Entrevista à Doutora Maria Manuela Peixoto

Entrevista à Doutora Maria Manuela Peixoto, Doutorada em Psicologia, Pós-Graduada em Sexologia Clínica (SPSC*) e Investigadora do CIPsi, Escola de Psicologia da Universidade do Minho, Braga.

Tem interesse em investigar disfunções sexuais, quais as suas motivações que a levam a desenvolver estes estudos? Em relação à comunidade LGBTQIA+, existe um interesse e uma necessidade de foco acrescidos por ainda não serem totalmente aceites na sociedade?

O interesse pela área da sexualidade humana surgiu muito cedo, ainda nos tempos da licenciatura na Universidade do Minho, impulsionada pela Professora Conceição Nogueira, que sempre se dedicou ao estudo da sexualidade, género e discriminação. Posteriormente, quando estava a realizar o mestrado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com o Professor Pedro Nobre, que sempre se dedicou ao estudo das disfunções sexuais. Neste sentido, foi-me dada a oportunidade de juntar duas áreas que me eram significativas, as disfunções sexuais e a orientação sexual.
Embora inicialmente os estudos que realizei no âmbito do comportamento sexual humano se tenham centrado no papel do humor deprimido ao nível do funcionamento sexual, desde cedo tive interesse em explorar as questões das dificuldades sexuais em diferentes orientações sexuais. Assim que comecei a ler sobre disfunções sexuais, cedo percebi que os estudos e a literatura se focam, quase que em exclusivo, numa visão heteronormativa da sexualidade. Se formos ler a quarta versão revista do Manual de Diagnóstico e de Estatística das Perturbações Mentais (DSM; APA, 2000), na secção das disfunções sexuais, rapidamente percebemos que a perspetiva heteronormativa está presente e que determina, por exemplo, o diagnóstico de ejaculação prematura, ao implicar a prática de coito vaginal. Atualmente estamos na quinta edição do DSM, e há já uma adenda a este diagnóstico. No entanto, os estudos e a visão empírica continua muito centrada na perspetiva homem-mulher, enquanto casal.
Os estudos que realizei até à data não foram com a população LGBTQIA+, mas sim com gays e lésbicas. Embora o meu interesse se expanda para as diferentes orientações sexuais, a verdade é que todos os estudos acarretam as suas limitações e somos forçados a tomar decisões para que os nossos projetos sejam exequíveis. Neste sentido, nem sempre é viável, num estudo único, abordarmos as diferentes orientações sexuais. Na minha opinião, existe uma necessidade acrescida de a comunidade científica estudar de forma séria e objetiva a diversidade em função da orientação sexual. No entanto, na minha opinião, não acho que haja falta de interesse na temática, mas antes uma formatação em termos das conceções dos próprios investigadores que limitam, à partida, a possibilidade de enquadrar este tipo de diversidade nos seus estudos. É muito comum, quando se delineiam projetos e ideias sobre futuras investigações, no campo da sexualidade humana, o foco ser a heterossexualidade. Convenhamos que vivemos numa sociedade heteronormativa, e que toda a nossa educação foi no sentido da heterossexualidade. Mas cabe-nos a nós, investigadores, pensar mais além.

Tendo em conta que na generalidade, pessoas homossexuais já são vítimas de preconceito, quando têm uma disfunção sexual, o impacto da mesma poderá ser uma agravante no relacionamento com o seu corpo e identidade? Que tipo de terapia se pode fazer aos homossexuais com disfunções e qual é a importância de se procurar tratamento e consciencializar-se que se tem um problema?

