Entrevistando: Raquel Pereira

Raquel, é investigadora na Sex Lab e fez o estudo de Mestrado Integrado em Psicologia, tendo como área de especialização em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, sobre a dor sexual masculina. O que a levou a interessar-se por esse tema e o que é que aprendeu com o seu estudo?

Desde cedo na minha formação académica tive interesse na temática da sexualidade, em particular as disfunções sexuais. A dor sexual, de forma particular, sempre me deixou muito curiosa, já que a componente da dor, mais do que as questões do desejo, excitação e orgasmo, parecem ser menos compreendidas e conhecidas da população em geral, o que contribui para o agravamento destas problemáticas. Estudá-la no caso do sexo masculino foi mais um acaso que se deu aquando da escolha dos temas para a dissertação, e uma oportunidade de me centrar num tema nunca antes abordado na investigação em sexualidade em Portugal. Com o meu estudo, tive oportunidade de caracterizar uma amostra de homens heterossexuais com dor sexual (i.e. a nível genital, com impacto na actividade sexual) em termos de algumas variáveis psicológicas específicas, e compará-los com homens com outras problemáticas sexuais, bem como com homens sem qualquer tipo de problemática sexual. De uma forma geral, e apesar das várias limitações do estudo, podemos perceber que existem várias semelhanças entre homens com dor sexual e homens com outro tipo de problemáticas sexuais, a nível cognitivo e sexual, o que, no panorama científico actual é bastante relevante, dado que a dor sexual masculina não é contemplada no actual DSM-5, subvalorizando os casos existentes. Além disso, os resultados encontrados sublinham a importância da dimensão da sexualidade no caso da dor genital, o que nem sempre é contemplado em termos da avaliação e do tratamento. Por isso, de uma forma sucinta, penso que este estudo permite-nos aprender mais sobre o papel de algumas variáveis, como as nossas cognições, quanto à actividade sexual e quanto à própria dor, no desenvolvimento destas problemáticas.

Que dados obteve, e que nos queira partilhar, sobre o estudo que fez para a sua tese de mestrado?

Na minha tese de mestrado, realizei comparações entre grupos clínicos, com dor sexual e com outras problemáticas sexuais, e um grupo de controlo, sem problemáticas sexuais. E foram analisadas várias variáveis psicológicas, das quais vou salientar os principais resultados. Quando analisadas as cognições sexuais, em particular os pensamentos automáticos que podem surgir durante a actividade sexual (e.g. “Isto já não vai a lado nenhum”; “Estou a ficar velho”), verificamos que os homens com dor ou disfunções sexuais tem mais pensamentos disfuncionais (i.e. antecipam mais o fracasso, preocupam-se mais com a erecção, com o corpo e a idade) do que os homens sem problemas sexuais. Além disso, também apresentavam uma menor função eréctil e função orgásmica do que estes, assim como menores níveis de satisfação sexual. Avaliamos também a catastrofização à dor, que é uma variável que diz respeito à forma como reagimos e lidamos com a dor, e verificamos que os homens com dor sexual apresentam uma maior tendência para catastrofizar, principalmente para ceder ao desânimo, quando comparados com os homens do grupo de controlo. Estes dados mostram-nos, assim, que existem componentes cognitivas e afectivas envolvidas no desenvolvimento e manutenção da problemática da dor sexual. Algumas dimensões assemelham-se às previamente estudadas no âmbito das disfunções sexuais, e outras são exclusivas da dor, e penso que essa é a grande mais-valia deste estudo. Apesar das suas limitações, ele aponta a relevância de certas dimensões que podem ser contempladas em termos da intervenção psicológica.

