Entrevista a Eva Duarte

Entrevista a Eva Duarte Psicóloga e Sexóloga do Sinapsis Consultório

1. Que mais-valias tem facultado à população por ter escolhido assentar arraiais fora de Lisboa? Que procura tem havido, e vontade que tire dúvidas, e aprender mais sobre a sexualidade, e a busca do conhecimento do próprio corpo?

O facto do Sinapsis Consultório estar situado nas Caldas da Rainha tem demonstrado ser uma mais valia, não só por contribuir para a descentralização deste tipo de serviços, como também porque tem vindo a criar uma certa noção de proximidade com a população.
Ao terem conhecimento da existência de uma sexóloga nesta zona, há entidades que procuram a minha colaboração para diversas iniciativas (como escolas ou estações de rádio), o que acaba por promover um sentido de cooperação que ultrapassa a prática clínica privada. Posso dizer, assim, que há uma vontade cada vez mais assumida de abordar a sexualidade de forma aberta e informada.

2. Como vê as questões LGBT? Como sexóloga e psicóloga qual é a sua postura perante estas questões e luta pelos direitos LGBT? Recentemente esteve na Marcha LBGT que importância é que tem para si estar no centro da luta pelos direitos e pelo fim da discriminação e violência?

Faço questão de marcar presença na Marcha LGBT todos os anos, enquanto sexóloga, psicóloga e cidadã.
Não estou directamente envolvida neste panorama activista, mas tento contribuir conscientemente para a divulgação e discussão das questões que refere. Enquanto profissional, sinto que tenho a responsabilidade de combater as ideias erradas e os preconceitos, principalmente porque a falta de conhecimento sobre estes temas pode ter consequências sérias na prática clínica. Conheço alguns casos de psicoterapias que terminaram quando os clínicos disseram aos seus pacientes que os poderiam ajudar a curar a sua homossexualidade. É lamentável que continuem a existir situações deste tipo.

3. Referiu ao Dezanove (1) que a sexualidade não é um tema tabu mas está sim banalizado (2). De que forma é que a banalização da sexualidade, a imposição das relações hétero e monogâmicas e da estética podem prejudicar a sexualidade das pessoas e uma vida sexual natural das pessoas?

As implicações deste tipo de banalização são tremendas, especialmente neste âmbito. Com a pressão sócio-cultural que nos rodeia, usualmente transformada em critérios de exigência pessoais, o espaço que existe para a individualidade vai-se reduzindo.
Em termos da minha experiência clínica, tenho-me vindo a deparar com diversos tipos de consequências destas imposições normativas. Por um lado, há efeitos mais “imediatos”, como dificuldades e hesitações em processos de coming-out. Por outro, surgem também efeitos menos visíveis, nomeadamente problemas de auto-estima e auto-imagem, ou questões ligadas a fantasias e práticas sexuais menos comuns. Portanto, sim, há imensas pressões advindas dessa banalização que prejudicam a plena experiência da vida sexual de cada um.

4. O que tem aprendido sobre sexologia clínica? Afirma que só em casos especiais é que algumas pessoas recorrem aos serviços, de que forma as pessoas devem encarar a sexologia e que noções e conhecimentos devem ser adquiridos?

É verdade que uma das obrigações dos sexólogos consiste na constante actualização dos seus conhecimentos de forma técnica e organizada. No entanto, para além dessa componente, grande parte da minha aprendizagem nesta área tem sido proporcionada pelo contacto com os pacientes. Para além dos problemas que motivam as consultas e que requerem uma abordagem individualizada, cada pessoa tem também uma história para contar. São estas vivências subjectivas que complementam a teoria e que sublinham a importância de evitar generalizações.
Em termos da procura destes serviços, confirmo que grande parte das pessoas só o faz quando tem um problema do foro sexual (muitas das vezes já com alguma gravidade), o que vai ao encontro da ideia de que o trabalho de um sexólogo consiste somente em solucionar problemas/perturbações. Acredito que com o tempo as pessoas comecem a compreender que o papel da Sexologia Clínica passa igualmente pela melhoria da vida sexual, mesmo quando não existam problemáticas específicas.

