Entrevistando: Actibistas – Colectivo Pela Visibilidade Bissexual

Na 16ª Marcha LGBT de Lisboa, a Ana Pires referiu que o preconceito e a violência sobre lésbicas, bissexuais, nas relações de intimidade e no trabalho tem crescido. Que mensagem gostariam de deixar, para que haja coragem e denunciarem essas situações?

A: É uma responsabilidade muito grande, e também potencialmente pernicioso, endereçarmos mensagens a quem é, individualmente, alvo de discriminação, preconceito, e violência. Interessa-nos mais contribuir para que, estruturalmente, essa violência deixe de existir. O foco não é (só) nas vítimas, mas em prevenir e combater essa violência. Uma das formas com que acreditamos poder contribuir é dando visibilidade. Se vêm ter connosco, partilhar histórias pessoais e assim o autorizarem, denunciamo-las publicamente nos meios que temos ao nosso dispor. E agradecemos, porque expor situações de violência também contribui para a combater. Mas não é nossa política apelar à “coragem da denúncia”, aí entramos no domínio individual.
A nossa mensagem: se fores alvo de violência e tiveres força para isso, denuncia. Se não tiveres força nós queremos estar aqui para te ajudar a lidar com isso. Não estás sozinhx.

De que forma é possível por um ponto final sobre o preconceito e sobre a violência? Para que haja uma total aceitação das pessoas bissexuais.

A: Se houvesse uma fórmula assim tão eficaz o problema já não existiria. Estamos a falar de bifobia, um preconceito e violência que se fundam em várias questões cruzadas: sexismo, monossexismo, misoginia, homofobia, mas também transfobia, racismo, capacitismo, classismo. Acreditamos que é impossível combater um só, justamente por serem tão interdependentes. E combater tudo, além de ser tarefa titânica, demora. Há muitas resistências e interesses a operar em simultâneo, e do lado combativo é preciso união de esforços, é preciso embarcar num projeto contínuo, imparável, permanente, de luta, de desconforto, mas também de desafio e de esperança.

Referem no vosso blogue e facebook que nasceram para combater a invisibilidade dentro dos grupos LGBT, e no mundo hétero-cisnormativo. Em que medida é que sentem a invisibilidade no dia-a-dia, e de que forma essa invisibilidade e este tipo de situação negativa pode prejudicar o vosso bem-estar social, cultural, físico e psicológico?

A: Para se compreender com abrangência os efeitos da bifobia (ou qualquer outra forma de opressão) é preciso que imaginemos um cronossistema em que os indivíduos se desenvolvem sempre em relação com o ambiente e consigo mesmos. Em qualquer etapa das suas vidas as pessoas podem ser confrontadas com situações de bifobia e ela pode ser e frequentemente é persistente dadas as suas formas de manutenção: pessoal, institucional, política etc. A pessoa bissexual vai ter que lidar com as expectativas, suas, dos seus familiares e da sociedade em geral, relativas à orientação sexual: os seus relacionamentos poderão ser pautados por dificuldades de auto-aceitação, desconfiança alheia, discriminação, desconsideração, agressões. Um exemplo é considerar-se a bissexualidade como uma fase, por exemplo, acusando-se as pessoas bissexuais de serem confusas, oportunistas e falsas e assim negando-se-lhes a identidade – é uma forma comum de se marginalizar alguém e de se lhe retirar importância moral e consideração. Assim existem os pais que expulsam os filhos de casa porque eles “são doentes ou desviados”, existem as lésbicas que se recusam a namorar bis, existem os homens que querem impôr as suas fantasias. Por sua vez, a rejeição fomenta a invisibilidade e esvazia a vida das pessoas bissexuais de guias de navegação: na escola, nos media, nos produtos culturais, nas políticas é impossível revermo-nos, sentirmo-nos representadas e ganhar competências de socialização de acordo com as especificidades das nossas vidas. Por exemplo, na escola, uma mulher poderá saber como usar o preservativo mas não lhe serão ensinadas técnicas para proteger a sua saúde sexual caso tenha sexo com outras mulheres. Nas consultas de planeamento, no ginecologista, terá vergonha de falar nxs parceirxs sexuais ou não lhe será de todo perguntado se tem sexo com mulheres, tudo isso constitui um risco para a sua integridade. Uma jovem bissexual não se verá representada em histórias, romances, em filmes e outros produtos culturais que mapeiam desde cedo a vida das pessoas heterossexuais – “serei anormal?”- e outros sentimentos de negação e repúdio podem escalar e resultar em dificuldades psicológicas graves, como a depressão e suicídio. Estes são apenas alguns exemplos, mas talvez o mais desesperante de tudo seja que, de facto, sofremos discriminação também por parte das pessoas e instituições que à partida se poderiam constituir como a nossa rede de suporte.

