Entrevista à Investigadora Inês Tavares

A Inês é investigadora do Sex Lab e fez o estudo de Mestrado Integrado em Psicologia, tendo como área de especialização Psicologia Clínica e da Saúde, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Os seus pontos de interesse são: a psicofisiologia da resposta sexual humana e os factores psicológicos associados às dificuldades de orgasmo feminino. Quais foram as suas motivações para estudar os factores psicológicos associados às dificuldades de orgasmo feminino?

Os meus interesses sempre foram bastante vastos, e o interesse pela sexologia em particular foi emergindo ao longo do meu percurso académico. Após ter tido contacto com o estado da arte na sexologia e, principalmente, nos estudos acerca da sexualidade feminina, fui compreendendo que, apesar de existir já um corpo teórico e conceptual relativamente sólido, há ainda muito por investigar. Apercebi-me que esta área de estudo é bastante recente quando comparada com outros domínios de investigação, e isso faz com que exista a possibilidade de que tenhamos um contributo genuinamente relevante. Penso que nesse processo fui desenvolvendo uma motivação para contribuir para a lacuna muitas vezes presente em vários domínios da investigação em sexualidade humana, sendo um deles o orgasmo feminino. O orgasmo feminino é um daqueles tópicos que, ainda hoje, gera uma onda de “misticismo” e de excitação ao seu redor, cheio de tabus e de curiosidade, de mitos e de conceções erróneas. À medida que me fui apercebendo da teia de complexidade em que este fenómeno está envolto, quer a nível anatómico, quer a nível fisiológico, quer até a nível social, cresceu também a motivação para o estudar. Acabei por, em colaboração com o meu orientador de Mestrado, o Professor Dr. Pedro Nobre, desenhar um estudo que pudesse contribuir para compreender de forma mais aprofundada qual o papel que vários fatores psicológicos desempenham na experiência de orgasmo feminino, contemplando simultaneamente a diversidade de atividades sexuais em que as mulheres se envolvam.

O que aprendeu desde que começou a sua investigação?

Num primeiro momento, aprendi muito acerca da anatomia genital feminina, acerca dos processos fisiológicos associados a cada uma das fases da resposta sexual feminina, sobre genética, sobre endocrinologia. Li muito, quis estar bem informada acerca das bases anatómicas e fisiológicas daquilo que é o fenómeno de orgasmo feminino, para que posteriormente pudesse refletir acerca do papel da psicologia. E é verdade que, mesmo a um nível anatómico, existe muita controvérsia. Aprendi que apenas no ano de 1998 se conheceu integralmente a anatomia do clítoris, órgão que até então, das duas uma, ou era ignorado ou era representado de forma errónea nos livros de anatomia. Desconhecia-se, até há cerca de vinte anos, a totalidade da intrincada anatomia interna, ou não visível, do clítoris. Posteriormente, fui descobrindo que a maioria das mulheres está relativamente bem informada acerca da anatomia do seu corpo, mas que há ainda uma parte importante de mulheres que não o está. Penso que existe trabalho a fazer ao nível de possibilitar o conhecimento das noções mais básicas acerca de quais são as zonas que poderão trazer prazer às mulheres, e de que forma. Ainda é necessário desconstruir alguns mitos associados à importância do coito para a obtenção de orgasmo feminino. Na verdade, um dado transversal a várias investigações é o de que a relação coital, por si só, não é um fator muito importante na obtenção de orgasmo feminino, enquanto que a estimulação do clítoris é.

Em que consiste este palavrão da “psicofisiologia” e de que forma é essencial para a análise da resposta sexual humana e dos factores psicológicos associados às dificuldades de orgasmo feminino? De que forma é importante estudar-se esta problemática?

