Entrevista a Carolina do Amaral e Silva

 
Entrevista a Carolina do Amaral e Silva – Mestre em Sexologia e Especialista em Sexualidade Humana
Uma das áreas de actuação como estão descritas no seu sítio: http://carolinadoamaralesilva.com.br/atuacao/ são as disfunções sexuais femininas e masculinas, os conflitos relacionados com a sexualidade. Para si, como é importante e fundamental trabalhar os conflitos relativos à sexualidade e principalmente as suas disfunções? De que forma se deve olhar para estas disfunções, e como se deverão abordar estes temas? Como dar o passo decisivo para a discussão sobre este tipo de problemas e procurar ajuda?

A sexualidade faz parte da natureza humana, afinal somos seres sexuados. Não é possível deixar de viver a sexualidade, pois ela é inerente a nossa identidade. Infelizmente, nos dias atuais, a sexualidade ainda é um tabu, o que dificulta a visão de que ela seja essencial a vida humana. O bem-estar e saúde englobam a saúde sexual. Então, trabalhar os conflitos e as disfunções sexuais acabam sendo fundamentais para a melhor qualidade de vida do paciente. Quando há uma disfunção sexual, acarreta-se danos ao bem-estar e prejuízos em outros aspectos da vida das pessoas. Portanto, é importante que o profissional faça uma análise que vá além da queixa e seus sintomas, pois como a sexualidade é multifatorial, faz-se necessário avaliar as suas várias dimensões, e explorar aspectos psicológicos e socioculturais para uma melhor compreensão dessa pessoa que chega ao consultório.
E para dar um passo decisivo na busca por ajuda profissional é preciso haver uma dificuldade, um problema ou um conflito em relação a sexualidade, e que se perceba a impossibilidade de lidar com tal sozinho. Vejo meus pacientes como pessoas muitas corajosas, por estarem a minha frente, abrindo sua intimidade, afinal de contas sou uma estranha para eles. E acaba sendo uma experiência diferente de chegar a um serviço de saúde, com uma queixa que não seja de ordem sexual. Mesmo a sexualidade sendo tão natural como qualquer outro aspecto da vida cotidiana. O profissional precisa estar preparado com conhecimento, uma escuta livre de preconceitos e pronto a acolher sem discriminações.

Silva, C. M. A. 2013. “The Hetero sexism Vision in Sexual Dysfunctions in Homosexuals”: A Review of Literature. “The Journal of Sexual Medicine”, v.10(5), p. 414. Fez igualmente este estudo. O que aprendeu, e como pode esta visão ser negativa e aterradora tendo em conta os preconceitos relativos à disfunção sexual?

Tive muita dificuldade em encontrar estudos sobre as disfunções sexuais em casais homossexuais, e as intervenções terapêuticas utilizadas nesta população. O foco ainda está em casais heterossexuais, e as disfunções sexuais ainda são pensadas em casais heterossexuais, assim como a terapêutica. Alguns autores consideram que as disfunções sexuais em homossexuais são as mesmas que em heterossexuais, outros não. E realmente, não o são. O centro da perspectiva heterossexual nas disfunções sexuais acaba por ser o coito vaginal, o que não faz parte da prática homossexual. Os próprios padrões de relacionamentos acabam por ser distintos dos padrões heterossexuais.
É necessário que o profissional compreenda que o comportamento sexual em homossexuais é influenciado por uma variedade de fatores de diferentes domínios, tais como, o impacto do estigma social e a homofobia internalizada.
Mesmo nos dias atuais, apesar de tantos avanços, a visão heterossexista acaba por fazer parte do cotidiano científico e clínico, o que de certa forma reforça a heteronormatividade. Ao meu ver, isso prende a uma padronização, e deixa de lado a diversidade sexual.

Silva, C. M. A., Torres, R. H., Campos, M. H. 2016. “Educação para Sexualidade e Encarceramento Feminino”. In, Ires Aparecida Falcade. (Org.). “Mulheres Invisíveis” – por entre muros e grades. 1 Ed. Curitiba: JM Editora, p. 119-139.
Silva, C. M. A., Torres, R. H., Zippin Filho, D. 2015. “Educação Sexual no Sistema Prisional”. In: III “Conferência Internacional Online de Educação Sexual”. “Anais da III Conferência Internacional Online de Educação Sexual”.
Silva, C. M. A., Zippin Filho, D. 2013. “Direitos sexuais das pessoas privadas de liberdade”: acesso à justiça e segurança cidadã. “Revista Digital do Instituto dos Advogados Brasileiros”, n.17, p. 29-44. Fez estes trabalhos, o que a motivou a estudar e a investigar dois temas ainda tão tabu? De que forma é que considera fulcral a educação sexual no sistema prisional e a necessidade de abordar os direitos sexuais?