Apesar dos avanços, a homonegatividade continua a existir, e os barómetros sobre a discriminação em função da orientação sexual sustentam estas hipóteses. Na minha opinião, não é tanto a presença da disfunção sexual que tem um impacto agravante no relacionamento com o corpo e com a identidade da pessoa, mas antes os níveis de homonegatividade internalizada é que contribuem significativamente para o agravamento das dificuldades sexuais. Estudos já realizados sobre o impacto que a homonegatividade internalizada tem ao nível do funcionamento sexual suportam esta ideia. Além disso, quando se procura perceber quais os principais distratores cognitivos durante a atividade sexual, os dados sugerem que para os gays, lésbicas e bissexuais, as questões relacionadas especificamente com a orientação sexual têm impacto. Por exemplo, a orientação sexual ser revelada caso seja descoberto a ter relações sexuais constitui-se um importante distratos cognitivo. Esta é um tipo de preocupação que as pessoas heterossexuais não apresentam.
Do ponto de vista da intervenção psicoterapêutica para as disfunções sexuais, as estratégias são em tudo semelhantes às estratégias propostas para a terapia sexual. A relevância da orientação sexual prende-se com questões e especificidades que possam existir no que refere a práticas e atividades sexuais, crenças sexuais disfuncionais específicas, ou fatores de distração cognitiva associados à homonegatividade internalizada.
Acima de tudo, é fundamental consciencializar os profissionais de saúde para estas questões e para a importância de manterem uma atitude recetiva e ausente de julgamentos de valor. Ao dar-se liberdade às pessoas para falarem da sua orientação sexual, dos tipos de relações que mantém estamos a educar a comunidade para uma maior abertura à diversidade. Na minha opinião, mais do que consciencializar as pessoas para a procura de ajuda quando têm problemas, é consciencializar e sensibilizar os profissionais de saúde para agirem de forma correta e ausente de julgamentos.

Os temas ligados ao funcionamento e satisfação sexual na transição para a parentalidade é igualmente um dos seus interesses de investigação. O que mais lhe suscita interesse sobre as vivências dos casais? Tem este projecto na gaveta, para si qual é a melhor forma de se encarar a transição, quando puder desenvolver o projecto o que é que pretende descobrir?

O estudo do funcionamento e satisfação sexual na transição para a parentalidade é um dos meus interesses futuros de investigação. A gravidez e a transição para a parentalidade são apontadas por alguns estudos, e pela prática clínica, como um dos momentos de crise mais significativos nos casais. Este momento de crise, experienciado por alguns casais como um momento de desgaste e de sofrimento, acarreta elevados custos emocionais. Em alguns casos, é neste momento que começam os primeiros problemas sexuais, nomeadamente o afastamento emocional, a diminuição dos momentos de partilha e de intimidade, e o surgimento de algumas dificuldades sexuais. Afirmar que existe uma forma melhor ou mais correta para se encarar a transição para a parentalidade não me parece adequado. Cada casal terá as suas vivências e a sua experiência prévia, que poderá determinar muito o curso mais adequado para que a transição para a parentalidade seja feita de forma mais satisfatória.
De uma forma geral, o meu objetivo passa pela compreensão de como o funcionamento sexual, a satisfação sexual e relacional se desenrolam na fase de transição, englobando o momento pré e pós gravidez. Uma melhor compreensão deste período de tempo, o estudo de variáveis associadas à imagem corporal, ao papel de mãe/mulher e de pai/homem, e até mesmo a análise de crenças sexuais específicas e associadas à gravidez e à atividade sexual durante este período podem permitir o desenvolvimento de programas de intervenção específicos. O objetivo último deste projeto seria o de desenvolver um programa psicoeducacional para casais, de forma a promover uma vida sexual mais satisfatória e um fortalecimento da relação conjugal durante o período de transição para a parentalidade.

O facto de não existirem muitos estudos sobre sexualidade direccionados para a comunidade LGBTQIA+ foi o factor que mais a levou a interessar-se pela investigação? O que falta saber e estudar sobre estes temas?

