Entrevista ao Psicólogo e Investigador Tiago Pereira

Para o seu mestrado está a estudar: “O Papel da Discrepância de Desejo Sexual na Satisfação Sexual e Relacional em Homens: O Papel da Orientação Sexual”. O que o levou a querer investigar sobre a sexualidade, o desejo e a satisfação sexual e relacional entre homens?

O meu interesse pela área da sexualidade surgiu já no início do meu Mestrado Integrado em Psicologia na Universidade do Minho e desde cedo foi meu objetivo trabalhar nesta área. Nos primeiros anos do curso, envolvi-me no projeto de colaboradores de investigação que a Escola de Psicologia disponibiliza aos seus alunos e a partir desse momento tive a oportunidade de contactar tanto com a área da sexualidade como dos relacionamentos amorosos, ao acompanhar as investigações realizadas pela Professora Doutora Joana Arantes. No âmbito desse projeto, acompanhei investigações que se debruçavam sobre o impacto da infidelidade no desejo sexual, atratividade e qualidade do relacionamento e sobre o impacto do diagnóstico de cancro nos relacionamentos íntimos. O envolvimento nesse projeto proporcionou-me, além do contacto com os diversos temas mencionados, o desenvolvimento de competências de investigação e pesquisa.
Chegado ao 2º ciclo do Mestrado Integrado e tendo oportunidade de trabalhar e investigar sobre sexualidade decidi agarrar esta oportunidade. Inicialmente, não havia um tema definido, mas após algumas leituras e com a ajuda da minha orientadora, a Doutora Manuela Peixoto, cheguei a este tema. O desejo sexual e, em particular, a discrepância de desejo sexual despertaram-me particular interesse, tendo-se elaborado, por isso, uma investigação nesse sentido. Ao perceber que existia uma lacuna na literatura e por questões metodológicas, a investigação foi delineada no sentido de se estudar o papel da discrepância de desejo sexual sobre a satisfação sexual e relacional numa amostra masculina. Uma vez que a maioria dos estudos se foca numa perspetiva heteronormativa decidiu-se expandir o estudo a todas as orientações sexuais, também com o objetivo de perceber se a orientação sexual tem alguma influência sobre o papel da discrepância do desejo sexual.

O que tem aprendido com o seu estudo sobre este papel do desejo sexual? Que importância tem para si e para as pessoas este estudo? De que forma pode ser fundamental para a compreensão e uma visão diferente do papel do desejo sexual e da satisfação sexual?

Desde o início do estudo que tenho aprendido bastante sobre o tema, sendo que o desejo sexual pode definir-se, de uma forma muito sumária, como o componente motivacional do ciclo de resposta sexual. Este pode preceder e acompanhar a excitação sexual e regra geral sofre flutuações ao longo do tempo, não só na vida de um indivíduo como de um casal. Num casal o nível de desejo sexual pode estar sincronizado ou pode acontecer que um indivíduo experiencie maior ou menor desejo sexual do que o parceiro, havendo nesse caso uma situação de discrepância de desejo sexual.
O desejo sexual é um dos principais fatores que afeta não só a satisfação sexual como relacional dos indivíduos e do casal. Segundo a literatura, a discrepância de desejo sexual é comum entre os casais e de acordo com a capacidade dos indivíduos para lidar com esta diferença ao nível do desejo do casal pode ou não constituir um problema, podendo de igual forma ter um impacto significativo sobre a satisfação sexual e relacional.
De entre os problemas sexuais mais apontados pelos pacientes em terapia, destacam-se os problemas com o desejo sexual. Na maioria das vezes, o foco é o parceiro com baixo desejo sexual, e menor atenção é dada ao parceiro com elevado desejo sexual, isto porque ter maior desejo é visto como normal e saudável. Por outro lado, ter baixo desejo é visto como patológico. No entanto, não existem padrões de desejo sexual, e ter mais desejo sexual não é necessariamente melhor que o contrário, sendo o mais importante o equilíbrio satisfatório entre o casal. O estudo das discrepâncias de desejo sexual entre parceiros torna-se fundamental para a prática clínica, uma vez que permitirá, por exemplo, o entendimento do baixo desejo sexual dentro da relação de intimidade de cada casal, impedindo a atribuição de diagnósticos precoces de problemas de desejo sexual. Tal como Zilbergeld & Ellison (1980) defendem, o tratamento perante situações de discrepância de desejo sexual passará pelo foco no casal, tentando em simultâneo aumentar o desejo sexual de um parceiro e diminuir o do outro.

O prazo do estudo conclui em Fevereiro de 2017, no entanto o que é que já nos pode falar sobre os objectivos do estudo?

O estudo tem como objetivo principal perceber se a discrepância de desejo sexual dentro de um casal tem impacto sobre a satisfação sexual e relacional do homem, e perceber se existem diferenças entre homens que mantêm relacionamentos com mulheres e homens que mantêm relacionamentos com outros homens. De momento, o estudo encontra-se ainda em fase de recolha de dados, mas, e de acordo com a literatura existente sobre o tema, é esperado que homens que experienciam discrepância de desejo sexual no seu relacionamento e a consideram problemática se sintam menos satisfeitos sexual e relacionalmente em comparação com homens que não experienciam discrepância de desejo sexual ou não a consideram problemática, independentemente da sua orientação sexual.

Tradução e Validação da Escala de Funcionamento do Sistema Sexual para a Língua Portuguesa. –
Em 2014 fez a apresentação do póster dos resultados preliminares da investigação do V Seminário de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho. O que significou este trabalho para si? De que forma foi enriquecedor este trabalho de apresentação dos resultados e do funcionamento do sistema sexual?

Esse trabalho foi desenvolvido em conjunto com outras colegas no âmbito de uma unidade curricular de investigação, no segundo ano de do curso. Por essa altura, fomos desafiados pela docente responsável pela UC, a Professora Doutora Joana Arantes, não só a traduzir e validar este instrumento como a apresentar os resultados preliminares da investigação desenvolvida. Este trabalho permitiu tanto o desenvolvimento de competências ao nível da investigação, como o desenvolvimento de um trabalho sobre sexualidade, nomeadamente, sobre funcionamento sexual. Um bom funcionamento do sistema sexual requer a coordenação das motivações e ações de ambos os parceiros, e depende não só da capacidade de atrair um parceiro, mas também da disponibilidade para as preferências sexuais do parceiro. Esta escala permite avaliar as diferenças individuais no sistema comportamental sexual e como estas podem afetar o bem-estar pessoal e interpessoal.
A apresentação deste trabalho num simpósio de investigação permitiu a exposição do mesmo, o contacto com outros investigadores e a partilha de conhecimentos e opiniões.

“Está a decorrer um estudo sobre discrepância de desejo sexual em homens, no âmbito da dissertação de Mestrado Integrado em Psicologia (Universidade do Minho) do aluno Tiago Pereira. Para participar basta ter mais de 18 anos, ser homem e estar numa relação monogâmica (independentemente da orientação sexual). O questionário é muito breve e tem a duração de cerca de 5 minutos. Para participar basta aceder ao link:https://goo.gl/forms/VOULkViUJ5JpZUEP2

Desde já agradeço a sua colaboração.”

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
06 de Janeiro de 2017

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