Entrevista a Tamar

Entrevista a Tamar – O Mel da Deusa, Socióloga, Formadora Comportamental, Educadora no projecto “O Mel da Deusa”

Abraçou o poder e a magia do sagrado feminino e da sexualidade sagrada em 2011. De onde surgiu a vontade de trabalhar a sexualidade feminina através do sagrado? De que forma é que a sexualidade feminina se pode desenvolver a partir do sagrado?

A vontade surgiu de maneira intuitiva e orgânica: algo em mim sabia que havia outras dimensões na vivência da sexualidade, algo em mim dizia que havia mais prazer para ser sentido e outras posturas a ter.
Uma mulher desenvolver a sua sexualidade através do sagrado tem muito a ver com: abrir-se a uma sabedoria que já foi partilhada nas sociedades ancestrais de índole matrifocal: vivênciar os vários aspectos da energia arquetípica feminina (cujos panteões de várias tradições espirituais retratam através de deusas), aceitando a variabilidade, a ciclicidade inerente ao ser mulher; religar-se ao legado/história das suas antepassadas; dedicar-se a um trabalho interior profundo de cura de feridas e mágoas e de rendição à expansão do prazer, da beleza, da inspiração, do erótico presente na vida; reeducar-se quanto a outras esferas de utilização da energia sexual que não só o sexo (para a criatividade e criação, como medicina, como ritual e ligação à visão multi-dimensional da realidade); desenvolver posturas no sexo que garantam o absoluto respeito por si, suas vontades e necessidades, assim como do(a) parceiro(a) e permitindo-se rasgar com crenças obsoletas e limitativas, honrando cada vez mais a dádiva e o potencial para uma vida plena de sentir prazer intenso e profundo e, finalmente, restabelecer a sua ligação natural à terra, à natureza e aos seus ciclos, também eles inerentemente femininos.

Desde que começou a desenvolver o trabalho para a sexualidade, o que aprendeu e conseguiu melhorar na sexualidade das mulheres que procuram o seu trabalho?

É muito forte a zanga, a vergonha, a culpa e o medo que a mulher sente ao lidar com a sua sexualidade. Encarando que a sexualidade diz respeito à sua relação com o próprio corpo; à sua capacidade de expressar as várias facetas da sua personalidade e de assumir e gerir plenamente as suas emoções; de ser e manter-se inteira num relacionamento amoroso; de integrar o que parece uma dicotomia fracturante – a mãe e a amante – em si; de entender verdadeiramente que propostas trazem as principais fases e idades da vida da mulher e que nenhuma delas exclui a manifestação da energia sexual; de conhecer e explorar, com amor e dedicação, a sua própria anatomia sexual e sobretudo de se permitir sentir à sua própria maneira (ora mais eroticamente ora mais sexualmente) sem julgamentos, comparações e cobranças a outros; de compreender como a energia na sua polaridade feminina e masculina se manifestam de forma distinta mas complementar (uma não é melhor que a outra, nem uma tem de se subjugar à outra). Deste trabalho e do empenho e compromisso destas mulheres tem resultado um empoderamento significativo e uma confiança pessoal forte, o que faz com que mais facilmente elas irradiem para o seu ambiente um brilho e um magnetismo que não só encanta, como magnetiza uma qualidade de vida bem mais enriquecedora.

“Trabalho corporal e emocional para cura de bloqueios e memórias obsoletas e expansão da energia erótico/sexual e consagração do corpo enquanto templo~ Círculos de Mulheres ~ Workshops ~ Meditações activas”. Através das oficinas e dos círculos de mulheres, como é que trabalha na cura dos bloqueios e como se processa a expansão da energia erótico/sexual? Como é que este trabalho/oficinas e círculos podem ser essenciais para o desenvolvimento da sexualidade da mulher?

O trabalho em grupo tem a capacidade de potenciar a energia que é activada individualmente, como em qualquer grupo que se forma sob um mesmo propósito. No entanto, sendo o tema o sexo e a sexualidade feminina e tendo esta sido tão castrada não só na esfera pública como também na privada, é extremamente enriquecedor escutar as histórias pessoais de cada uma. A única coisa que costumo dizer que está garantida é que vamos sempre nos reconhecer nas outras e ver que não estamos sozinhas, que não é só um problema nosso ou que (melhor ainda) afinal nem é problema! Várias mulheres chegam à idade adulta com medo ou repulsa de estar entre mulheres, sobretudo aquelas que foram alvo de desrespeito, abuso de poder e deslealdades por parte de amigas, familiares e outras mulheres. Por outro lado, e apesar de cada mulher ser todo um universo, a verdade é que entre mulheres é quase instintivo saber ser empática, acolher, nutrir, apoiar e sustentar. É natural, por isso, que além de ensinamentos e partilha de informação, as mulheres reportem que encontraram um ninho do qual tinham muitas saudades e o quanto isso as revitaliza, só por si.

O projecto neste momento também se enquadra para homens. O que podem os homens conhecer e aprender com a sexualidade sagrada? Tem igualmente sessões privadas, massagens, reeducação da sexualidade, entre outros. De que forma é que são essenciais estas sessões e como pode haver mais adesão?

A sexualidade masculina está também carregada de noções limitativas e de estereótipos pouco capazes de expressar os vários ingredientes que o homem precisa para a sua satisfação e plenitude na intimidade. Quer na pornografia, quer no cinema e meios de comunicação é retratado um homem musculado, ostentando sinais de status e com muita potência sexual, ou seja, predomina uma visão materialista e orientada para resultados e desempenhos… mais fazer do que ser. Na minha prática, vejo a pressão que os homens carregam para corresponder a todo o tempo a esse ideal que julgam ser o que faz deles um homem com H, vejo o peso que carregam no peito por não soltar as emoções e permitir-se ser vulnerável, como o seu corpo está carente de toque amoroso, como é difícil gerir o ímpeto vulcânico da sua energia sexual e começar a serem os guias e gestores dessa energia, deixando de estar à mercê daquilo que denominam como necessidade de descarga fisiológica e que, por vezes, os levam a escolhas de parcerias sexuais pobres, com ausência de uma verdadeira troca e de intimidade emocional.
Assim para os homens há a possibilidade de descoberta do próprio corpo e do seu órgão genital à luz de conceitos positivos, há o convite à ligação à energia erótica e ao sentir que é precisamente a chave para melhor manobrar a energia sexual e partilhar intimidade emocional e cultivarem a criatividade, além claro da transmissão e treino de uma panóplia de técnicas corporais capazes de promover auto-conhecimento e auto-regulação das várias fases da energia sexual, bem como potenciar a cura de disfunções sexuais. Nas sessões privadas, essas técnicas corporais, assentes na respiração, som, movimento e toque têm a vantagem de ser adaptadas ao referencial de cada homem, ao seu quadro actual e às suas motivações específicas.
Tal como para a mulher, a adesão de mais homens a esta via de desenvolvimento pessoal está profundamente ligado à desvinculação a tabus e à abertura à noção de que todo o corpo foi feito para sentir prazer e que se quero ser melhor amante para mim mesmo e nas minhas parcerias terei de trilhar o caminho da abertura do coração, da exposição, da sensibilidade aos ritmos e necessidades da outra pessoa e que isso também é ser viril.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
24 de Outubro de 2016

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