Ana Pires referiu igualmente que o processo repressivo de violência psicológica, o preconceito, pode levar à morte. Com que tipo de gravidade é que as pessoas bissexuais se deparam?

A: Já demos alguns exemplos em respostas anteriores, mas para ilustrar essa gravidade vale a pena citar o o Relatório sobre Bissexualidade (2012), dirigido pela biUK, em alguns aspectos:

«as mulheres bissexuais têm uma probabilidade 5.9 vezes maior de sofrerem tendências suicidas quando comparadas com as suas congéneres heterossexuais. Também a incidência de outros problemas de saúde mental é maior entre pessoas bis do que entre lésbicas, gays, ou pessoas heterossexuais: por exemplo, num estudo que envolveu participantes numa conferência sobre bissexualidade, 36% dos participantes bissexuais referiram ter um ou mais problemas de saúde física e mental com prejuízo da sua qualidade de vida quotidiana, enquanto que aproximadamente 1/4 dos participantes referiu ter sido diagnosticado profissionalmente com um problema de saúde mental como a depressão (16%), ansiedade (8%) e auto-mutilação (8%). »

Porque razão continua a haver esta invisibilidade, este afastar-vos dos movimentos LGBT, e o que é que é preciso para haver uma maior união?

A: De maneira geral a luta do movimento LGBT assenta na desconstrução de noções rígidas e normalizantes, como o papel de género, o género e sexo, a heteronormatividade etc., que na contemporaneidade votaram estas pessoas à marginalização e desconsideração, por oposição às pessoas heterossexuais, cisgénero, monógamas que têm consagrados privilégios inerentes à sua condição normativa. Infelizmente, existem pessoas que acham que bissexuais beneficiam dum duplo privilégio que lhes permite não só singrar pelo mundo heterossexual como também pela comunidade LGBT e daqui resulta antagonismo “se esta pessoa é privilegiada e protegida pelo sistema, o que faz na nossa luta?”. Esta bifobia generalizada é continuamente alimentada pela ignorância e invisibilidade. Há invisibilidade porque se rejeitam as questões bissexuais como sendo legítimas e porque as próprias pessoas incorrem na internalização do preconceito, não sendo visíveis, renunciam à sua voz e retroalimentam a ignorância. Quando este modus operandi é catapultado dos indivíduos para o nível das grandes organizações que batalham pelas questões de género e orientação sexual, temos instituições que adotam a bifobia e invisibilidade como formas de estratégia porque lhes é mais conveniente em termos de projeção pública e política, porque facilitam a sua aceitação no seio do sistema normalizante e isso se traduz, claro, em apoios de vários tipos. Não é inédito conhecerem-se organizações que apregoam o sentido LGBT e depois, na prática, não terem políticas concretas de combate à bifobia ou transfobia, o B e o T são postiços. Finalmente, para haver união é preciso que se reconheça e eduque sobre as especificidades de cada opressão, de cada luta – é preciso que haja uma expansão das competências e reivindicações sem afunilamento ou supressão dos direitos e identidades dos vários grupos oprimidos. O reconhecimento desta diversidade é benéfico para toda a gente, LGBT ou não, porque o reconhecimento da diferença é que traz o espaço de ação para qualquer luta social, para progredir.

Aproveitam a Marcha para fazer esta aproximação. Que resultados têm conseguido obter para conquistarem mais respeito, mais espaço e porem fim aos preconceitos?

A: A verdade é que o panorama LGBT em Portugal tem mudado nos últimos tempos. Notámos isso sobretudo a partir do momento em que este colectivo nasceu. Isto não é dizer que fomos nós que o conseguimos, mas fizemos e fazemos parte dum novo momento do ativismo LGBT. Surgiram nos últimos 4/5 anos vários novos colectivos que têm dado visibilidade a várias secções e lutas do movimento LGBT: Bichas Cobardes, nós, Lóbula, API, FAqTO, etc. Mesmo o PolyPortugal, que já vinha estando presente nas nossas lutas (que são de todxs), tornou-se mais ativo e visível. De repente deixou de ser só a ILGA e as Panteras a fazer coisas. A bissexualidade de facto tem conseguido visibilidade, bem como questões de identidade e expressão de género, o espectro T, a outra letra habitualmente apagada da sigla, e a assexualidade e questões intersexo. E isto acaba por se refletir inevitavelmente na renovação dos grupos mais consolidados (ILGA, Safo, e também nas Panteras). Esta mudança de discurso vem também de mão dada com uma renovação geracional, de pessoas muito jovens e já com uma consciência feminista abrangente e cuidada e alargada em matérias LGBT.

Assinalaram no facebook o grande passo sobre a aprovação do dia Nacional contra a Homofobia e Transfobia. O que é que este passo significa para vocês? Que trabalho pode e deve ser feito no dia-a-dia para que obtenham mais resultados práticos?