Certa vez o Professor Nuno Monteiro, um dos meus grandes mestres na Sexologia, disse-me que a coragem e a loucura caminham juntas. Levei isso para a vida, pois não posso negar que sempre fui movida a desafios. Aos 18 anos fiz minha escolha pela Sexologia, antes de ingressar na Psicologia motivada a quebrar os paradigmas de que ‘uma mulher não pode gostar de sexo’, e é claro, muito mais que isso a quebra do enorme tabu que é nossa sexualidade. E desde que me formei em Psicologia atuo nesta área, e mais do que ajudar mulheres a quebrar crenças, meu trabalho clínico acaba sendo bastante focado no público masculino, quando percebo o quanto nossa cultura patriarcal traz prejuízos e sofrimentos também para os homens.
Ao contrário, o Sistema Prisional acabou me escolhendo. E isso aconteceu recentemente, em 2013.
A verdade é que a sexualidade faz parte da constituição do ser humano, e mesmo a pessoa que está privada de sua liberdade, não deixa de ser um ser sexual. Então, nem preciso dizer que os conflitos neste ambiente são enormes. A sexualidade constitui-se como um aspecto fundamental na qualidade de vida de qualquer pessoa, esteja em liberdade ou encarcerada, é um componente intrínseco da humanidade. Implementar Educação para Sexualidade dentro de penitenciárias destaca-se como uma estratégia de redução de conflitos. No momento em que houver uma redefinição de estratégias na gestão prisional, que convalide a sexualidade das pessoas privadas de liberdade como algo inerente, concreto e factível, muitos avanços sociais, afetivos e educacionais serão alavancados, que poderão se refletir em melhores relações intramuros e extramuros, e na própria diminuição de conflitos.

Na sua trajectória clínica esteve focada na urologia e sexualidade. De que forma tem sido determinante este trabalho num melhor tratamento nos seguintes pontos: impotência, prótese, ejaculação precoce, próstata, fimose, vasectomia, reversão, terapia sexual, disfunção feminina, plástica de pénis? Através do longo trabalho que tem vindo a realizar como se poderão quebrar mitos, estigmas e estereótipos sociais?

Fazer um trabalho, em consultório, isolado de outros profissionais dificulta muito o processo de tratamento. Os profissionais precisam estar inter-conectados e serem uma rede de apoio ao paciente. Meu mestrado em Portugal foi determinante para essa construção na prática clínica. Percebo que, no Brasil, os urologistas tem maior abertura a trabalhar em conjunto com psicólogos, do que ginecologistas. Não sei por quê isso acontece. Contudo, também percebo que os homens chegam mais a consultórios psicológicos com queixas sexuais, do que as mulheres. E neste ponto, acredito que venha a questão da importância da sexualidade na vida do homem, em contrapartida ‘a não importância’ da sexualidade na vida da mulher, tomando o papel ativo (que é esperado) do homem e o papel passivo (que é esperado) da mulher. Além do mais, não posso deixar de pensar na questão financeira, pois os homens tem maior poder aquisitivo para a busca de tratamento. Durante todos os anos de prática clínica, não foram poucas as vezes que escutei as pacientes dizerem que só poderiam fazer o tratamento se o marido aceitasse pagar, e dificilmente elas voltavam.
O trabalho do psicólogo junto ao urologista ou andrologista é importante, e não digo isso por ser psicóloga. Até para fazer uma cirurgia simples de fimose ou uma vasectomia, os homens trazem inúmeros mitos e estigmas relacionados a sexualidade masculina, que acabam carregando como grandes fantasmas. Da mesma forma, é importante o trabalho conjunto entre ginecologista e psicólogo nos cuidados com a sexualidade da mulher. A função sexual depende da integridade e interação de 3 dimensões – biológica, psicológica e sociocultural -, assim qualquer problema sexual, por mais biológico que seja, terá consequências a nível psicológico.
Atualmente, com o fácil acesso a informação, temos um grande dilema. Isso pode ser ótimo quando o indivíduo tem acesso a uma boa informação, mas é péssimo quando esse acesso acontece a uma informação ruim, errada e que, em muitos casos, reforça os mitos, os estigmas e os estereótipos sociais, extremamente enraizados em nossa cultura. O trabalho da Terapia Cognitivo Comportamental, especialmente com a psicoeducação, é essencial na quebra desses mitos, estigmas e estereótipos sociais.

