de “masculinidade” e de competência sexual, quando se encontra perante uma dificuldade eréctil ocasional, irá considerar que preenche os requisitos estipulados pela sua crença sexual (e.g.: “um homem que não consegue ter uma erecção é um completo fracasso”), activando a crença de que o próprio é um fracasso sexual. Consequentemente, os níveis de ansiedade durante a actividade sexual poderão aumentar e o seu desempenho sexual poderá ser negativamente afectado. Deste modo, as crenças sexuais podem funcionar como factor de vulnerabilidade para o desenvolvimento e manutenção das dificuldades sexuais, pois guiam os significados atribuídos pelos indivíduos aos acontecimentos sexuais.

O que descobriu com o estudo que realizou?

O estudo que realizei comprovou o efeito negativo de algumas crenças sexuais, assim como da distracção cognitiva no funcionamento sexual masculino e feminino. Além disso, a partir do estudo, ficou comprovado que a satisfação relacional é uma componente fundamental da saúde sexual e que esta poderá, eventualmente, funcionar como uma variável moderadora entre os factores cognitivos e o funcionamento sexual. Deste modo, as pessoas que se encontram mais satisfeitas com a sua relação amorosa podem evidenciar um menor efeito das crenças sexuais ou da distracção cognitiva no seu funcionamento sexual.
Quanto ao objectivo geral do estudo, comprovar o papel mediador da distracção cognitiva na relação das crenças sexuais com o funcionamento sexual, os resultados indicaram que as mulheres com determinadas crenças negativas acerca do sexo anal são mais propensas à distracção cognitiva com o desempenho sexual, evidenciando um funcionamento sexual mais negativo. Importa aqui salientar que a dimensão das crenças sobre o sexo anal é composta por um grupo de crenças relacionadas com a ideia de que o sexo anal não suscita prazer ou excitação sexual nas mulheres.

Em que é que as distracções cognitivas podem influenciar a sexualidade, quer negativa quer positivamente?

Como já referi anteriormente, a distracção cognitiva pode afectar negativamente a sexualidade porque o individuo deixa de estar concentrado nos estímulos eróticos da experiência sexual, encontrando-se distraído com pensamentos sobre o seu desempenho ou a sua aparência corporal. Nesse sentido, acaba por interromper o fluxo normal do funcionamento sexual e, por consequência, pode inibir a sua excitação sexual e o orgasmo. Contudo, no caso dos indivíduos evidenciarem uma percepção ou uma expectativa positiva acerca da sua aparência corporal ou do seu desempenho sexual, a distracção cognitiva poderá ter uma influência positiva no funcionamento sexual. Por exemplo, um homem que tem uma expectativa positiva acerca do seu desempenho sexual, quando observa o seu órgão genital e percebe que está com um bom nível de erecção peniana, pode sentir-se ainda mais excitado e evidenciar um desempenho sexual positivo.

Qual é a importância deste estudo para o impacto das crenças sexuais na resposta sexual?

Dado que o os resultados comprovaram o efeito negativo das crenças sexuais no funcionamento sexual, o estudo salientou a importância dos factores cognitivos no funcionamento sexual, contribuindo para fundamentar a inclusão de estratégias terapêuticas cognitivas no tratamento dos problemas sexuais. Acima de tudo, os resultados do estudo podem ter implicações, não apenas ao nível da compreensão dos fenómenos psicológicos envolvidos no funcionamento sexual, mas também na compreensão de processos potencialmente envolvidos nas disfunções sexuais.

De que forma se pode anular o impacto das cognições?

O impacto das crenças sexuais não pode ser anulado sem trabalhar a raiz do problema, isto é, desmistificar e alterar as crenças sexuais dos indivíduos. Assim, a desmistificação de alguns mitos ou crenças sexuais tem um papel primordial para a manutenção de uma vida sexual saudável. Ao nível da prevenção, o estudo realizado acabou por reforçar a necessidade de incluir a desmistificação de crenças acerca do funcionamento sexual no conteúdo dos programas de educação sexual, assim como desenvolver formações contínuas, destinadas aos profissionais de saúde, acerca da influência dos factores cognitivos no funcionamento sexual.

Dirigiu/elaborou um grupo terapêutico para mulheres na menopausa. O que é que a levou a criar um grupo terapêutico sobre mulheres na menopausa?

A elaboração do grupo terapêutico esteve relacionado com o facto de existir um elevado número de mulheres que evidenciam dificuldades associadas à menopausa, tanto a nível psicológico como sexual. Assim, e dada a elevada incidência de sintomas depressivos e de ansiedade nesta fase de transição, pareceu importante a formação de um grupo terapêutico para que as participantes pudessem informar-se acerca das características associadas à fase da menopausa e pós-menopausa, trocarem experiências e ampliarem a sua auto-estima, bem como o seu nível de suporte social. No final deste projecto, foi interessante verificar que as participantes evidenciaram melhorias significativas, aprendendo a importância de se auto-valorizarem e de, em certas situações, colocarem o seu bem-estar em primeiro lugar.

