Entrevista a Elizabet Silva

Entrevista a Elizabet Silva, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto

O seu estudo foi sobre: “O papel mediador da distracção cognitiva no impacto das crenças sexuais na resposta sexual.” Antes de mais, para os leitores que não saibam o que é a distracção cognitiva, o que é que significa e o que é que a motivou a investigar este tema?

A distracção cognitiva encontra-se relacionada com o facto das pessoas focarem antecipadamente a sua atenção em estímulos não eróticos, ao invés de imergirem nos aspectos sensoriais da experiência sexual. Os estudos confirmam que a distracção cognitiva durante a actividade sexual consiste, essencialmente, em preocupações com o desempenho sexual e, cada vez mais, nas preocupações com a aparência corporal. O meu interesse pelo tema surgiu devido ao facto da sexualidade ser uma das dimensões mais importantes e marcantes para o ser humano, contribuindo para o seu bem-estar psicológico e relacional, assim como pelo facto de não existirem estudos prévios, com a população portuguesa, que comprovassem a relação existente entre as crenças sexuais e a distracção cognitiva durante a actividade sexual. Além disso, dada a pressão social existente à volta da aparência corporal feminina e, recentemente, da aparência corporal masculina, considerei que seria interessante compreender de que forma as preocupações com a aparência corporal poderiam afectar o desempenho sexual.

Que impactos podem ter as crenças sexuais?

As crenças sexuais consistem em ideias que os indivíduos têm sobre a sexualidade, sendo que vários estudos científicos têm indicado que muitos indivíduos com disfunções sexuais evidenciam um conjunto de ideias inadequadas sobre a sexualidade. Por exemplo, um homem que atribui uma falha na erecção à falta de “masculinidade” e de competência sexual, quando se encontra perante uma dificuldade eréctil ocasional, irá considerar que preenche os requisitos estipulados pela sua crença sexual (e.g.: “um homem que não consegue ter uma erecção é um completo fracasso”), activando a crença de que o próprio é um fracasso sexual. Consequentemente, os níveis de ansiedade durante a actividade sexual poderão aumentar e o seu desempenho sexual poderá ser negativamente afectado. Deste modo, as crenças sexuais podem funcionar como factor de vulnerabilidade para o desenvolvimento e manutenção das dificuldades sexuais, pois guiam os significados atribuídos pelos indivíduos aos acontecimentos sexuais.

O que descobriu com o estudo que realizou?

O estudo que realizei comprovou o efeito negativo de algumas crenças sexuais, assim como da distracção cognitiva no funcionamento sexual masculino e feminino. Além disso, a partir do estudo, ficou comprovado que a satisfação relacional é uma componente fundamental da saúde sexual e que esta poderá, eventualmente, funcionar como uma variável moderadora entre os factores cognitivos e o funcionamento sexual. Deste modo, as pessoas que se encontram mais satisfeitas com a sua relação amorosa podem evidenciar um menor efeito das crenças sexuais ou da distracção cognitiva no seu funcionamento sexual.
Quanto ao objectivo geral do estudo, comprovar o papel mediador da distracção cognitiva na relação das crenças sexuais com o funcionamento sexual, os resultados indicaram que as mulheres com determinadas crenças negativas acerca do sexo anal são mais propensas à distracção cognitiva com o desempenho sexual, evidenciando um funcionamento sexual mais negativo. Importa aqui salientar que a dimensão das crenças sobre o sexo anal é composta por um grupo de crenças relacionadas com a ideia de que o sexo anal não suscita prazer ou excitação sexual nas mulheres.

Em que é que as distracções cognitivas podem influenciar a sexualidade, quer negativa quer positivamente?

Como já referi anteriormente, a distracção cognitiva pode afectar negativamente a sexualidade porque o individuo deixa de estar concentrado nos estímulos eróticos da experiência sexual, encontrando-se distraído com pensamentos sobre o seu desempenho ou a sua aparência corporal. Nesse sentido, acaba por interromper o fluxo normal do funcionamento sexual e, por consequência, pode inibir a sua excitação sexual e o orgasmo. Contudo, no caso dos indivíduos evidenciarem uma percepção ou uma expectativa positiva acerca da sua aparência corporal ou do seu desempenho sexual, a distracção cognitiva poderá ter uma influência positiva no funcionamento sexual. Por exemplo, um homem que tem uma expectativa positiva acerca do seu desempenho sexual, quando observa o seu órgão genital e percebe que está com um bom nível de erecção peniana, pode sentir-se ainda mais excitado e evidenciar um desempenho sexual positivo.

