Entrevista a Sónia Araújo, Psicóloga, Sexóloga, Terapeuta Sexual, Formadora

É técnica – Psicóloga numa Equipa Multidisciplinar Especializada de Assistência a Vitimas de Tráfico de Seres Humanos da Região Centro desde Dezembro de 2012. De que modo foi importante e essencial ter trabalhado com a equipa neste projecto de assistência a seres humanos vítimas de tráfico? Como psicóloga, de que maneira foi importante ter dado assistência a seres humanos que vivem situações indignas e de terror?

R: A minha experiência enquanto psicóloga na EME Centro (Equipa Multidisciplinar Especializada de Assistência a Vítimas de Tráfico de Seres Humanos da Região Centro) tem sido muito enriquecedora a vários níveis. Por um lado, permite-me contactar directamente com pessoas que foram vítimas de um crime que atenta contra os direitos humanos fundamentais, pelo que toda a assistência que prestamos, mesmo a mais básica (alimentação, alojamento, vestuário, entre outras) representa uma mais valia com um impacto gigantesco na vida destas vítimas. É portanto muito gratificante poder trabalhar numa equipa cujos resultados em termos de melhoria das vítimas são extremamente visíveis e impactantes, quer a curto, quer a longo prazo. Por outro lado, as histórias de vida destas vítimas relatam situações de extrema vulnerabilidade, a variados e múltiplos níveis, quer em termos sociais, familiares, financeiros, psicológicos, pelo que há muito a fazer em termos de apoio a prestar. Assim, este trabalho é muitíssimo gratificante.

Por outro lado, a nossa equipa aposta muito ao nível da prevenção, pelo que temos sensibilizado e informado milhares de pessoas na região centro acerca do fenómeno do Tráfico de Seres Humanos, quer através do desenvolvimento de ações para diversos públicos-alvo (desde técnicos, a órgãos de polícia criminal, profissionais de saúde, docentes, jovens, populações vulneráveis como jovens institucionalizados ou doentes psiquiátricos, desempregados ou sem-abrigo), quer através de inúmeras campanhas de sensibilização realizadas.

Há ainda a sublinhar que esta equipa é responsável pela criação e manutenção da Rede Regional do Centro de Apoio e Protecção a Vítimas de Tráfico de Seres Humanos, que conta já com 40 entidades da Região Centro, que trabalham em equipa no sentido de prestar um apoio eficaz e eficiente às vítimas de tráfico que nos são sinalizadas.

Foi co-autora do guia “Conceber: guia para profissionais e pessoas com problemas de fertilidade”; como foi a sua experiência de co-autoria deste guia sobre um assunto tão pertinente e delicado? O que é ainda necessário ensinar-se, discutir-se e debater-se? De que forma veio este livro mudar a situação de conhecimento dos profissionais e como veio colmatar as dúvidas, preconceitos e falta de informação correcta?

R: Este guia foi um importante marco no assumir e debate do problema da infertilidade em Portugal. Creio que o seu impacto foi importante, quer para as pessoas que vivem esta situação, quer para os próprios profissionais de saúde, pois foi um trabalho exaustivo de actualização de conteúdos correctos do ponto de vista científico, mas também institucional, providenciando informação muito útil em termos de tratamentos e locais especializados para os obter. Por outro lado, os conteúdos do Guia permitem também desmistificar o assunto e encará-lo de forma a poder procurar soluções práticas, ao invés da paralisação que atinge as pessoas que internalizam o problema com questões de culpa e ineficácia.

Como técnica-psicóloga trabalhou no proecto Sex Trivial, um jogo pedagógico em formato digital cuja finalidade é testar e enriquecer os conhecimentos, bem como trabalhar os sentimentos, atitudes e competências individuais face à sexualidade. De que forma foi enriquecedor ter co-desenvolvido este guia, e de que forma tem este jogo sido positivo e capaz de melhorar as competências, sentimentos e atitudes face à sexualidade?

R: Este jogo foi desenvolvido no sentido de permitir trabalhar os conteúdos da Educação Sexual com jovens adolescentes, em grupo e de forma pedagógica. Tivémos sempre como preocupação trabalhar não apenas conteúdos, mas sobretudo desenvolver sentimentos e atitudes positivas e favoráveis face à sexualidade, bem como comportamentos assertivos, que se traduzam numa vivência saudável e responsável da sexualidade. Foi portanto um desafio muito enriquecedor, na medida em que nos obrigou a ser criativas na criação de situações de jogo que permitissem aos jovens adquirir conhecimentos e treinar situações quotidianas que muitas vezes representam comportamentos de risco a nível sexual, já que as atitudes a ter não costumam ser abordadas num contexto formal de ensino.

É autora do Programa de Educação Sexual para o Ensino Profissional do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), ao abrigo do Programa Melhores Escolhas, Melhor Saúde (MEMS) da APF. Qual a importância, para si, de ensinar educação sexual e de preparar estes profissionais para uma área, tão importante e essencial na vida de cada um, como a sexualidade?

