Entrevista a Rita Alcaire

Entrevista a Rita Alcaire – Antropóloga, Doutoranda em Human Rights in Contemporary Societies. É Mestre em Psiquiatria Cultural com uma dissertação sobre as representações da masturbação no cinema e televisão mainstream.

Para começar pode explicar um pouco da pesquisa de mestrado que fez?

Na investigação que fiz, intitulada ‘Ménage à Moi: representações da masturbação na televisão e no cinema mainstream’, analisei cerca de duas dezenas de produções de cinema e de televisão comercial, tanto norte-americanas como portuguesas, referentes às décadas de 1990 e 2000.
O objectivo principal foi tentar perceber a forma como a masturbação é representada no cinema e na televisão mainstream (produções que mais chegam ao público português), fazendo depois uma reflexão que confronta essas representações sociais da masturbação e respectivos antecedentes médicos, históricos e religiosos.

No programa Prova Oral (Antena 3) disse que a masturbação feminina é pouco representada. Porque é que em pleno século XXI isso ainda acontece? E desde 2011, quando defendeu a tese, considera que já alguma coisa mudou na abertura da sexualidade feminina e na abertura das pessoas para esta prática tão natural?

Isso ficou flagrante no levantamento que fiz: a diferença entre o número de vezes que a masturbação praticada por mulheres e a masturbação praticada por homens é representada, com as mulheres a aparecerem muito menos.
É importante que haja representações de versões múltiplas de sexualidade e do prazer sexual das mulheres: a forma como escolhem vivê-la, a exploração e conhecimento do seu corpo, as suas várias formas de relacionamento, e também o direito a não serem sexuais. Escutar histórias reais e representar essa diversidade no ecrã é essencial. Escancarar todas as instâncias da realidade de forma a que as mulheres, tantas vezes invisibilizadas, reificadas, objectificadas (e medicadas!) passem a ser protagonistas das suas próprias narrativas.

Os silêncios que fala da masturbação ainda continuam a existir? Ainda existe o medo e o receio de se abordar o tema?

Ultrapassando o intervalo de tempo que defini para a pesquisa e alargando à produção de cinema independente, televisão por cabo e produção audiovisual para internet, encontram-se representações recentes que mostram uma gama mais alargada de formas de ver e de viver a sexualidade que permitem pintar um quadro mais vivido e alargado da sexualidade feminina e em que a masturbação tem um papel preponderante e chega a ser retratada como um acto político e que pode promover uma sexualidade saudável.
Mas a sexualidade feminina num todo, e por consequência a masturbação, continuam a ser desvalorizadas em grande medida.

No estudo dos filmes, observou que muitas das cenas ou eram de culpa, de censura, de comportamentos errados por parte das mulheres, ou sempre momentos heterossexuais, não passa uma mensagem errada, e de certa forma não acaba por ser inibidora para quem vir o filme?
Disse numa entrevista que a masturbação na indústria audiovisual: “não é representada de uma maneira positiva” quais são os pontos negativos?