Qual é a importância deste estudo para o impacto das crenças sexuais na resposta sexual?

Dado que o os resultados comprovaram o efeito negativo das crenças sexuais no funcionamento sexual, o estudo salientou a importância dos factores cognitivos no funcionamento sexual, contribuindo para fundamentar a inclusão de estratégias terapêuticas cognitivas no tratamento dos problemas sexuais. Acima de tudo, os resultados do estudo podem ter implicações, não apenas ao nível da compreensão dos fenómenos psicológicos envolvidos no funcionamento sexual, mas também na compreensão de processos potencialmente envolvidos nas disfunções sexuais.

De que forma se pode anular o impacto das cognições?

O impacto das crenças sexuais não pode ser anulado sem trabalhar a raiz do problema, isto é, desmistificar e alterar as crenças sexuais dos indivíduos. Assim, a desmistificação de alguns mitos ou crenças sexuais tem um papel primordial para a manutenção de uma vida sexual saudável. Ao nível da prevenção, o estudo realizado acabou por reforçar a necessidade de incluir a desmistificação de crenças acerca do funcionamento sexual no conteúdo dos programas de educação sexual, assim como desenvolver formações contínuas, destinadas aos profissionais de saúde, acerca da influência dos factores cognitivos no funcionamento sexual.

Dirigiu/elaborou um grupo terapêutico para mulheres na menopausa. O que é que a levou a criar um grupo terapêutico sobre mulheres na menopausa?

A elaboração do grupo terapêutico esteve relacionado com o facto de existir um elevado número de mulheres que evidenciam dificuldades associadas à menopausa, tanto a nível psicológico como sexual. Assim, e dada a elevada incidência de sintomas depressivos e de ansiedade nesta fase de transição, pareceu importante a formação de um grupo terapêutico para que as participantes pudessem informar-se acerca das características associadas à fase da menopausa e pós-menopausa, trocarem experiências e ampliarem a sua auto-estima, bem como o seu nível de suporte social. No final deste projecto, foi interessante verificar que as participantes evidenciaram melhorias significativas, aprendendo a importância de se auto-valorizarem e de, em certas situações, colocarem o seu bem-estar em primeiro lugar.

O que é que aprendeu durante todo o processo?

Aquilo que realmente me marcou durante todo o processo foi ter verificado que muitas vezes as mulheres anulam os seus sonhos e as suas necessidades em prol da sua família, principalmente dos filhos. Muitas vezes, encontram-se tão focadas nas necessidades dos outros que não param para pensar naquilo que gostariam de fazer no seu tempo livre, nos objectivos que querem alcançar, nos seus sentimentos… Esta “falta de dedicação a elas próprias” muitas vezes pode estar na origem das dificuldades emocionais que podem vir a apresentar, não só na menopausa mas noutras fases da vida. Ao longo do processo terapêutico, penso que a necessidade de se auto-valorizarem foi reforçada, tendo contribuído para o bem-estar das mulheres que participaram no grupo.

Para o estágio profissional de que está à procura e para o seu futuro como psicóloga e investigadora no SexLab, quais são os seus interesses ao nível de áreas de estudo?

No futuro, espero ter a possibilidade de continuar a trabalhar com a população adulta. Contudo, saber que meu trabalho poderia melhorar a qualidade de vida das pessoas, de qualquer faixa etária, seria gratificante. Enquanto investigadora do SexLab, este ano já publiquei dois artigos científicos, relacionados essencialmente com a distracção cognitiva, as crenças sexuais e as crenças sobre a aparência, sendo que gostaria de continuar a estudar as diferentes variáveis psicológicas que podem afectar o funcionamento sexual de homens e mulheres.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vamos Falar Sobre Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Jú Matias
14 de Setembro de 2016

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