Entrevista a Rui Ferreira Carvalho

Entrevista a Rui Ferreira Carvalho, Coordenador do SexED – Projecto de sexualidade dedicado às Escolas do Ensino Básico e Secundário para colmatar a falta de Educação Sexual em Portugal (https://www.facebook.com/S3xED.edu/)

De que forma é que é fundamental a realização de sessões sobre sexualidade nestas idades escolares?

A educação para a sexualidade é um elemento essencial do desenvolvimento pessoal. Antes de mais, é necessário distinguir que sexualidade (e consequentemente as informações veiculadas pelo nosso projecto SexED -https://www.facebook.com/S3xED.edu/ – nas sessões de educação sexual) engloba muito mais do que somente sexo; ao ser um conceito amplo e abrangente que inclui diversas esferas de relações interpessoais, familiares e íntimas, incluindo temáticas sociais, biológicas e psicológicas.
O que temos notado relativamente à educação sexual no Ensino Básico e no Ensino Secundário é que, apesar de estar previsto na lei, os alunos queixam-se do facto das suas formações (e informações) nesta área serem deficitárias (recorrendo frequentemente a pares para tirar dúvidas – o que raramente se traduz na informação mais correcta).
O nosso projecto constitui uma forma informal, jovial e, até certo ponto, educação pelos pares (pela nossa idade e postura), mas com informação com correcção científica e sociológica, baseada na nossa formação como médicos e no nosso investimento pessoal na área da sexologia.

A partir dos temas debatidos, com orientação sobre a gravidez indesejada, a anatomia normal e funcional do sistema reprodutivo de ambos os sexos entre outros temas, de que forma é que pode ser conseguida uma sexualidade mais satisfatória com menos riscos e mais prazer?

Ao já ter sido demonstrada a ineficiência da educação sexual centrada na abstinência (e com pouca informação biológica e anatómica) na prevenção de gravidez na adolescência ou na alteração de qualquer tipo de comportamentos de risco, o nosso projecto tem como linha orientadora a formação e o acesso a informação correcta e adequada à idade como modo de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e de gravidez indesejada na adolescência.
É importante salientar que o maior acesso a informação sobre sexualidade não se encontra associado a uma idade de início de actividade sexual mais precoce (pelo contrário!). Da mesma forma, informar acerca de contraceptivos, bem como divulgar e facilitar o seu acesso, permite uma sexualidade mais livre, com menos riscos (preservativo como único meio de prevenção de ISTs; restantes métodos para prevenção de gravidez indesejada).

Desde que começaram a fazer sessões, que principais lacunas têm encontrado? Como podem estas sessões melhorar e consciencializar as crianças e as pessoas envolventes para a sexualidade?

Apesar das dúvidas normais acerca de biologia masculina e feminina e de ISTs, a componente que é mais deficitária dentro da formação da sexualidade é a componente psico-sociológica relacionada com Orientação sexual e Identidade de género. Infelizmente, ainda existem muitos mitos perpetuados acerca da homo/bissexualidade, desconhecimento de outras orientações sexuais, incredulidade perante a assexualidade e transfobia (em relação com desconhecimento, preconceitos ou mesmo confusão de conceitos).

Partilharam um vídeo da Unicef sobre a mutilação genital feminina, num projecto de sexualidade, de ensino e aprendizagem. Para vós, em que é que este acto bárbaro pode prejudicar o normal funcionamento do órgão sexual da mulher e a sua sexualidade?

Numa sessão que contou com a participação de associações com acções em África (nomeadamente Guiné) e comunidades portuguesas com população guineense em que pude estar presente foi salientada a relevância deste tema para a comunidade portuguesa. Estima-se que esta prática tenha ocorrido em mais de 125 milhões de mulheres e crianças em 29 países em África e no Médio Oriente, mas também ocorre mais perto do que possamos imaginar (foi precisamente este o fundamento da campanha publicitária anti-FGM “It happens here”, também divulgada pelo SexED).
A Mutilação Genital Feminina (MGF) classifica-se em vários tipos de acordo com as estruturas genitais externas que são manipuladas ou excisadas/removidas; indo desde modificações que incluem “apenas” a excisão do prepúcio do clítoris até procedimentos que têm como objectivo a remoção do clítoris (“o órgão do prazer feminino”) e dos pequenos lábios e até mesmo fundir (com queimaduras ou suturas) os grandes lábios. Estes são procedimentos feitos em crianças/adolescentes sem qualquer tipo de assepsia ou condições de higiene, podendo pôr em risco a vida da mulher devido a infecções ou complicações hemorrágicas. Para além deste perigo imediato, as complicações para a sua saúde sexual e reprodutiva (e mental) podem perdurar para o resto da vida; existindo relatos de dor com excitação, dor/dificuldade com penetração, dor com o orgasmo, dificuldades num eventual parto por via vaginal, entre outros.
Outros nomes/expressões para esta mutilação incluem: “corte”, “submeter-se à tradição”, “fanado”, “circuncisão”.