A psicofisiologia é o estudo da relação entre fenómenos psicológicos e fisiológicos, e é de extrema importância na compreensão da sexualidade humana. Sabemos que estes são dois domínios da vida humana que estão em constante interação, ‘o corpo e a mente’ como tantas vezes escutamos. E na esfera sexual é fundamental que os dados da fisiologia (ou seja, as respostas manifestadas pelo corpo e que fazem parte de determinado fenómeno) sejam integrados com os fatores psicológicos, dada a sua reciprocidade, que poderá levar a respostas sexuais mais ou menos funcionais.
O trabalho psicológico na terapia sexual muitas vezes é feito com pessoas que não demonstram nenhum problema orgânico que seja capaz de explicar as suas dificuldades sexuais atuais. É importante contemplar ambos os domínios, até porque quando não existem de facto impedimentos orgânicos, o foco da intervenção será de teor psicológico. E para que isso se leve a cabo de forma eficaz, é importante que os terapeutas tenham informações acerca de como funciona a resposta sexual humana, quais os fatores que poderão levar ao desenvolvimento e à manutenção de determinado tipo de dificuldades, e que tipo de intervenções se têm demonstrado eficazes tendo em conta as características de cada caso. E isso é um trabalho que é substancialmente levado a cabo pelos investigadores, tentando compreender aquilo que ainda não se sabe e melhorar o conhecimento atual. No campo das dificuldades de orgasmo feminino, apesar do crescente interesse e debate sobre os seus determinantes fisiológicos e anatómicos, a investigação sobre os aspetos psicossociais que podem contribuir para a sua ocorrência é ainda rudimentar. E foi precisamente esse o objetivo do estudo que desenvolvemos.

Quais foram os resultados e o que se pode aprender e desenvolver a partir dos resultados que obteve?

Num primeiro passo, interessava-nos estudar de que forma os diferentes tipos de atividades sexuais prediziam a ocorrência de orgasmo feminino. De forma geral, podemos dizer que neste estudo as mulheres demonstraram frequências de orgasmo mais elevadas em resposta a atividades sexuais que envolvem a estimulação do clítoris em comparação com a atividade coital por si só. O coito sem estimulação adicional do clítoris foi, de todas as analisadas, a atividade sexual que menos parece contribuir para a experiência de orgasmo feminino. A constatação de que a frequência de orgasmo feminino aumenta com o envolvimento em comportamentos sexuais que contemplem estimulação do clítoris está de acordo com várias teorias postuladas por diversos investigadores de que as mulheres podem ter orgasmos tão facilmente quanto os homens, desde que suficientemente excitadas. Um resultado muito interessante deste estudo foi o de que as mulheres que consideram a obtenção de orgasmo como mais importante são também aquelas que o obtêm de forma mais frequente, e vice-versa. Este dado é explicado através do fenómeno de dissonância cognitiva, segundo o qual a simultaneidade de manter dois valores ou características contraditórios causaria desconforto, o qual seria reduzido ajustando o valor ou a característica mais suscetível de alteração de acordo com o menos suscetível de alteração. Desta forma, se o orgasmo é difícil ou impossível de alcançar, as mulheres com estas dificuldades usariam uma estratégia de redução da importância dos mesmos. Adicionalmente, também era nosso objetivo compreender se as próprias mulheres percecionavam de forma diferente os orgasmos obtidos através de diferentes tipos de estimulação e, caso o fizessem, se organizavam as sensações orgásmicas de acordo com uma perspetiva anatómica ou de acordo com outros critérios. Os resultados obtidos não propuseram uma separação entre sensações vaginais e clitorianas mas, mais bem, reforçam a ideia de que distinguir orgasmos como claramente iniciados na vagina ou no clítoris é uma tarefa difícil. Estes dados indicam-nos que as próprias mulheres têm dificuldade em distinguir os componentes anatómicos específicos que originam as sensações orgásmicas, o que não fortifica a separação entre vários tipos de orgasmo, mas mais bem indica-nos que o fenómeno de orgasmo feminino seja um fenómeno psicofisiológico único. Para além disso, os resultados sugerem-nos que um fator importante para a preferência das mulheres no que toca à atividade sexual é o facto de esta ser realizada com parceiro, mais do que o facto de esta conter um tipo de estimulação específico (seja este clitoriano, vaginal ou até anal). Finalmente, um outro dado relevante corresponde ao facto de que as variáveis estado (o afeto e os pensamentos automáticos experienciados pelas mulheres durante a atividade sexual) parecem ter maior importância do que variáveis disposicionais, ou traço, na experiência de orgasmo feminino. Por outras palavras, isto indica-nos que aquilo que as mulheres sentem e pensam durante o contexto específico da atividade sexual é, de facto, um fator importante quando queremos compreender a ocorrência ou não de orgasmo, e que estas variáveis cognitivo-afetivas podem constituir alvos clínicos importantes quando se consideram, em termos clínicos, dificuldades de orgasmo feminino. De forma geral, é sugerido por este estudo que as variáveis psicológicas parecem ter influência na experiência de orgasmo feminino, independentemente do tipo de estimulação sexual em que as mulheres se envolvam.