O que é que aprendeu durante todo o processo?

Aquilo que realmente me marcou durante todo o processo foi ter verificado que muitas vezes as mulheres anulam os seus sonhos e as suas necessidades em prol da sua família, principalmente dos filhos. Muitas vezes, encontram-se tão focadas nas necessidades dos outros que não param para pensar naquilo que gostariam de fazer no seu tempo livre, nos objectivos que querem alcançar, nos seus sentimentos… Esta “falta de dedicação a elas próprias” muitas vezes pode estar na origem das dificuldades emocionais que podem vir a apresentar, não só na menopausa mas noutras fases da vida. Ao longo do processo terapêutico, penso que a necessidade de se auto-valorizarem foi reforçada, tendo contribuído para o bem-estar das mulheres que participaram no grupo.

Para o estágio profissional de que está à procura e para o seu futuro como psicóloga e investigadora no SexLab, quais são os seus interesses ao nível de áreas de estudo?

No futuro, espero ter a possibilidade de continuar a trabalhar com a população adulta. Contudo, saber que meu trabalho poderia melhorar a qualidade de vida das pessoas, de qualquer faixa etária, seria gratificante. Enquanto investigadora do SexLab, este ano já publiquei dois artigos científicos, relacionados essencialmente com a distracção cognitiva, as crenças sexuais e as crenças sobre a aparência, sendo que gostaria de continuar a estudar as diferentes variáveis psicológicas que podem afectar o funcionamento sexual de homens e mulheres.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vamos Falar Sobre Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Jú Matias
14 de Setembro de 2016

Entrevista à Investigadora Inês Tavares

A Inês é investigadora do Sex Lab e fez o estudo de Mestrado Integrado em Psicologia, tendo como área de especialização Psicologia Clínica e da Saúde, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Os seus pontos de interesse são: a psicofisiologia da resposta sexual humana e os factores psicológicos associados às dificuldades de orgasmo feminino. Quais foram as suas motivações para estudar os factores psicológicos associados às dificuldades de orgasmo feminino?

Os meus interesses sempre foram bastante vastos, e o interesse pela sexologia em particular foi emergindo ao longo do meu percurso académico. Após ter tido contacto com o estado da arte na sexologia e, principalmente, nos estudos acerca da sexualidade feminina, fui compreendendo que, apesar de existir já um corpo teórico e conceptual relativamente sólido, há ainda muito por investigar. Apercebi-me que esta área de estudo é bastante recente quando comparada com outros domínios de investigação, e isso faz com que exista a possibilidade de que tenhamos um contributo genuinamente relevante. Penso que nesse processo fui desenvolvendo uma motivação para contribuir para a lacuna muitas vezes presente em vários domínios da investigação em sexualidade humana, sendo um deles o orgasmo feminino. O orgasmo feminino é um daqueles tópicos que, ainda hoje, gera uma onda de “misticismo” e de excitação ao seu redor, cheio de tabus e de curiosidade, de mitos e de conceções erróneas. À medida que me fui apercebendo da teia de complexidade em que este fenómeno está envolto, quer a nível anatómico, quer a nível fisiológico, quer até a nível social, cresceu também a motivação para o estudar. Acabei por, em colaboração com o meu orientador de Mestrado, o Professor Dr. Pedro Nobre, desenhar um estudo que pudesse contribuir para compreender de forma mais aprofundada qual o papel que vários fatores psicológicos desempenham na experiência de orgasmo feminino, contemplando simultaneamente a diversidade de atividades sexuais em que as mulheres se envolvam.

O que aprendeu desde que começou a sua investigação?

Num primeiro momento, aprendi muito acerca da anatomia genital feminina, acerca dos processos fisiológicos associados a cada uma das fases da resposta sexual feminina, sobre genética, sobre endocrinologia. Li muito, quis estar bem informada acerca das bases anatómicas e fisiológicas daquilo que é o fenómeno de orgasmo feminino, para que posteriormente pudesse refletir acerca do papel da psicologia. E é verdade que, mesmo a um nível anatómico, existe muita controvérsia. Aprendi que apenas no ano de 1998 se conheceu integralmente a anatomia do clítoris, órgão que até então, das duas uma, ou era ignorado ou era representado de forma errónea nos livros de anatomia. Desconhecia-se, até há cerca de vinte anos, a totalidade da intrincada anatomia interna, ou não visível, do clítoris. Posteriormente, fui descobrindo que a maioria das mulheres está relativamente bem informada acerca da anatomia do seu corpo, mas que há ainda uma parte importante de mulheres que não o está. Penso que existe trabalho a fazer ao nível de possibilitar o conhecimento das noções mais básicas acerca de quais são as zonas que poderão trazer prazer às mulheres, e de que forma. Ainda é necessário desconstruir alguns mitos associados à importância do coito para a obtenção de orgasmo feminino. Na verdade, um dado transversal a várias investigações é o de que a relação coital, por si só, não é um fator muito importante na obtenção de orgasmo feminino, enquanto que a estimulação do clítoris é.