Existem algumas representações interessantes, positivas, pós modernas (no sentido de trazerem algo de novo, de crítico, de inovador), mas a maioria das representações que encontrei são quase na totalidade de perpetuação da figura do masturbador homem, tal como tem sido vista nos últimos três séculos: um sujeito mau, um louco ou desajustado.
Foi possível detectar padrões que dividi em algumas figuras típicas que aparecem recorrentemente nos filmes e séries de televisão do período que analisei. Por exemplo, o adulto desenquadrado, uma figura que se masturba para conseguir prazer físico, mas também, metaforicamente, para conseguir o seu lugar no mundo. O exemplo mais evidente deste tipo de personagem é Lester Burnham em Beleza Americana (1999). Mais ainda, muitas das representações deste tipo de personagem masculina mostram uma espécie de consumo de outros durante o acto, especialmente de mulheres – normalmente sob a forma de imagens – que são transformadas em pouco mais do que acessórios pornográficos. Este tipo de personagem dedica-se também, muitas vezes, a chamadas telefónicas obscenas ou práticas de voyeurismo.
Outra imagem recorrente que encontrei foi a de personagens loucos/loucas, com tendências criminosas. A masturbação é empregue aqui para demonstrar uma sexualidade perversa, um indivíduo apanhado numa espiral de loucura, alienação, sadismo e masturbação crescente. Nesta categoria encontrei várias ‘masturbadoras femininas loucas’ como em Jovem Procura Companheira (1992), Um Olhar Obsessivo (1999) e Mulholland Dr. (2001). Nestas três narrativas, estas mulheres que se masturbam surgem como incapazes de formar relações com outras pessoas de forma profunda. Enquanto que nenhuma usa uma vítima como adereço directo (como acontecia no caso dos homens), todas assassinam ou tentam assassinar os seus amantes, que sentiam nunca ter totalmente, não eram seus por completo.
No caso específico do filme português Call Girl (2007) de António Pedro Vasconcelos, a masturbação aparece associada a uma prostituta que usa a prática para fazer um cliente poderoso (que pretende mais tarde chantagear) perder o controlo e entregar-se a práticas sexuais. Isto parece remeter para a sexualidade da mulher sempre no binómio da Madonna-puta.
Muito comum também é o adolescente imaturo (sexo masculino), representado como sendo sexualmente imaturo e com uma grande curiosidade sexual. Jim Levenstein de American Pie: A Primeira Vez (1999) é um exemplo típico desta categoria, em conjunto com as personagens das séries televisivas Weeds (2005-2012) e Parenthood (2010-2015). Esta personagem-tipo aparece como uma figura que ainda não conhece a sua sexualidade e, por essa razão, leva a efeito um conjunto de experiências que habitualmente provocam uma atitude condescendente nos familiares e amigos da personagem em questão e grande riso na audiência. São habitualmente representados como frágeis, tanto emocionalmente como fisicamente. O comportamento que demonstram neste momento da sua vida é encarado como uma fase que será ultrapassada na idade adulta, à medida que acumulam experiência sexual e relacional.

Considera que ainda existe uma grande lacuna nos estudos deste tema e também uma falta de filmes nacionais sobre o tema? Acredita que é preciso um incentivo?!

Nas últimas décadas, a discussão em torno do tema aumentou consideravelmente: encontramo-la presente em várias formas de arte (da dramaturgia às artes plásticas), existem inúmeras lojas (físicas e online) de venda de produtos sexuais – muitos deles com finalidades masturbatórias –, e no campo académico continua a crescer um corpo sólido de pesquisa. Philippe Brenot (2006), mas também Jean Stengers e Ann Van Neck (2001), Gregory Tuck (2003; 2005; 2008) e Alan Soble (2007), entre tantos outros, contribuíram com importantes estudos sobre a masturbação nas mais variadas áreas. Mas foi Thomas Laqueur, historiador norte-americano, o responsável pelo trabalho mais volumoso e profundo dedicado ao tema. O seu livro Solitary Sex – A Cultural History of Masturbation (2004), que recomendo fortemente, cobre com detalhe vários séculos para explicar como a masturbação se transformou em patologia sexual e, mais tarde, deixou de o ser, fazendo uma ligação entre a história da masturbação e uma questão mais alargada – a própria história do self.
Há também um aumento de discussão pública sobre o tema e, como já tive oportunidade de o dizer, surge de formas mais construtivas e positivas em filmes e séries de televisão. Mas há ainda um longo caminho a percorrer.

No seu ponto de vista o que é preciso para que a sociedade veja a masturbação como algo natural?

O meu principal objectivo ao fazer este trabalho no âmbito de um Mestrado em Psiquiatria Cultural foi chamar a atenção para a patologização da diversidade sexual. E, principalmente, contribuir para o questionamento do modelo vigente de sexualidade – heteronormativo, monogâmico, coital,… – mostrando que não traduz toda a diversidade existente, que sempre foi fortemente influenciado pela medicina e pela religião e mostrar o dano e o sofrimento que isso causa. Embora a diversidade tenha sido historicamente silenciada ou condenada – caso da sexualidade das mulheres, das pessoas com deficiência, de relações entre pessoas do mesmo sexo, da masturbação, etc. – a vivência da sexualidade não se submete nem resigna a modelos restritos e restritivos.
Existem várias formas de combater esta condenação e silenciamento, sendo que uma das mais eficazes é a exposição pública através de vários meios de diferentes tipos de experiência vivida. É isso que me parece a chave no cinema e na televisão: contribuir para a diversidade de representações. Mostrar diferentes formas de sexualidade e de que maneira se interseccionam com tantas outras realidades (idade, género, proveniência social, geográfica, etc.).
E é importante que o cinema e a televisão aproveitem a sua capacidade de causar desconforto, inquietação, de questionar, de criar polémica, ao mesmo tempo que ajudam a dar este passo em frente na criação de legitimação para diferentes formas de ser e de viver a sexualidade, que faz com que muitas pessoas passem a sentir-se representadas na forma como se auto-percepcionam e não enquadradas em modelos patológicos.