Um artigo que partilharam sobre sexo e consentimento refere que 29% consideram que sexo sem consentimento pode ser justificado. De que forma pode ser prejudicial para o bem-estar psicológico, afectando a sexualidade e a própria vida? Como o vosso trabalho pende para as escolas, de que forma deve este tema ser retratado?

Sexo sem consentimento é violação. Este conceito tem de estar presente nas mentes de toda a gente; e é essa uma das mensagens-chave do SexED. Nunca é excessivamente salientado na comunicação social ou na comunidade em geral a relevância de não existirem áreas cinzentas no que toca a violação versus consentimento. Ninguém nunca está “a pedi-las”/”asking for it” no que diz respeito a actos sexuais não consensuais; independentemente de roupa, género, comportamento, estado de consciência ou embriaguez, mudanças de decisão (o consentimento é revogável em qualquer momento)…
Quanto ao bem-estar psicológico, é evidente e está amplamente descrita a ocorrência de Perturbação de Stress Pós-Traumático em vítimas de violação. Nas nossas sessões, chamamos sempre à atenção o facto de ocorrer violação no sexo masculino (inclusivamente por mulheres), que é muitas vezes sub-reportada ou subvalorizada pelas vítimas, seus pares e autoridades (constituindo uma forma de perpetuar a vitimização secundária).
Como conclusão, é necessário que esses 29% (e restantes pessoas que poderiam não estar conscientes do imperativo da necessidade de consentimento) que responderam dessa forma a esse estudo passem a ter noção que responderam “sim” à questão “violação pode ser justificada?”; o que é completamente desumano.

Partilharam igualmente uma notícia sobre as declarações da Presidente da Associação dos Psicólogos Católicos. Que visão transmitem para as crianças em relação ao tema da homossexualidade?

A nossa visão corresponde à visão da Organização Mundial de Saúde (OMS/WHO) e da American Psychological Association (APA) acerca da orientação sexual: não é uma escolha, não é hereditária (e não se encontrou fundamento genético único – “causa”), não é uma patologia, nem é um estilo de vida. É difícil reduzir um comportamento tão complexo a certos aspectos biológicos ou psicológicos.
Orientação sexual refere-se ao padrão de atracção física e emocional (incluindo fantasias, actividades e comportamento sexual) e ao género dos indivíduos pelos quais se exerce essa atracção. A avaliação individual que um indivíduo faz da sua orientação sexual constitui a sua identidade sexual.
Divulgamos, nesse sentido, o “Dia Nacional contra a Homofobia e a Transfobia” #IDAHOT, celebrado a 17 de Maio. Este dia “é celebrado em todo o mundo e reconhecido oficialmente em diversos Estados e na própria União Europeia como a data em que se assinala o longo percurso do combate à discriminação homofóbica e transfóbica e a luta pelo reconhecimento de direitos face à lei, recordando o momento em que, em 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua classificação internacional de doenças, derrubando uma barreira simultaneamente real e simbólica de preconceito homofóbico”.
Desde 2004 (há 12 anos atrás) que a APA – American Psychological Association (entidade de referência científica internacional) adopta uma resolução a favor da adopção por casais do mesmo sexo, baseada em vários estudos científicos (de qualidade).

Enquanto ainda alunos de quintos e sextos anos da universidade e jovens médicos, é importante e enriquecedor para vós a criação deste projecto voluntário de partilha de sabedoria sobre educação sexual e sexualidade para as escolas? O que têm aprendido e como têm conseguido quebrar a enorme falta de educação sexual?

Neste momento, todos os elementos do nosso projecto de educação sexual SexED concluíram a Licenciatura em Estudos Básicos da Saúde (incluída no Mestrado Integrado em Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa). Alguns dos nossos membros, incluindo eu, são já Médicos (com Mestrado) Internos de Ano Comum em hospitais na região de Lisboa e Vale do Tejo. Assim, em acréscimo à formação da componente curricular anatomofisiológica, biológica, clínica e médico-legal adquirida na Faculdade de Medicina de Lisboa, foi necessário um investimento pessoal para frequentar formações extra-curriculares relacionadas com Sexologia e investigação própria em bibliografia de relevo científico e sociológico no âmbito do estudo da sexualidade; desenvolvendo as temáticas menos discutidas em Medicina (como orientação sexual, identidade de género, violação e consentimento, violência de género e papéis de género).
Aprendemos sempre imenso com as sessões que fazemos e as dúvidas que nos colocam, pelo que apelamos sempre que nos contactem, sem vergonhas ou inibições, pelo nosso Facebook https://www.facebook.com/S3xED.edu/ ou pelo nosso email sexed.edu@gmail.com

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Daniel Abrunheiro
11 de Janeiro de 2017

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