Em que consiste este palavrão da “psicofisiologia” e de que forma é essencial para a análise da resposta sexual humana e dos factores psicológicos associados às dificuldades de orgasmo feminino? De que forma é importante estudar-se esta problemática?

A psicofisiologia é o estudo da relação entre fenómenos psicológicos e fisiológicos, e é de extrema importância na compreensão da sexualidade humana. Sabemos que estes são dois domínios da vida humana que estão em constante interação, ‘o corpo e a mente’ como tantas vezes escutamos. E na esfera sexual é fundamental que os dados da fisiologia (ou seja, as respostas manifestadas pelo corpo e que fazem parte de determinado fenómeno) sejam integrados com os fatores psicológicos, dada a sua reciprocidade, que poderá levar a respostas sexuais mais ou menos funcionais.
O trabalho psicológico na terapia sexual muitas vezes é feito com pessoas que não demonstram nenhum problema orgânico que seja capaz de explicar as suas dificuldades sexuais atuais. É importante contemplar ambos os domínios, até porque quando não existem de facto impedimentos orgânicos, o foco da intervenção será de teor psicológico. E para que isso se leve a cabo de forma eficaz, é importante que os terapeutas tenham informações acerca de como funciona a resposta sexual humana, quais os fatores que poderão levar ao desenvolvimento e à manutenção de determinado tipo de dificuldades, e que tipo de intervenções se têm demonstrado eficazes tendo em conta as características de cada caso. E isso é um trabalho que é substancialmente levado a cabo pelos investigadores, tentando compreender aquilo que ainda não se sabe e melhorar o conhecimento atual. No campo das dificuldades de orgasmo feminino, apesar do crescente interesse e debate sobre os seus determinantes fisiológicos e anatómicos, a investigação sobre os aspetos psicossociais que podem contribuir para a sua ocorrência é ainda rudimentar. E foi precisamente esse o objetivo do estudo que desenvolvemos.

Quais foram os resultados e o que se pode aprender e desenvolver a partir dos resultados que obteve?

Num primeiro passo, interessava-nos estudar de que forma os diferentes tipos de atividades sexuais prediziam a ocorrência de orgasmo feminino. De forma geral, podemos dizer que neste estudo as mulheres demonstraram frequências de orgasmo mais elevadas em resposta a atividades sexuais que envolvem a estimulação do clítoris em comparação com a atividade coital por si só. O coito sem estimulação adicional do clítoris foi, de todas as analisadas, a atividade sexual que menos parece contribuir para a experiência de orgasmo feminino. A constatação de que a frequência de orgasmo feminino aumenta com o envolvimento em comportamentos sexuais que contemplem estimulação do clítoris está de acordo com várias teorias postuladas por diversos investigadores de que as mulheres podem ter orgasmos tão facilmente quanto os homens, desde que suficientemente excitadas. Um resultado muito interessante deste estudo foi o de que as mulheres que consideram a obtenção de orgasmo como mais importante são também aquelas que o obtêm de forma mais frequente, e vice-versa. Este dado é explicado através do fenómeno de dissonância cognitiva, segundo o qual a simultaneidade de manter dois valores ou características contraditórios causaria desconforto, o qual seria reduzido ajustando o valor ou a característica mais suscetível de alteração de acordo com o menos suscetível de alteração. Desta forma, se o orgasmo é difícil ou impossível de alcançar, as mulheres com estas dificuldades usariam uma estratégia de redução da importância dos mesmos. Adicionalmente, também era nosso objetivo compreender se as próprias mulheres percecionavam de forma diferente os orgasmos obtidos através de diferentes tipos de estimulação e, caso o fizessem, se organizavam as sensações orgásmicas de acordo com uma perspetiva anatómica ou de acordo com outros critérios. Os resultados obtidos não propuseram uma separação entre sensações vaginais e clitorianas mas, mais bem, reforçam a ideia de que distinguir orgasmos como claramente iniciados na vagina ou no clítoris é uma tarefa difícil. Estes dados indicam-nos que as próprias mulheres têm dificuldade em distinguir os componentes anatómicos específicos que originam as sensações orgásmicas, o que não fortifica a separação entre vários tipos de orgasmo, mas mais bem indica-nos que o fenómeno de orgasmo feminino seja um fenómeno psicofisiológico único. Para além disso, os resultados sugerem-nos que um fator importante para a preferência das mulheres no que toca à atividade sexual é o facto de esta ser realizada com parceiro, mais do que o facto de esta conter um tipo de estimulação específico (seja este clitoriano, vaginal ou até anal). Finalmente, um outro dado relevante corresponde ao facto de que as variáveis estado (o afeto e os pensamentos automáticos experienciados pelas mulheres durante a atividade sexual) parecem ter maior importância do que variáveis disposicionais, ou traço, na experiência de orgasmo feminino. Por outras palavras, isto indica-nos que aquilo que as mulheres sentem e pensam durante o contexto específico da atividade sexual é, de facto, um fator importante quando queremos compreender a ocorrência ou não de orgasmo, e que estas variáveis cognitivo-afetivas podem constituir alvos clínicos importantes quando se consideram, em termos clínicos, dificuldades de orgasmo feminino. De forma geral, é sugerido por este estudo que as variáveis psicológicas parecem ter influência na experiência de orgasmo feminino, independentemente do tipo de estimulação sexual em que as mulheres se envolvam.

