Entrevista a Ana Luísa Costa

Entrevista a Ana Luísa Costa – Modelo, Comediante, actriz

Pedrinho, em primeiro lugar, obrigada pela tua paciência e pelo teu interesse na minha pessoa. És um menino de Leiria de quem sempre gostei pela tua genuinidade, por se poder olhar e acreditar.

Tens trabalhado como modelo e já foste capa da Preguiça Magazine. O que mais te atrai no trabalho como modelo e pousares para a câmara? Disseste que como está a moda não te atrai tanto por falta de condições. Como é que gostarias que estivesse a situação e quais são as condições que consideras ideais para que possas trabalhar mais enquanto modelo?

Ora, permite-me dividir a resposta em duas partes. Em primeiro lugar, o meu ritual de iniciação no mundo da moda aconteceu quando tinha 14 anos e um pouco contra a minha vontade (como tudo o que me era sugerido durante a adolescência). Nessa altura, portanto há cerca de 7 anos ( ^_^ ) eu era uma tremenda “maria-rapaz”, escolhia roupa na secção de homem e tinha um andar e postura extremamente deselegantes para uma menina, e medíocres se fosse um menino. A minha mãe decidiu inscrever-me num curso de moda exclusivamente com a missão de correcção de postura.
Missão cumprida com sucesso. Daí para a frente tudo acabou por decorrer com naturalidade. O curso correu bem, acabei por tirar um segundo curso na área mais completo e com mais qualidade e visibilidade, um trabalho levou a outro, um contacto a outro, uma recomendação a outra e sempre fui fazendo os meus trabalhos a par da minha vida dita “normal”. Nunca fiz disso a minha vida, sempre fui fazendo à medida que ia surgindo e dentro da minha disponibilidade, mas as minhas ambições eram outras e não passavam exclusivamente por esse meio (chato e superficial se vivido de forma demasiado intensa).

Em segundo lugar, ganhei-lhe o gosto porque quando descobri a “minha sexualidade” e o meu lado feminino descobri que era uma grande namoradeira (o meu pai já o era e a minha mãe por mais que tente disfarçar… Tenho ali algumas suspeitas de grandes seduções). Não há nada melhor do que namorar uma máquina fotográfica! Aquele jogo de olhares, aquele ritual de acasalamento para descobrires o melhor ângulo, a provocação constante e, no fim, não tens de dar o número de telefone! Perfeito.
Quanto ao meio e às condições, sinceramente, já não me interessam. Considero-me reformada do mundo da moda. Diverti-me o que tinha para me divertir, aturei o que por vezes preferia não ter aturado, ganhei o meu dinheiro (muitas vezes quase à chapada para mo pagarem) e agora, venham as próximas.
Continuarei uma apaixonada pela fotografia, pela beleza não convencional e por mamas.

Estás neste momento a percorrer palcos a levar humor por esse país fora. Sendo uma paixão recente, o que tens aprendido desde que tiraste o curso com o Rui Sinel de Cordes e com os espectáculos que tens tido?

Aprendi tanta coisa sobre mim que já compensou pelo montante que paguei pelo curso. Também já o recuperei com os espectáculos… Não ando aqui a brincar ao voluntariado. Para isso vou limpar o rabo a velhinhos num Lar malcheiroso que é bem mais útil. Infelizmente neste país continuam com a mania que, se são artistas dos que não aparecem na televisão, fazem de borla. Ponham lá as vossas mães com um microfone na mão e divirtam-se.

Stand-up comedy era a última coisa que me imaginava a fazer na vida. Eu nem gostava de stand-up, aliás, não ligava nenhuma, estava completamente desatenta ao meio.
Fui para o curso pela vertente de guionismo e acabei por experimentar o palco. O palco já conhecia do teatro, desde garota que comecei a envolver-me nesse meio mas, sozinha com um microfone na mão e com a missão de fazer desconhecidos rirem-se… Isso foi inédito. A merda é que na primeira tentativa, na minha estreia nestas andanças, riram-se.
Perco anos de vida por causa dos nervos mas tem valido a pena.
Eu que detesto coisas radicais (para mim ir à Feira de Maio comer uma fartura “Penim” e ficar 5 minutos pasmada a olhar para o Crazy Dance já me faz suar), de repente descobri a adrenalina de estar em palco desprotegida a valer-me de uma personagem inocente e “esquisita” que assusta maioritariamente os homens (segundo consta).