A ausência de estudos na área da sexualidade humana na comunidade LGBTQIA+ foi um dos fatores que me suscitou interesse no tema. Aliado ao facto de quase toda a investigação no âmbito das disfunções sexuais se centrar numa visão heteronormativa. A minha formação de base, enquanto psicóloga, é no âmbito de uma abordagem cognitivo-comportamental, daí o meu interesse no estudo do papel de fatores cognitivos associados às disfunções sexuais. Nas pesquisas que realizei, antes de iniciar o doutoramento, percebi que o estudo de fatores cognitivos enquanto fatores de vulnerabilidade e de manutenção das disfunções sexuais era centrado em casais heterossexuais.
Embora o interesse pela comunidade LGBTQIA+ e o número de estudos tenha vindo a aumentar, continua a ser necessário realizar mais estudos e replicar os atuais resultados. Desde estudos que abordem os comportamentos sexuais, a prevalência de dificuldades sexuais, até ao tipo de relações de intimidade que se estabelecem, muito ainda há para estudar e investigar. Depois, se nos focarmos em temáticas específicas, nomeadamente estudos de intervenção clínica e eficácia terapêutica, verifica-se uma ausência total de estudos nesse sentido. Se se pode afirmar que existem poucos estudos sobre eficácia terapêutica no tratamento de disfunções sexuais, com amostra heterossexuais, estes estudos são inexistentes se falarmos de amostras LGB, por exemplo.

Trabalha como revisora no Journal of Sexual Medicine; Journal of Sex and Marital Therapy; Sexual and Relationship Therapy, entre outros. Que importância estes trabalhos pro bono têm na comunidade científica, no geral?

A disseminação do trabalho científico é fundamental e existem várias formas de o fazer. Através de comunicações em congressos, publicação de livros ou até dinamização de tertúlias abertas a toda a comunidade. No entanto, atualmente a divulgação dos dados empíricos é realizada, essencialmente, através da publicação de artigos científicos, em revistas com revisão por pares. Quando se diz “revisão por pares”, estamos, de uma forma simplista, a dizer que são os próprios colegas da área científica que vão ler e dar feedback sobre a qualidade do trabalho, quer em termos de escrita, de metodologia e análise de dados, mas também em função da sua pertinência de estudo e adequação à literatura vigente. Este trabalho de revisão por pares é imprescindível e realizado de forma pro bono. Diariamente são submetidos diversos artigos às mais variadas revistas de cada área, que são depois distribuídos por diferentes investigadores e profissionais, que trabalham nessas áreas específicas que, com rigor, avaliam a sua pertinência, relevância e qualidade. É um trabalho voluntário, mas muito enriquecedor, quer para quem o faz, quer para toda a comunidade científica. É com base neste trabalho voluntário que os investigadores e profissionais veem o seu trabalho publicado e posteriormente divulgado por todo o mundo. Desta forma, com as novas políticas em que se incentiva cada vez mais à produção científica e à divulgação do trabalho científico através de revistas com revisão por pares, é fundamental haver investigadores e profissionais disponíveis para realizar este tipo de trabalho. A celeridade de todo este processo é também fundamental. Haver disponibilidade para o fazer, de forma rigorosa e voluntária é uma clara mais valia para toda a comunidade cientifica.

Trabalhou no Laboratório SexLab durante 5 anos. Como foi trabalhar e investigar no SexLab? Que experiências adquiriu e de que forma a enriqueceu enquanto investigadora. Neste momento está a desenvolver, na área da sexologia clínica, a validação da escala do desejo. O que pretende desenvolver em concreto e de que forma pode ser benéfico para o paciente?

