Entrevista a Carla Felício

Entrevista a Carla Felício – Massagista, Naturista, Massagista Tântrica, Tailandesa, Ayurvedic, Lingam e Yoni

Faz massagem Tântrica, Yoni, Tailandesa e Ayurvedic. De onde surgiu a vontade de trabalhar estas vertentes das massagens, a sexualidade e o prazer nelas inerentes? De que forma é que o seu trabalho desenvolve a sexualidade dos seus pacientes através das massagens Tântricas e Tailandesas?

Sempre tive um enorme gosto pela saúde e o tratamento de corpo. Desde cedo fui revendedora de marcas de cosmética e já me atraia aquilo que aprendia nas formações que ia tendo, no entanto nunca me despertou grande interesse a massagem.
Gostava e gosto de SPA e massagens e tudo o que envolva esses temas e ambientes, mas não me via a mim como massagista.
O caminho que me trouxe até este trabalho nada teve a ver com um interesse meu mas uma última alternativa para resolver a minha vida. Sou uma pessoa bastante sensível, e após o meu divórcio sofri algumas desilusões amorosas que me foram deixando emocionalmente muito frágil. Por outro lado, sendo o pilar de uma família monoparental num país que pouco ajuda, também a minha situação económica estava completamente desastrosa, passámos alguns momentos complicados, por vezes ficávamos sem electricidade, ou sem gás, e muitas vezes já não sabia o que dar de comer às crianças.
Qualquer emprego que tivesse, não só não era suficiente para eu poder viver, como me deixava muitas vezes sem alternativas para estar e cuidar dos meus filhos.
Toda esta pressão sobre mim, tornou-se um desespero e um dia acabei por ceder a uma proposta de uma colega para entrar no mundo da prostituição. Bastaram-me uns dias para perceber que não gostava desse trabalho. É demasiado frio, demasiado insensível para o meu feitio. Um dia recebi uma chamada de uma massagista que pretendia uma colega. Na mesma altura fui também chamada para uma formação de estética e massagem e comecei a conhecer e a gostar da massagem. Fiz os primeiros anúncios de massagem, fui aprendendo e evoluindo o que já tinha aprendido. 3 anos passados, considero que gosto do meu trabalho que como qualquer outro tem coisas boas e menos boas.
Gosto de dar prazer e bem estar aos outros, existem prazeres que muitas vezes as pessoas não se dão oportunidade de os sentir. O toque, o envolvimento geral de uma massagem mesmo sem sexo, especialmente se tiver a componente Yoni ou Lingam, é realmente muito intenso e prazeiroso.
Por vezes recebo clientes que não procuram bem o que eu tenho para oferecer. Querem somente sexo, trazem na ideia uma qualquer imagem pornográfica e acham que eu estou aqui para lhes realizar essas fantasias. Normalmente esses clientes não levam o que de melhor tenho para oferecer. Primeiro porque nem deixam que eu faça a massagem devidamente e depois porque o resto já não é tão bom como deveria ser pois eu não gosto desse tipo de pressão.
O meu trabalho é muitas vezes mais terapêutico a nível emocional. Mais que uma vez alguns clientes acabam por desabafar problemas sexuais que vivem, ou problemas em relacionamentos, às vezes choram, eu também já chorei com alguns clientes. No fundo estamos nus de corpo e alma, ali naquele quarto não há julgamentos, eu tento ajudar naquilo que posso mas também tenho clientes que se tornam meus confidentes. Este trabalho tem-me mostrado um mundo masculino cheio de carências de afecto, cheio de solidão, de problemas sexuais ou emocionais. Um mundo que passa um pouco ao lado do que é a visão do sexo masculino. Tento sempre ajudá-los a entender a mulher e o que aprendo com eles, tento ajudar as mulheres a entenderem os homens.

Desde que começou a desenvolver o trabalho para a sexualidade, o que aprendeu e conseguiu melhorar na sexualidade das mulheres e dos homens que procuram o seu trabalho?

O objectivo do meu trabalho em relação à sexualidade de quem procura, é libertar as pessoas dos tabus, do receio de conhecerem melhor o próprio corpo e os prazeres que podem sentir. Aprendi algumas coisas que tento sempre transmitir a quem me quer ouvir. Por ex: que muitas vezes os homens amam as suas parceiras, mas com os anos deixam de ter apetite sexual com elas. É como o perfume, se usamos muito tempo deixamos de o sentir, mas continuamos cientes que ele cheira bem e que gostamos dele. Se mudarmos de perfume uns tempos, quando voltamos a usar o outro, já o conseguimos cheirar novamente. Acho que isto se passa com muitos homens, quando procuram outras mulheres, outras sensações, normalmente voltam a sentir também maior desejo pelas companheiras. Porque ao contrário das mulheres, um homem que não sinta desejo não consegue ter sexo. Neste sentido seria bom haver mais abertura entre os casais para entenderem estas coisas. Há muita falta de abertura no que toca a assuntos sexuais, por vezes por parte da mulher, outras por parte do homem. Muitos querem viver muitas coisas mas não as querem viver com os parceiros ou têm receio de falar sobre isso com eles, isso acaba muitas vezes por arruinar a vida sexual dos casais.
Aprendi que os homens não pensam só em sexo como é normal as mulheres pensarem, e até eles se confundem um pouco e confundem carência de afecto com falta de sexo.
Descobri que existem mulheres que vivem ainda uma sexualidade muito reprimida, ou pela educação que tiveram, ou pelo receio dos julgamentos sociais. O número é bem maior do que eu imaginava.

