Entrevista à Psicóloga Investigadora Daniela Pereira

A Daniela é investigadora do Sex Lab e fez o estudo de Mestrado Integrado em Psicologia, tendo como área de especialização Psicologia Clínica e da Saúde, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. A sua tese de mestrado é sobre “Estrutura Psicológica em Mulheres Sexualmente Agressivas“ Quais foram as suas motivações para este estudo?

»Eu sempre tive interesse na área da sexualidade humana. Desde que entrei para a faculdade que, quem me conhece, sabe que era a área que eu pretendia seguir em Mestrado e, consequentemente, na dissertação, recaía sobre essa área mencionada. Quando soube que tínhamos na faculdade o SexLab fiquei extremamente entusiasmada e fiz lá, inclusivamente, um miniestágio que a nossa AE nos proporciona; realizei também as unidades curriculares relacionadas com a sexologia, tendo sempre em vista um futuro nesta área particular. Aquando da altura da escolha dos orientadores e temas de dissertação eu tinha uma visão clara sobre o tema geral que queria escolher, mas o tema específico da “Estrutura psicológica em mulheres sexualmente agressivas” foi apenas escolhido na altura. Não havia um tema específico sobre o qual me interessasse, uma vez que o meu interesse pela área é vasto, pelo que escolhi aquele que, na lista que nos é fornecida, me parecia o mais interessante e inovador. A Dra. Joana tinha nos seus tópicos de investigação o mesmo tema, mas focado no sexo masculino, mas eu logo que vi este tema centrado nas mulheres, soube que era nesse que queria trabalhar, uma vez considerar ser uma população menos estudada e que me permitira um maior contributo para esta linha de investigação. Assim que comecei a pesquisa sobre o tema, percebi que efetivamente havia pouco desenvolvimento na literatura sobre mulheres sexualmente agressivas e o entusiasmo cresceu ao dar conta que o estudo que iria desenvolver poderia ser uma mais-valia e uma base para o crescimento da investigação sobre esta população e todos os fatores e contextos inerentes.

A que conclusões chegou a partir da sua investigação?

Objetivamente, pôde-se concluir através dos dados obtidos que as mulheres universitárias com relato de algum tipo de estratégia sexualmente agressiva para obter contacto sexual com o sexo oposto, quando comparadas com universitárias que não relatavam a utilização deste tipo de estratégias, apresentaram significativamente mais sintomatologia do foro psicológico. Nomeadamente, têm associadas, características psicopatológicas de somatização, obsessões e compulsões, sensibilidade interpessoal, depressão, ansiedade, hostilidade, ansiedade fóbica, sintomas paranóides e psicoticismo; uma personalidade pautada por maiores níveis de neuroticismo e menores de amabilidade e conscienciosidade; maiores níveis de impulsividade motora/planeamento e impulsividade cognitiva; mais afeto negativo; e, por fim, maiores dificuldades na identificação de sentimentos. Indo além destes resultados, pude observar, a partir desta investigação, que esta temática é pouco desenvolvida e ainda bastante “estranha” na sociedade (particularmente junto da população universitária, sendo aquela com o qual tenho mais contacto). Digo isto, porque quando andava a publicitar o meu estudo notava-se o interesse das pessoas na temática por ser algo diferente. À primeira vista, as pessoas achavam que seriam pessoas sexualmente agressivas “na cama”, ou seja, com uma forma sexual de ser mais agressiva; quando eu passava a explicar aquilo de que efetivamente se tratava, notava-se a surpresa na expressão delas e havia até um discurso de certa forma trocista, como que a desvalorizar o ato e agressão sexual de mulheres contra homens. Em acréscimo, quando eu obtive os meus resultados preliminares, que revelavam uma percentagem significativa de mulheres sexualmente agressivas, e comecei a falar sobre o assunto, mais uma vez obtive surpresa como reação predominante.

Para si qual é a importância de estudar esta problemática?