A: Bem, claramente não assinalámos da forma mais eficaz, senão a pergunta referiria a nossa ambivalência quando a essa aprovação. Na verdade o dia 17 de Maio, devia ser, à semelhança do que passou a acontecer noutros países recentemente, o dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. É uma data simbólica, que assinala a retirada da homossexualidade da lista de doenças da OMS em 1990, mas cujo objectivo é trazer visibilidade à luta contra a homofobia, transfobia e bifobia e celebrar a diversidade sexual e de género. É um dia em que há um reconhecimento oficial generalizado da violência que ainda é exercida diariamente sobre pessoas como nós. Nesse sentido, é bom que Portugal se tenha juntado aos mais de 130 países que assinalam esta data anualmente – apesar de lamentarmos profundamente que a nomenclatura oficial não nos inclua.

“Eu que me considero um homem informado, e medianamente culto, acho que a bissexualidade tem muito a ver com a indefinição em que o indivíduo ainda se encontra para escolher a sua sexualidade. Acho que um bissexual, na minha opinião, depois de ter experiências com pessoas do mesmo sexo e se é uma coisa que lhe é agradável, para mim é sempre um homossexual.” disse Nuno Graciano. Como se sentem ao ser insistentemente desconsiderados por agentes da comunicação, pela sociedade e afins…? Esta descredibilização constante pode ser cruel? De que maneira?

A: A crueldade pressupõe intencionalidade e nós acreditamos que na maior parte das vezes o que subjaz a comentários deste tipo é simplesmente a ignorância e falta de empatia no sentido em que frequentemente pessoas que não vivem diretamente as experiências falam por nós ou participam no processo político de tomada de decisões que nos visam – temos este mesmo problema nas lutas Trans, por exemplo, e na luta contra o racismo, com consequências aterradoras para estas pessoas. Então, quando isto acontece temos que reagir, temos que tornar visíveis as nossas vivências, os nossos afetos, os nossos discursos para que possamos ser os porta-voz daquilo que nos diz respeito, daquilo que afeta as nossas vidas. Temos que confrontar estas pessoas e dizer-lhes que não podem falar por nós e temos que expôr todos os agentes que persistem em disseminar desinformação e preconceitos.

Os vossos sentimentos, a vossa forma de viver, de estar e de sentir são postos de parte através destes ataques e afirmações. Como se pode viver desta forma?

A: Quem tem uma rede de suporte social terá a vida facilitada no sentido de lidar com estas agressões constantes. As actiBIstas existem também para isso, para dar visibilidade e se traduzirem de algum modo em apoio para as pessoas que não o tenham – pequenas coisas como partilhar textos, vídeos, sentimentos e situações são um primeiro passo de amparo e resistência que procuramos fomentar para que primeiramente as pessoas bissexuais saibam que não estão sozinhas e que há gente a trabalhar para uma sociedade que nos inclua a todas.

Para além do trabalho em prol da luta contra a discriminação, também abordam temas como o poliamor. Em que é que essa forma de estar e de se relacionar pode ser positivo para as relações?

A: Temas como o poliamor e outras formas de não-monogamia ética, como a anarquia relacional, são importantes porque vêm descolonizar as relações de noções rígidas que por vezes estão na base do sofrimento e de vivências problemáticas da sexualidade e dos afetos. Desconstruir cânones como o do amor romântico, a visão do outro como propriedade, o ciúme e o sexo como condições sine qua non de uma relação, a masculinidade tóxica, o privilégio de género, enfim, são debates fundamentais para cultivarmos a consciência sobre como funcionamos e nos relacionamos umas com xs outres e de que maneira podemos tornar estas interações menos opressoras, mais responsáveis e prazerosas.

Como podem as mulheres ir à luta para se afirmarem e recuperarem/reivindicarem os seus direitos quando ainda há problemas como a proibição de mulheres de entrar numa barbearia?

A: É precisamente porque existem direitos suprimidos e melhorias a serem reivindicadas que devemos ir à luta; Esperar não é uma opção, se queremos que as coisas mudem temos que operar no presente e encetar as mudanças necessárias agora porque “a posteridade pode não ter os nossos ideais”. Exortamos todas que possam a serem agentes dessa mudança.

Juntaram-se à UMAR contra o retrocesso que CDS-PP/PSD pretende concretizar acerca do aborto, em que sentido é que pode prejudicar as mulheres e a sua liberdade?

A: Que infelizmente já concretizou. Não temos palavras para os retrocessos em termos de liberdades individuais e respeito pelas pessoas por parte do anterior governo PSD/CDS. É uma afronta voltar a estabelecer-se legalmente que as pessoas com útero não são donas do seu corpo nem responsáveis pelas suas decisões. Felizmente esta foi uma das aberrações que o atual governo tratou de corrigir logo, seguindo-se a co-adoção e, agora mais recentemente, a aparentemente garantida aprovação da PMA.

Obrigado pelo vosso tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Mariana Dias

26 de Abril de 2016

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