5. No seu consultório as suas premissas são “comunicação, relação e reflexão” . Porque é que para si estas premissas são essenciais para abordar a sexualidade?

Sou da opinião que qualquer trabalho que envolva um contacto directo com pessoas e que passe por processos de cariz psicoterapêutico deve assentar nestas premissas. Sem comunicação não é possível construir uma relação empática, e sem este tipo de relação será muito difícil instigar a reflexão necessária para a procura conjunta de respostas.
No campo da sexualidade a comunicação assume um papel central, uma vez que tudo depende da sinceridade e da abertura com que os assuntos são abordados. Muitas das vezes o próprio facto de ter de se falar sobre determinados assuntos constitui o ponto de partida para o processo terapêutico.

6. Em 2011 com um grupo do 12º promoveu o trabalho – “Sexualiza-te”. Sentiu que o seu contributo para este trabalho foi benéfico e motivante para os interesses sobre a sexualidade, sobre a questão da homossexualidade e da importância do casamento daqueles alunos?

Nesta situação em particular, fui convidada pelos alunos para moderar um debate sobre o casamento homossexual que se seguiria à apresentação do seu trabalho de grupo sobre o tema.
A apresentação deste trabalho foi feita em duas turmas distintas que, curiosamente, reagiram de modo diametralmente oposto ao tema. A primeira compreendeu qual o objectivo da discussão e vários alunos expressaram as suas diversas opiniões, a segunda turma entrou num momento descontrolado de críticas e insultos homofóbicos, o que levou à interrupção do debate.
Encontrei também situações deste tipo quando leccionei aulas de educação sexual a algumas turmas do ensino secundário. Neste sentido, considero extremamente importante englobar estes temas nos programas de educação sexual (e pô-los de facto em prática) e proporcionar espaços de discussão civilizada em que se possam desmistificar preconceitos e transmitir informações correctas.

7. O que é que falta para que haja mais abertura para se falar sobre sexualidade e fantasias sexuais no dia-a-dia, e nas relações amorosas?

Socialmente fala-se muito em sexo e sexualidade, embora nem sempre da melhor forma. Há imensos conteúdos que passam por informação técnica e que, afinal, se resumem a conclusões do senso comum. Há profissionais (psicólogos e sexólogos) que colocam os seus julgamentos morais em primeiro plano, em detrimento de se basearem em dados científicos. Há aulas de educação sexual leccionadas por professores sem qualquer preparação para o fazerem. Neste sentido, apesar de existir a abertura que menciona, é necessário exigir rigor e veracidade.
No contexto das relações amorosas, este tipo de comunicação é essencial para a construção de uma relação saudável e compreensiva. Creio que aqui está em falta sinceridade e frontalidade, mas também coragem e confiança para conversar sobre o que se deseja, o que se quer evitar, o que é importante. Deparo-me frequentemente com casais, por exemplo, que nunca conversaram sobre as suas fantasias sexuais e que se conformaram “ao que era suposto”. A questão é que nada é suposto, embora existam concepções sociais que nos levam a pensar o contrário.

8. Tem formação complementar sobre violência, o que nos pode falar sobre a violência de género? Como se deve reflectir, discutir e por fim à violência?

Educando, acima de tudo. Embora não tenha uma resposta concreta para esta questão, considero que o fim da violência de género implica a mudança de mentalidades e o corte de uma série de padrões comportamentais que vão sendo transmitidos ao longo de gerações, famílias, meios sociais, etc.

(1) Um portal de notícias e eventos que reflecte o dia-a-dia da temática LGBT em Portugal e no mundo, de forma isenta e descontraída, destinado a tod@s que gostem de estar em cima do acontecimento.

(2) Pelo contrário, sinto que assistimos a uma progressiva banalização do sexo num formato de asfixia normativa: temos critérios estéticos para o que é atraente e erótico, convivemos diariamente com representações sexualizadas de relações heterossexuais e monogâmicas, somos bombardeados por publicidade que assenta nestes parâmetros.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: B.T.

1º de Maio de 2016

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