O seu estudo focou-se nas mulheres heterossexuais, o que a levou a cingir-se apenas a mulheres heterossexuais? A partir destes resultados, e desta investigação, quais serão os seus interesses futuros? Que outros trabalhos de investigação pretende realizar?

Parte dos objetivos deste estudo prendia-se com a clarificação de aspetos associados com a discussão da existência de um ou de vários tipos de orgasmo feminino (e.g., orgasmo vaginal versus orgasmo clitoriano). Para isso, e dado que era nossa intenção replicar alguns procedimentos usados por diversos autores em anteriores estudos, a amostra teria de incluir mulheres que se envolvessem de forma regular em atividade coital. Essa foi a principal razão pela qual um dos critérios de inclusão no estudo era a pessoa autoidentificar-se como heterossexual. Mas é interessante olharmos para outros estudos realizados com mulheres lésbicas, em que estas mulheres reportam muito mais orgasmos durante o sexo com parceira, porque simplesmente ocorre uma estimulação do clítoris bastante mais robusta.
Considerando o facto de que o presente estudo investigou uma amostra de mulheres predominantemente funcional do ponto de vista sexual, e através de uma abordagem transversal, seria relevante que se pudessem desenvolver estudos que tenham em conta os resultados atuais com o objetivo de estabelecer de forma mais clara, possivelmente com uma abordagem longitudinal e utilizando amostras clínicas, a contribuição específica dos fatores analisados para o desenvolvimento e manutenção da perturbação do orgasmo feminino. Relativamente a interesses futuros, ficaria muito satisfeita de continuar a dedicar-me ao estudo do orgasmo feminino, sendo este um fenómeno tão complexo e existindo ainda muitas outras perguntas que ficam por responder. Para além disso, interessam-me as questões da sexualidade na transição para a parentalidade, quer durante a gravidez quer no pós-parto, que é uma área sobre a qual apenas recentemente se tem dedicado alguma atenção científica. A nível futuro, pretendo continuar a desenvolver trabalhos no estudo da psicofisiologia da resposta sexual em colaboração com o SexLab, e futuramente incluiremos a termografia como técnica pioneira no estudo da resposta sexual humana.

Participou numa mesa redonda sobre a Saúde da Mulher e o Pavimento Pélvico; que aprendizagem obteve dessa discussão e que importância teve e tem para si discutir-se estes temas?

Tive a oportunidade de dar o meu contributo para essa discussão, da qual fazia igualmente parte uma fisioterapeuta, que desenvolve o seu trabalho na terapia do pavimento pélvico. A realidade é que em muitos casos, principalmente nos quadros de dor génito-pélvica, é importante ser realizado um trabalho de treino do pavimento pélvico, em colaboração com a intervenção da terapia sexual. Recordo-me que foi bastante interessante, quer pela curiosidade do público presente quer também pela oportunidade rica de partilha de conhecimento entre profissionais. No meu ponto de vista, a discussão informada e com base em evidências deveria ser proporcionada tanto quanto possível, no maior número de contextos possível. É comum que se fale de sexualidade, mas nem sempre da melhor forma… muitas das vezes existe ainda algum pudor ou desconhecimento, ou algumas crenças erróneas, o que acaba por manter limitações ao nível da vivência de uma sexualidade plena, que acredito que deveria ser um direito transversal a todos nós, tal como o é a vivência de tantos outros domínios da vida.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vamos Falar Sobre Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Jú Matias
01 de Setembro de 2016