Da pouca experiência que tenho já senti que é uma área que está a arrancar só muito recentemente em Portugal, muitas pessoas vão aos espectáculos e não fazem ideia do formato, do que é, como funciona, não têm referências, estão simplesmente à espera de ver alguém contar anedotas. Eu só sei uma anedota que envolve uma foca e é ridícula.

O público também está a ser formado neste momento, por critérios de gosto, de género, de empatia, etc.
Eu felizmente sou mulher. Há poucas no meio e claramente pertenço a um nicho. Nunca serei uma comediante da TVI e dos programas da manhã porque sou esquisita o suficiente e eu gosto disso. Como em tudo: na música, no cinema, nos homens, no clube que não ganha nada há anos…

És admiradora de porno, erotismo, sexualidade, através do humor focas-te muito nisso. Consideras importante abordar estes temas que ainda assim não são tão discutidos ou discutidos da melhor forma?

A minha mãe vai ler isto Pedro…
Gosto disso tudo que referes, fui aprendendo a gostar à medida que ia descobrindo o meu gosto e predilecções por estas temáticas (o meu primeiro namorado é que fica lixado quando lê isto agora… Não teve oportunidade de usufruir desta fase  ).
Considero-me uma pessoa bastante física e sexual / sensual, como se queira chamar, à minha maneira. Falar disso é libertador. Não no sentido de desvendar pormenores demasiado pessoais e de forma leviana (que são bons e excitantes porque são só meus e dos que partilham a vida comigo), não o faço por opção, mas brincar com esses temas de forma geral, é o máximo. Não há nada mais ridículo e maravilhoso do que o sexo. Todos pensam nisso, todos têm as suas pancadas e depravações. Somos animais e cada um solta o seu nas mais variadas circunstâncias.
Do meu lado, como tenho uma personagem em palco que alia um perfil de grande inocência a um lado desbocado e muito atrevido, falar disso torna-se quase peremptório e, sinceramente, acho que não choca. Ou se choca, também diverte. Espero eu…

Abordares esses temas através do humor é para ti a melhor forma de se relativizar os temas, para que se possa rir e falar-se com mais facilidade sobre eles?

O humor é solução para tudo. A receita já descobri. Agora a luta é transportar essa faculdade para todos os campos da minha vida, o que requer uma espécie de “reaprender a andar”. Quando estamos perante uma situação adversa o instinto é reagir com a força, ou desespero, ou desequilíbrio. Ao invés, se conseguirmos usar o humor como arma de gestão de conflitos externos e interiores, serve como uma atenuante extraordinária.

Já representaste para a curta Utopia, para WE ARE DESPERATE. Que gozo te deram e como é que te fizeram evoluir enquanto artista e actriz?

Essas duas curtas-metragens deram-me um gozo especial porque foram com a mesma realizadora, que adoro (Joana Maria Sousa). Ambas tiveram uma carga emocional muito forte o que me permitiu testar um outro extremo (oposto ao humor) e que me fizeram crescer por ter de aprender a lidar com as emoções e a organizá-las. Tenho esta tristeza por nunca ter conseguido fazer mais no plano da representação mas o meu caminho acabou por ser outro, não necessariamente por opção. Curiosamente agora estou a retomar também essa área, desde filmagens de sketches e participação em séries como o “Very Typical” e “Falta de Chá”, e tenho também alguns projectos de curtas-metragens no horizonte para o início de 2017.
Pode ser que ainda venha a saciar este desejo mais a sério.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
25 de Outubro de 2016

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