R: É sabido que grande parte da população que frequenta o ensino profissional em Portugal (desde jovens até adultos de meia idade) é sexualmente activa, pelo que apostar na sua educação sexual é fundamental, para prevenir comportamentos de risco que aumentam as infecções sexualmente transmissíveis e o número de gravidezes indesejadas e/ou de interrupções voluntárias da gravidez. Desta forma, construir um Programa tão abrangente e diversificado foi um enorme desafio que abracei com muito entusiasmo, pois acredito que pode ser uma ferramenta fundamental para os formadores que não tiveram outro tipo de formação no âmbito da sexualidade poderem colocar em prática em contexto de sala. O programa está estruturado inclusivamente tendo em conta que existem até contextos em que os formandos possam não saber ler ou escrever, pelo que as actividades que o programa contempla são, para além de muito práticas e activas, muito pedagógicas, no sentido em que foram desenhadas com o propósito de atingir determinados objectivos específicos, o que passa pela abordagem de conteúdos determinantes. Ao estar estruturado dessa forma, acredito que possa de facto ser uma ferramenta prática que os formadores podem ter como aliado para a inclusão (fundamental e urgente) da educação sexual no contexto do ensino profissional. O programa contém cerca de 60 horas de actividades, divididas em vários temas fundamentais ao nível da sexualidade e saúde sexual e reprodutiva, cuja aplicação é flexível, cabendo aos formadores a decisão do que abordar e quando o fazer.

É igualmente autora do Manual de Sugestões de Actividades Digitais ON_Sex, ao abrigo do Programa Projecto Direitos Sexuais e Jovens Vulneráveis (APF/Gulbenkian), cujo objectivo consiste na promoção, num ambiente digital, da cidadania activa e da defesa dos direitos sexuais dos jovens. De que forma pode este projecto sobre os direitos sexuais de jovens vulneráveis representar um ponto-chave na vida destes jovens? Qual a importância do público-alvo deste projecto serem jovens vulneráveis?

R: A elaboração deste Manual foi também um projecto que me deu imenso prazer elaborar, pois acredito que o ambiente digital possa ter inúmeras vantagens do ponto de vista pedagógico, quando utilizado de forma consciente e responsável. A necessidade de elaborar este material prende-se com o facto do ambiente digital ser cada vez mais utilizado por crianças e jovens, sendo que os riscos que esta utilização comporta – sobretudo em matérias de sexualidade – são inquestionáveis, mas não incontornáveis. Como tal, esta ferramenta aproveita o que há de melhor em termos de ambiente digital para a promoção de uma sexualidade consciente e responsável, direccionando os jovens para conteúdos pedagógicos, mas também lúdicos, que permitam abordar estas questões. Cada actividade está construída com objectivos específicos a atingir e contém um conjunto de considerações/orientações para os formadores que a irão desenvolver, no sentido de instrumentalizar a sua utilização.

Trabalhou durante 16 anos na APF/Centro, como psicóloga, terapeuta sexual e formadora; considera que este seu percurso foi enriquecedor? Considera ter sido preponderante a sua prestação de serviço na Associação para o Planeamento da Família?

R: O meu percurso profissional começou na APF, em 2001. Na altura, eu era licenciada em Ciências da Educação e, como tinha feito estágio curricular no ministério da educação, ao nível da promoção da educação sexual em meio escolar, a APF recebeu-me como formadora e, mais tarde, como coordenadora do projecto de educação sexual nas escolas da região centro. Foi para mim uma grande aprendizagem, pois tive oportunidade de apoiar o desenvolvimento de programas de educação sexual para diversos públicos da comunidade educativa: alunos, pais e encarregados de educação, assistentes operacionais e docentes. Entretanto, licenciei-me em psicologia clínica, pelo que comecei também a trabalhar no aconselhamento a jovens em saúde sexual e reprodutiva. Este contacto permitiu-me ter uma visão mais abrangente e também mais incisiva acerca dos comportamentos e atitudes dos jovens face à sexualidade, o que, por outro lado, me permitiu ter bagagem para investir na elaboração de jogos e programas pedagógicos neste âmbito.

Finalmente, a formação que fiz em sexologia clínica certificou-me enquanto terapeuta sexual, pelo que, aliado ao facto de ser psicóloga clínica, comecei a fazer consultas de psicologia e sexologia clínica, também na APF.

Considero portanto que a APF tem sido desde sempre o contexto que me permitiu desenvolver os meus interesses e competências, possibilitando que o meu percurso profissional enquanto formadora, autora de materiais pedagógicos e terapeuta pudesse desenvolver-se.
Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Eu é que agradeço, foi um gosto!

Projecto Vamos Falar de Sexualidade

Entrevista: Pedro Marques

Correcção: António Chagas Dias
31 de Outubro de 2017

 

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