Como podem as pessoas conhecer melhor estas vertentes da sexualidade, do erotismo e das massagens para que possam retirar mais prazer e ter uma melhor sexualidade?

As pessoas podem conhecer melhor estas vertentes da sexualidade procurando, conhecendo-se melhor, explorando o mundo dos desejos no seu intimo e deixarem-se levar entregando-se à realidade de os viver. Como pode alguém oferecer prazer a outra pessoa se não tiver ciente do que é ter prazer? Como pode alguém ter e dar prazer se não de libertar para isso?

Nos seus blogues tem publicados vários contos eróticos. De que forma é que escrever estes contos, a dupla que faz com Laura, o serviço de Suaves e Sensuais Dominações, a fazem ter uma mente mais desperta e aberta para o erotismo, a sexualidade e a fazem desenvolver nesse sentido?

O que me leva a escrever é o gosto pela escrita, mas acima de tudo é a forma de continuar em contacto com que me segue e me gosta de ler e de partilhar os meus ideais que podem servir de ajuda a outros. Sempre gostei de escrever e contar fantasias minhas e ao longo dos anos as pessoas a quem eu mostrava ou falava as minhas fantasias, todas me foram aconselhando criar um blog, e assim fiz. Fiquei um pouco surpresa pois não imaginava que em tão pouco tempo fosse ter tanta visualização. Por vezes não ando inspirada algum tempo, há sempre coisas da nossa vida privada que nos podem tirar a vontade de escrever de vez em quando. Quando passo um tempo sem lançar nada de novo, começo a receber mensagens dos leitores que querem sempre ler mais qualquer coisa. Por vezes os clientes também querem que escreva sobre os nossos momentos. Eu tento escrever para todos, por vezes coisas que vivo, outras coisas que fantasio, e por vezes misturo um pouco de tudo. Também costumo escrever alguns desabafos, nestes trabalhos sofremos quase todos os dias algum tipo de discriminação ou insultos. Escrevo também para mostrar ao mundo que o sexo é algo natural, que deve ser vivido em liberdade, que não devemos discriminar opções ou a sexualidade de cada um. As pessoas não são o sexo, não são as relações que têm ou as profissões que fazem, as pessoas são aquilo que são. Podem existir pessoas fantásticas ou menos boas em qualquer trabalho ou com qualquer tipo de vida sexual.

Escreveu um texto sobre masturbação. Como é importante para si a prática da masturbação, falar-se sobre masturbação e haver uma maior abertura para esta prática natural e sexual?

Como já tinha referido anteriormente, não se pode dar prazer aos outros sem sabermos dar prazer a nós mesmos.
Todos nós nascemos com a curiosidade de descobrir o corpo e em determinada altura todos temos a ideia de nos tocarmos e acariciarmos, é algo natural que nasce connosco, e mesmo sem que tenhamos a menor ideia do que é o sexo, na idade da puberdade começamos a sentir necessidade de conhecer essas novas sensações. Não dá para fugir à natureza das coisas. A masturbação é algo que nos faz conhecer o próprio corpo. Amar-nos a nós mesmos! Independentemente de se ter uma vida sexual mais ou menos activa, acho que todos nós devemos masturbar-nos de vez em quando. Só dessa forma descobrimos melhor o que o corpo tem para nos oferecer e ajuda-nos a descontrair e libertar-mo-nos de pudores e vergonhas. Temos de amar o nosso corpo e aceitar-mo-nos da forma que somos.

Como é que as pessoas conseguem saber até onde as suas massagens as podem levar em termos de erotismo, sexualidade…?

As pessoas só podem saber onde as massagens as podem levar se vivenciarem o momento. Eu adoro sushi, muita gente poderá dizer o mesmo, mas outros não podem com o cheiro. Cada um terá uma opinião sobre a massagem e sobre o erotismo que a envolve. Existem pessoas que só procuram mulheres de peito ou rabo grande, elegantes ou gordinhas, novinhas ou mais velhas. Cada um terá o seu gosto e nas massagens passa-se exactamente o mesmo, alguns irão viajar por mundos paradisíacos, porque gostam e procuram as sensações, o erotismo, o sexo intenso. Outros irão achar que não tenho o corpo perfeito, que não digo muitos palavrões ou não grito, ou que perco muito tempo na massagem etc. Não posso agradar a quem não aprecia este prato.
Quanto aos que procuram relaxar e sentir todo o envolvimento do meu trabalho, com certeza irão gostar, e por vezes tentam também aprender, o que é uma mais-valia, pois acabam por conseguir dar aos outros parceiros algo bom. Fico contente quando vejo que os clientes procuram saber mais sobre como dar prazer aos parceiros. É uma barreira derrubada, é um passo para a evolução sexual ter vontade de aprender e de dar ao outro o que de melhor se pode oferecer.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Mário Martins
07 de Janeiro de 2017

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