A minha carreira académica na sexologia clínica iniciou-se no SexLab, pois foi no âmbito desse projeto que desenvolvi quer a minha tese de mestrado, quer a minha tese de doutoramento na área. De uma forma geral, foi um trabalho bastante enriquecedor. Enquanto investigadora no campo da sexualidade humana posso afirmar que cresci e desenvolvi competências muito específicas. Para mim foi um prazer desenvolver trabalho laboratorial na área do comportamento sexual humano. Na minha formação de base, enquanto psicóloga, na Universidade do Minho, aprendi, desde cedo, a valorizar a componente da investigação. Ao desenvolver trabalho enquanto investigadora no SexLab tive a oportunidade de conhecer investigadores extraordinários como o Erick Janssen ou a Julia Heiman.
Atualmente estou de regresso à Universidade do Minho, onde desenvolvo trabalho de investigação na área da sexologia clínica e das perturbações emocionais. No âmbito do meu trabalho em sexologia clínica estou a traduzir e a validar o Inventário de Desejo Sexual, de Carey, Spencer e Steinberg (1996), para a população portuguesa. Uma das lacunas ao nível da investigação é a existência de instrumentos empiricamente validados para a população portuguesa. A ausência de desejo sexual é um dos principais problemas sexuais referidos em contexto clínico e em estudos de prevalência das dificuldades sexuais. No entanto, em Portugal, não existia ainda um instrumento empiricamente validado. O Inventário de Desejo Sexual é um dos instrumentos mais utilizados a nível internacional para a avaliação do desejo sexual, uma vez que permite a avaliação do desejo sexual diádico e solitário. Para além de este instrumento se constituir uma necessidade, quer em termos clínicos, quer em termos de investigação, irá permitir o desenvolvimento de outro tipo de estudos, nomeadamente o estudo da discrepância do desejo sexual.
A discrepância do desejo sexual constitui-se como uma das minhas principais áreas de interesse. Começou com a leitura de um artigo científico, sobre esta queixa. Posteriormente, ao ler livros mais antigos, das décadas de 70, sobre terapia sexual, facilmente percebi que é das principais queixas em contexto clínico, e que, atualmente se mantém. O desenvolvimento deste instrumento irá permitir desenvolver estudos futuros sobre a discrepância do desejo sexual, que envolvam diferentes tipos de casais, com diferentes orientações sexuais.

Tem sido desenvolvido um trabalho maior e mais sério, na sexologia clínica, ainda assim o que falta para que haja uma sexualidade mais satisfatória, sem complexos, sem mitos, que possa ser debatida em liberdade e sem constrangimentos?

Os estudos em sexologia clínica e o interesse pela área têm aumentado exponencialmente, inclusive em Portugal. Exemplo disso são as várias formações e pós-graduações que têm sido lançadas, de norte a sul do país, com elevada procura. De igual forma, verifica-se que o número de artigos e trabalhos desenvolvidos na área também têm aumentado. Muito embora este aumento do interesse e do trabalho desenvolvido contribua para que haja uma sexualidade mais satisfatória, há ainda um longo caminho a percorrer. Primeiro que tudo, e na minha opinião, parece-me fundamental apostar na educação sexual formal precoce e de qualidade. Há já bons projetos a serem desenvolvidos, nomeadamente o PRESSE – Programa Regional de Educação Sexual em Saúde Escolar, promovido pela Administração Regional de Saúde do Norte, através do Departamento de Saúde Pública e em parceria com a Direção Geral dos Estabelecimentos Escolares – Delegação do Norte, e os projetos recentes: A Viagem de Peludim, projeto/livro da autoria de Sara Rodi, Vânia Beliz e Célia Fernandes, e o jogo Prevenção do Abuso Sexual, que visa a prevenção primária do abuso sexual para crianças dos 6 aos 10 anos de idade, desenvolvido por Rute Agulhas, Nicole Figueiredo e Joana Alexandre. No entanto, sabemos que estes projetos não são disseminados por todo o país e não permitem que se prolifere uma educação para uma sexualidade mais satisfatória. De acordo com estudos desenvolvidos no âmbito de fatores de vulnerabilidade para as disfunções sexuais, juntamente com dados da prática clínica, percebe-se que crenças sexuais disfuncionais, e ideias e atitudes conservadoras face à sexualidade se mantém atualmente e prejudicam a vivência de uma sexualidade satisfatória. Paralelamente, é importante que a sociedade mantenha os níveis de abertura face à discussão de temas atuais, referentes às questões sexuais. Felizmente, uma série de leis tem vindo a ser debatida no parlamento português e na praça pública, o que também contribui para esta abertura. A aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a nova lei da co-adoção, a lei da interrupção voluntária da gravidez, a muito recente lei da procriação medicamente assistida, e as novas leis da identidade de género são um claro exemplo. Globalmente, considero que estamos a construir uma base alicerçar que nos irá permitir, no futuro, educar jovens mais tolerantes e mais capazes de desenvolver fatores de proteção em relação às problemáticas de caráter sexual.

* Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Ana Bastos

20 de Maio de 2016

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