O que é que conseguiu aprender com o estudo da sua dissertação para o seu mestrado?

Fazer um trabalho sobre masturbação foi uma modesta contribuição tanto para a história da sexualidade como para a história da medicina e permitiu-me reforçar algumas ideias que já tinha e aprender muitas coisas novas. Por exemplo: que algo que parece sempre presente, que parece não necessitar que se fale nela, que parece ser apenas parte de ser humano, tem na verdade uma longa, fascinante e conflituosa história.
Ao recuperar desta forma a história cultural e social da masturbação, a pesquisa permitiu-me também documentar também o sofrimento e o dano causado pelas distorções médicas e religiosas, solidificadas ao longo do tempo e incrustadas na educação, o que se aplica a tantos outros comportamentos, orientações e formas de viver a vida íntima.
Ficou claro como a cultura influencia o modo como a masturbação foi e é vista, criou receios e configurou valores e, dessa forma, como a sexualidade se inscreve em modelos biomédicos por via da cultura. São indissociáveis.
Ao fazer esta pesquisa, espero ter contribuído para a pesquisa histórica de práticas estigmatizadas e, assim, ajudar a combater estereótipos e diminuir o estigma a que estão sujeitas e trazer subsídios para a abordagem deste tema tanto na prática clínica como no senso comum.

Na entrevista no programa Cinemusicorium da Rádio Universidade de Coimbra falou que num episódio de Seinfeld sobre masturbação mas em que a palavra não era mencionada devido à censura da NBC. Em Portugal tendo em conta a grande censura do Estado Novo, a censura pode continuar presente, ser imposta quer nos filmes, quer na vida das pessoas?

À semelhança de outros países, a situação em Portugal é paradoxal. Por um lado, a sociedade portuguesa está cada vez mais exposta à informação, é alvo de incontáveis discursos e narrativas sobre sexualidade e os direitos sexuais estão gradualmente a consolidar-se como não negociáveis. Por outro lado, está sempre presente a intenção de instituições que detêm o poder de controlar essa mesma sexualidade.
Hoje, em Portugal, os direitos sexuais e reprodutivos são legalmente reconhecidos, em grande medida. Após ‘Revolução dos Cravos’ de 1974, nas últimas quatro décadas têm testemunhado progresso importante. Mas, apesar das directrizes internacionais de saúde e mudanças significativas em relação à privacidade e à vida familiar testemunhadas nas últimas décadas, a cultura dominante manteve muito de suas antigas características conservadoras, empurrando orientações não-normativas, identidades sexuais e biografias íntimas para um lugar de tensão, a ambivalência ou silêncio.

Na mesma entrevista falou sobre o trabalho de estudo de Patrícia Brancal com escolas portuguesas e de outras iniciativas em Espanha que encontram barreiras, por se falar sobre masturbação. Como explica que haja tantos entraves para a discussão deste tema e, no fundo, sobre quase todas as temáticas sobre a sexualidade?

Esse estudo que referi chama-se ‘Vivências Sexuais dos Jovens da Beira Interior’, da investigadora Patrícia Brancal, da Universidade da Beira Interior, realizado em 2007. A propósito da revelação dos resultados desta investigação a própria autora refere que gostava de ter um universo maior, mas as escolas públicas não quiseram distribuir o questionário, sobretudo quando confrontadas com perguntas sobre hábitos de sexo oral, anal e masturbação. Esta circunstância é contrastante com as principais políticas educativas e de saúde pública na União Europeia e também em Portugal, onde uma disciplina de saúde sexual e reprodutiva, que se deveria reflectir no trabalho das turmas, foi recentemente integrada nos currículos escolares.

Thanks for your time, and all the best wishes for your work.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: B.T.
06 de Abril de 2016

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