»Em seguimento do que disse na questão anterior, a investigação nesta área revela-se essencial numa altura em que as mulheres começam a ter menos pudor de se exprimirem sexualmente e de se “arriscarem” naquilo que desejam realmente obter e fazer, ao invés de desempenharem o papel de parceiras sexuais passivas. Por um lado, isto parece positivo para as mulheres que se começam a empoderar, contudo, isto pode ser perigoso se pensarmos que as mulheres estão a adotar cada vez mais comportamentos sexualmente agressivos, mantendo, simultaneamente, a ideia de que os homens apreciam estes comportamentos e não sofrem consequências dos mesmos (o que não se revela na realidade). Assim sendo, considero de extrema importância estudar esta problemática e estabelecer perfis de características psicológicas e de personalidade associadas a mulheres com comportamentos sexualmente violentos. Estes perfis permitirão, não só compreender a etiologia e os fatores de manutenção subjacentes aos mesmos, como também desenvolver estratégias de prevenção e intervenção direcionadas ao combate desta preocupação social. Em acréscimo, a investigação e proliferação deste tema permitirá informar e educar a sociedade para a existência deste fenómeno e, desejavelmente, contribuir para a redução, não só da agressão sexual masculina, mas da agressão sexual no geral. Isto é, instruir sobre os comportamentos que podem ser considerados como sexualmente agressivos, permitirá uma maior consciencialização dos próprios comportamentos, do tipo de relação em que se está inserido e dos recursos que se tem disponíveis. A falta de reconhecimento de uma pessoa como vítima pode impedir que esta procure ajuda e que saia de uma relação não-saudável, e a não identificação de uma pessoa como coerciva quando esta utiliza comportamentos identificados como sexualmente agressivos, pode impedir que sejam realizadas intervenções apropriadas e que esta continue a envolver-se nestes comportamentos.

O que aprendeu desde que começou a sua investigação?

Desde que comecei a investigar nesta área, aprendi que o fenómeno de agressão sexual feminina contra homens é muito maior do que se pensa e está representado em vários comportamentos, desde o mais “simples” roubar de um beijo, à mais agressiva forma de violação como a conhecemos comumentemente. Isto é, podemos falar em agressão sexual em termos de coação sexual, ou seja, predominantemente agressão verbal (i.e., ameaçar, pressionar,…), em termos de abuso sexual (i.e., utilizar uma posição de poder sobre o outro, embebedar o outro,…) e em termos de força física, que consiste em ameaçar ou utilizar força física. Principalmente, aprendi que dentro destas categorias estão comportamentos que as pessoas na generalidade não consideram como agressivos, como por exemplo, amuar quando o parceiro não quer ter relações sexuais, numa tentativa de o convencer, insistir com beijos e toques sensuais quando outra pessoa não tem vontade de ter relações sexuais, entre outros.

A sua Tese de Mestrado enquadra-se na investigação forense da sua Orientadora, de que forma é que foi uma mais-valia para a sua investigação, e influência?

Trabalhar com a Dra. Joana Carvalho há-de ser sempre uma honra, quer por razões profissionais como pessoais. Para o meu tema em particular foi, sem dúvida, uma mais-valia, porque me orientou sempre na linha certa daquilo que seria o nosso objetivo final, tendo já um maior conhecimento sobre os estudos realizados na área e quais os resultados obtidos.

Segundo a sua orientadora o seu estudo: “Versa sobre a caracterização psicológica de mulheres (estudantes universitárias) com relato de estratégias sexualmente agressivas com vista a iniciar contacto sexual com o sexo oposto (e.g., manipulação verbal, uso da autoridade, etc). Os dados indicam que estas mulheres apresentam mais sintomatologia do foro psicológico relativamente ao grupo controlo.” Focou-se nas mulheres universitárias, o que a levou a cingir-se às mulheres universitárias? Tendo em conta que é um estudo sobre violência geral que se foca na sexualidade dessas mulheres, viu uma necessidade acrescida? Como é que deve ser vista esta problemática, de que forma deve ser encarada, e que mais estudos devem ser desenvolvidos?

