Entrevista ao Sexólogo Fernando Baptista

Partilhou o cartaz do III Curso de Actualização em Sexualidade e Identidade de Género e Orientação Sexual. Na sua perspectiva, de que forma é que se deve dar atenção aos temas relacionados com a sexualidade, identidade de género e orientação sexual? De que forma a falta de atenção e informação podem ser desastrosos para a realidade do dia-a-dia?

A principal forma de se atentar para as questões da diversidade sexual é através do investimento na educação, que venha desde a base na Educação Infantil até a educação de jovens, adultos e idosos através dos veículos de informação, pois a informação é uma das alternativas que pode efetivamente minimizar o preconceito. A violência física e sexual às minorias é um dos efeitos da falta de informação, pois por não conhecer, as pessoas sentem-se superiores às outras e deste modo teriam o “direito” de violentar, já que se sentem “melhores”. Nós vivemos atualmente no Brasil, um movimento que embora esteja longe do ideal, ao meu ver é bastante positivo e promissor, onde as pessoas LGBT´S (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis) tem ganhado visibilidade e aos poucos saído da marginalidade e do estigma construído socialmente. Esses avanços tem acontecido graças à profissionais e ativistas que lutam diariamente e incansavelmente na disseminação de informação para que as pessoas possam ter em suas vidas um contexto ampliado e perceberem que o mundo é muito maior do que aquele em que elas enxergam à sua volta.

Na sua página de Facebook tem um artigo sobre “Como explicar a uma criança quais as partes do corpo que não devem ser tocadas por outras pessoas?” Para a sexualidade da criança, e para um correcto desenvolvimento psicológico, que importância tem o conhecer o seu corpo e perceber o que podem ou não os outros tocar? Quão psicologicamente e sexualmente penoso pode ser para a criança se não estiver preparada e se sofrer abusos?

O conhecimento do corpo pela criança é um dos aspectos mais importantes do desenvolvimento psicossocial, pois as curiosidades em relação ao seu nascimento e ao seu corpo são as primeiras a surgirem na vida das pessoas, e isso ocorre na infância, ou seja, na medida em que as crianças são “autorizadas” a conhecerem o próprio corpo e têm suas dúvidas sanadas, elas passam a se sentirem mais seguras no mundo. Quando elas conhecem o seu corpo estão sendo empoderadas a cuidarem de si, embora precisem sempre da proteção e supervisão de adultos, pois não tem condições de se protegerem sozinhas. Os adultos que as permitem ter esse conhecimento às protegem, pois as crianças que não tem essa noção de individualidade, podem ser reféns de adultos que agem de maneira mal intencionada. Na medida em que sofrem abusos de adultos tendem a perceber o mundo assim como a relação com o outro como algo ameaçador, podendo acarretar em traumas que comprometam não apenas sua sexualidade, mas a vida como um todo. Em casos de abuso sexual, os adultos precisam estar atentos à possíveis sinais e mudanças de comportamento que as crianças apresentam, lembrando que a maior parte dos abusadores são pessoas conhecidas e até mesmo familiares, ou seja, pessoas em quem as crianças confiam e por serem pessoas do seu convívio elas podem não perceber o ato como um abuso, tornando indispensável o cuidado, atenção e monitoramento dos pais para prevenir ou identificar um possível abuso.

Tem um texto publicado no seu blogue sobre Sexualidade Masculina, no qual aborda o machismo e os bombardeamentos de informação que surgem da família, Igreja, etc. Como é que este tipo de informação pode prejudicar o bem-estar psicológico e a vida sexual das pessoas? Como se pode mudar este paradigma e melhorar a informação sobre sexualidade, e impedir este tipo de bombardeamentos informativos?

A mídia, a família e a Igreja têm grande influência na sociedade, atuam como formadoras de opinião. Tais informações podem alienar as pessoas de forma a tirarem delas a capacidade de pensar e de decidir por si próprias. Esse tipo de informação que é imposta, pode por vezes reprimir desejos que são naturais e podem ser vivenciados pela pessoa, além da sensação de culpa que os impedem de viverem sua sexualidade livremente. Essa repressão pode-se manifestar na forma de sintomas, como as disfunções sexuais. Pelo fato de não se sentir autorizada a viver sua sexualidade, as pessoas podem apresentar falhas no seu desempenho sexual. Eu volto a citar a educação como instrumento para mudança das mentalidades e neste caso uma educação que desenvolva autonomia no sujeito, para que mesmo diante desse bombardeamento de informações, possa tomar para si somente aquilo que lhe faz sentido e não o que é imposto ou socialmente aceito.

Também abordou o tema da disfunção eréctil. Na sua opinião, como é que o homem e quem o rodeia pode e deve viver este problema? De que forma é que pode afectar a vida de quem sofre e a vida da pessoa com quem vive? Como se pode atenuar o sofrimento e desenvolver uma sexualidade mais positiva?

A disfunção erétil pode ter origem orgânica ou psicológica, a origem psicológica pode por vezes ter a ver com o machismo e com essa ideia imposta de que o homem não pode falhar e que tem que ser forte a todo momento, ou seja, o homem também é vítima de um machismo que por vezes ele próprio produz. A insatisfação com a sexualidade pode por vezes vir mascarada através de uma disfunção erétil, ou seja, será que esse homem tem de fato uma disfunção ou uma insatisfação quanto ao seu desempenho sexual? Afinal, no mundo real não existe super homem. Acredito que uma forma de desenvolver uma sexualidade positiva, tranquilizar e talvez eliminar parte das queixas masculinas seria investir em uma educação que se distancia do machismo e da desigualdade entre os gêneros, pois esse é um problema que afeta o homem em todas às áreas de sua vida. A noção de estar falhando sexualmente pode levá-lo a falhar em outras áreas, além do desconforto causado em seus relacionamentos.

Recomendou o grupo de estudos sobre Psicanálise e sexualidade e o inconsciente; de que forma é que estes estudos de psicanálise podem ser importantes e enriquecedores para uma sexualidade mais positiva?

Não sou Psicanalista, então não tenho propriedade para falar especificamente da Psicanálise, mas em linhas gerais todas as abordagens da Psicologia são importantes, pois se pensarmos na diversidade do ser humano, não faria sentido que a Psicologia tivesse apenas uma forma de olhar para as questões da humanidade. Deste modo a Psicanálise, assim como as demais abordagens podem contribuir muito para o desenvolvimento de uma sexualidade saudável através do acolhimento e atendimento humanizado.

Como se pode melhorar a sexualidade de um forma geral, tanto no Brasil como em Portugal?

Como dito anteriormente, a base de tudo é a educação. Com informação as pessoas tendem a ser menos preconceituosas, mais acolhedoras e compreensivas. Não sei quais são os problemas específicos de Portugal, mas acredito que tanto na realidade dos portugueses quanto dos brasileiros, o investimento em uma educação igualitária e que não se baseie em distinções entre os gêneros, cor de pele, condição social, orientação sexual, dentre outras diferenças, teremos uma sociedade mais justa e humana.

Fernando Baptista – Terapeuta de Família e Casal. Sexólogo pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre na área de Saúde Mental pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Membro da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).

Contato:
e-mail: fernandobaptista_adr@yahoo.com.br
FACEBOOK: facebook.com/terapeutafernandobaptista

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vamos Falar Sobre Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Jú Matias
09 de Junho de 2016

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