É especialista em Sexualidade Humana; Mestre em Sexologia; Membro da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, e está sempre envolvida em projectos de educação para sexualidade nos mais diversos ambientes, neste longo percurso de estudo, investigação e trabalho terapêutico na área da sexualidade, de que forma têm sido fulcrais para o seu processo pessoal de aprendizagem ao promover uma melhor sexualidade humana?

Ao longo destes anos todos, tenho percebido quão difícil é para as pessoas compreenderem a sexualidade como algo inerente a si e importante para o bem-estar e, consequentemente para uma melhor qualidade de vida. Aprendi que a desconstrução dos nossos modelos negativos sobre a sexualidade, para uma posterior reconstrução de um modelo positivo sobre a sexualidade é fundamental. E essa reconstrução perpassa ainda pelo autoconhecimento a nível cognitivo, emocional e corporal.
As dificuldades sexuais acontecem por diversas razões, contudo, os aspectos relacionados a fatores socioculturais acabam tendo um peso durante o tratamento, pois estão extremamente enraizados em nossos modelos. Por conta dos julgamentos sociais, crenças e estigmas as mulheres não aceitam que podem gostar de sexo e viver plenamente sua sexualidade. Em contrapartida, os homens tem para si o papel de “macho alpha“, ou seja, internalizam uma enorme cobrança por desempenho sexual. A realidade é que diante disso tudo, homens e mulheres desconhecem seu prazer. E quando falo em prazer, vou muito além do prazer sexual. Quando pergunto a pacientes (independente de sexo) o que fazem no dia-a-dia que lhe dá prazer, a grande maioria responde “não sei”. Não foram poucas as vezes em que ouvi “não tem uma pergunta mais fácil?” ou “não complica, por favor!” Ao contrário do que aprendemos por longos anos, a sexualidade masculina e feminina é muito mais similar do que diferentes entre si.
Desconhecemos nosso próprio prazer, primeiro porque a sociedade não percebe bem o prazer, somos reprimidos a senti-lo. E aí, a partir dessa repressão desconhecemos nossos sentidos e até como nosso próprio corpo reage ao prazer. Claro, soma-se a isso o fato de vivermos, atualmente, demasiadamente a nível mental diante de tanta tecnologia e imediatismo. Tive uma ótima surpresa, certa vez, em uma capacitação sobre o desenvolvimento afetivo e psicossexual, para um grupo de professoras municipais de ciclos iniciais. Perguntei como elas trabalhavam a corporalidade com as crianças, e uma professora levantou o braço e disse “eu uso o relaxamento”, outra se encorajou e disse “eu trabalho através da dança”. Fiquei feliz, pois práticas como estas devem tomar conta das salas de aula, afinal não temos um corpo, mas somos um corpo.
O trabalho em Sexologia é assim, uma caixinha de surpresas. É uma constante, talvez eterna aprendizagem, mas com muita alegrias ao perceber os ganhos e transformações nas pessoas e em sua sexualidade. E isso acontece de maneira discreta, mas extremamente gratificante. É um trabalho em prol de liberdade e diversidade humana.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Carla Carniça
04 de Junho de 2018

O Projecto Vamos Falar de Sexualidade

É um projecto que visa promover pessoas especializadas nas mais diversas áreas da sexualidade. E poder retirar dúvidas através das respostas de todos vós que me seguem.
E este projecto requer tempo, atenção, investigação, e é onde dedico o meu tempo, para que todos possamos aprender e possa promover mais a sexualidade. Por isso gostaria que me pudessem ajudar. Se pudessem deixar um euro ou o que quisessem, ficaria muito grato.
Basta aceder ao seguinte endereço: www.paypal.com
 Obrigado.

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