Optamos por nos cingir às mulheres universitárias por considerarmos que estas constituíam uma amostra apropriada e uma mais-valia para a população, uma vez que o contexto universitário é caracterizado pela procura e incentivo da atividade sexual e onde, segundo Oswald & Russell (2006), um certo nível de coação sexual é considerado normal em relações de namoro universitárias heterossexuais.
Quanto à segunda questão que colocou, não sei se estou a entender claramente a pergunta. Contudo, o estudo não é sobre violência geral, é mesmo sobre violência sexual. Com um tema tão privado e sensível está sempre sujeito ao enviesamento por parte das mulheres que respondem ao questionário, uma vez que, à partida, ninguém quer admitir que adota comportamentos sexualmente agressivos, pelo que foi necessário ter cuidado com a divulgação do estudo, não o divulgando como sendo um estudo sobre agressão sexual, mas sim sobre formas de interação sexual do sexo oposto (o que não é errado, mas omite a questão central da agressão).
Esta problemática deve ser vista com seriedade, ao invés da leveza com que a população no geral a vive. Isto acontece, pois as pessoas têm tendência a achar que os homens se conseguem defender das mulheres, que estas não conseguem subjugar um homem, contudo, isto remete quase sempre para a coação física, sendo que as pessoas se esquecem da coação verbal e psicológica. É necessário haver uma proliferação sobre a temática para que homens que sejam vítimas destes comportamentos não tenham medo de se identificarem como vítimas e procurarem apoio. Quanto aos estudos a ser realizados, existem vários que permitiriam expandir o conhecimento sobre os comportamentos sexualmente agressivos cometidos por mulheres. Nomeadamente, uma comparação do perfil psicológico de mulheres que relatam tentativas de agressão sexual e atos efetivamente consumados; compreensão das variáveis contextuais envolventes do comportamento agressivo (e.g., relação com o perpetrador, história partilhada de atividade sexual consensual e não-consensual, local do incidente, utilização de droga e/ou álcool); compreensão da avaliação que as perpetradoras fazem sobre o seu próprio comportamento sexualmente agressivo e da interpretação que os homens recetores dão. Além disso, esta ampliação de conhecimentos também poderia ser conseguida a partir da compreensão das razões subjacentes aos comportamentos sexualmente agressivos por mulheres; e através da obtenção de perfis psicológicos e de personalidade associados a formas especificas de ofender sexualmente (e.g., carícias, beijos, relações sexuais) e de interagir com o sexo oposto (i.e., coação sexual, abuso sexual, força física).

Partilhou no seu facebook, o Tedx da Nicole Prause – sobre It may not be orgasm
“se pode não ser orgasmo” e “Quais as vantagens e motivações associadas ao sexo?” O que aprendeu sobre este Tedx, e para si quais são as vantagens e motivações associadas ao sexo? Como pode ser importante a reflexão sobre o orgasmo e as vantagens e motivações?

Este Tedx veio, para mim, reforçar uma ideia sobre a qual já tinha refletido, que recaí sobre a questão da importância do orgasmo durante a relação sexual. Eu considero que o sexo é importante não apenas por uma questão de prazer, mas para aproximar duas pessoas, pois, contrariamente àquilo que muita gente pensa, o sexo é, para mim um ato muito íntimo, que quer queiramos, quer não, nos liga à outra pessoa de uma forma bastante complexa. Contudo, não considero que o mais importante seja o orgasmo, porque se pensarmos bem, qualquer pessoa pode atingir o orgasmo, sem necessitar de um parceiro sexual, mas ninguém consegue atingir, sozinho, o nível de proximidade e intimidade que as relações sexuais conseguem. O orgasmo tem, na minha opinião, muito uma função de alívio de stress, mas também de prazer; contudo, tal como a Nicole Prause fala no Tedx, concordo que não seja o orgasmo que nos traz o máximo prazer, mas sim os pequenos momentos de grande ativação e excitação sexual que lhe precedem. Creio que seja importante as pessoas refletirem sobre isto, como forma de talvez desvalorizarem um pouco o orgasmo em si e começarem a valorizar mais as restantes componentes associadas à atividade sexual, como o contacto, a interação, a relação entre as duas pessoas.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
04 de Dezembro de 2016

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s