O seu estudo focou-se nas mulheres heterossexuais, o que a levou a cingir-se apenas a mulheres heterossexuais? A partir destes resultados, e desta investigação, quais serão os seus interesses futuros? Que outros trabalhos de investigação pretende realizar?

Parte dos objetivos deste estudo prendia-se com a clarificação de aspetos associados com a discussão da existência de um ou de vários tipos de orgasmo feminino (e.g., orgasmo vaginal versus orgasmo clitoriano). Para isso, e dado que era nossa intenção replicar alguns procedimentos usados por diversos autores em anteriores estudos, a amostra teria de incluir mulheres que se envolvessem de forma regular em atividade coital. Essa foi a principal razão pela qual um dos critérios de inclusão no estudo era a pessoa autoidentificar-se como heterossexual. Mas é interessante olharmos para outros estudos realizados com mulheres lésbicas, em que estas mulheres reportam muito mais orgasmos durante o sexo com parceira, porque simplesmente ocorre uma estimulação do clítoris bastante mais robusta.
Considerando o facto de que o presente estudo investigou uma amostra de mulheres predominantemente funcional do ponto de vista sexual, e através de uma abordagem transversal, seria relevante que se pudessem desenvolver estudos que tenham em conta os resultados atuais com o objetivo de estabelecer de forma mais clara, possivelmente com uma abordagem longitudinal e utilizando amostras clínicas, a contribuição específica dos fatores analisados para o desenvolvimento e manutenção da perturbação do orgasmo feminino. Relativamente a interesses futuros, ficaria muito satisfeita de continuar a dedicar-me ao estudo do orgasmo feminino, sendo este um fenómeno tão complexo e existindo ainda muitas outras perguntas que ficam por responder. Para além disso, interessam-me as questões da sexualidade na transição para a parentalidade, quer durante a gravidez quer no pós-parto, que é uma área sobre a qual apenas recentemente se tem dedicado alguma atenção científica. A nível futuro, pretendo continuar a desenvolver trabalhos no estudo da psicofisiologia da resposta sexual em colaboração com o SexLab, e futuramente incluiremos a termografia como técnica pioneira no estudo da resposta sexual humana.

Participou numa mesa redonda sobre a Saúde da Mulher e o Pavimento Pélvico; que aprendizagem obteve dessa discussão e que importância teve e tem para si discutir-se estes temas?

Tive a oportunidade de dar o meu contributo para essa discussão, da qual fazia igualmente parte uma fisioterapeuta, que desenvolve o seu trabalho na terapia do pavimento pélvico. A realidade é que em muitos casos, principalmente nos quadros de dor génito-pélvica, é importante ser realizado um trabalho de treino do pavimento pélvico, em colaboração com a intervenção da terapia sexual. Recordo-me que foi bastante interessante, quer pela curiosidade do público presente quer também pela oportunidade rica de partilha de conhecimento entre profissionais. No meu ponto de vista, a discussão informada e com base em evidências deveria ser proporcionada tanto quanto possível, no maior número de contextos possível. É comum que se fale de sexualidade, mas nem sempre da melhor forma… muitas das vezes existe ainda algum pudor ou desconhecimento, ou algumas crenças erróneas, o que acaba por manter limitações ao nível da vivência de uma sexualidade plena, que acredito que deveria ser um direito transversal a todos nós, tal como o é a vivência de tantos outros domínios da vida.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vamos Falar Sobre Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Jú Matias
01 de Setembro de 2016

Advertisements

One thought on “Entrevista à Investigadora Inês Tavares

  1. Pingback: Viva o Dia do Sexo! – Demo

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s