De que forma é que se deve compreender a dor sexual e como se deve encarar? Como se deve prevenir qualquer tipo de dor?
Penso que este estudo serve, precisamente, para reconhecer a dor sexual masculina como uma problemática de saúde sexual, e espero que contribua para que, em futuras revisões do DSM, esta possa ser novamente contemplada, de forma a ser alvo do interesse da investigação e intervenção de sexólogos. Para além disso, penso que este estudo assinala a importância de um olhar multidisciplinar, reconhecendo a necessidade da colaboração entre diversos profissionais da saúde no desenvolvimento de protocolos de intervenção mais complexos e eficazes. De facto, os estudos têm sido unânimes ao assinalar a eficácia acrescida na conjugação de vários tipos de terapia (e.g. farmacológica, psicológica, psicoeducativa…) nesta problemática, e penso que a perspectiva biopsicossocial que está na base deste estudo vem sublinhar isso mesmo. Quanto à prevenção, e uma vez que os quadros clínicos de dor são, na sua maioria, de origem médica (ainda que, muitas vezes, de natureza idiopática), é difícil estabelecer formas de o fazer. Porém, e tendo em conta os dados obtidos sobre o papel das variáveis estudadas, penso que estes nos sugerem, tal como no caso de outras problemáticas sexuais, a importância da educação sexual, com vista ao desenvolvimento de pensamentos, sentimentos e comportamentos sexuais mais saudáveis. Em última instância, podemos prevenir a activação dos mecanismos cognitivos responsáveis pelo estabelecimento do ciclo vicioso de dor e evitamento.

Qual foi a principal razão para ter escolhido estudar a dor sexual masculina? Foi por ser uma questão importantíssima, a meu ver, para o bem-estar do corpo e da vida sexual do homem?

Tal como referi, a escolha do tema deu-se mais por acaso. Uma vez que a dor sexual feminina já fora estudada no âmbito do SexLab, havia o interesse em comparar alguns desses dados com a população masculina. Assim, eu compreendi que se tratava de uma oportunidade para inovar e preencher uma lacuna na investigação em sexualidade em Portugal. Além disso, foi fácil criar “empatia” com a temática, pois se, no caso da dor sexual feminina, existe uma grande frustração, desconhecimento e incompreensão por parte das pacientes em relação à sua problemática, e por parte da sociedade, no caso masculino esses factores encontram-se ainda mais enfatizados. Dessa forma, tornou-se mais urgente e motivador, para mim, para levar a cabo um estudo que, no mínimo, contribuiria para o reconhecimento de um problema desconhecido.

O que concluiu com a avaliação sobre a capacidade cognitiva, afectiva, sexual e orgânica de quem tem dor sexual?

De uma forma geral, e para não repetir o que já foi dito, a avaliação das componentes cognitiva, afectiva, sexual e orgânica da dor sexual permite-nos corroborar a relevância de modelos biopsicossociais, o que naturalmente tem implicações para a prática clínica. Estes resultados sugerem a importância da abordagem multidisciplinar, já que todas estas dimensões contribuem para o agravamento da saúde física em geral e sexual em particular, bem como da qualidade de vida. Dadas as elevadas taxas de insucesso das terapias farmacológicas, bem como o prolongado impacto da dor sexual na vida dos pacientes, a intervenção ao nível das várias dimensões afectadas mostra-se incontornável para a obtenção de uma recuperação eficaz.

Quais são os maiores problemas de quem tem este tipo de problemas sexuais?

Geralmente, estas problemáticas prolongam-se por vários anos, tendo um impacto nefasto ao nível da qualidade de vida em geral (física e psicológica), e sexual em particular. A disfunção eréctil e a ejaculação prematura são disfunções muitas vezes comórbidas, verificando-se também elevados níveis de depressão e ansiedade. Alguns estudos documentam também as dificuldades relacionais que podem emergir. Por isso, e apesar de a investigação nesta área ser reduzida e inconsistente, podem-se elencar vários prejuízos para a vida dos pacientes.

Outro dos seus interesses recai sobre a sexualidade na deficiência. Na sua perspectiva, o que precisa de ser mais discutido? O que considera ainda ser necessário falar para que se aprenda que pessoas com deficiência motora e psicológica também têm direito a terem sexualidade e serem sexualmente activos?

De facto, recentemente comecei a interessar-me nas questões da sexualidade e incapacidade, as quais planeio estudar no âmbito do meu doutoramento. São temáticas que têm sido alvo de algum interesse da investigação em Portugal, mas muito pouco discutida e defendida. Por isso, parece-me que o que precisa de ser discutido prende-se, desde logo, com a atitude perante esta problemática, principalmente entre os profissionais de saúde, que muitas vezes não abordam esta questão na sua formação académica. Para além de todas as questões práticas, sobre o papel que cada profissional pode ter no desenvolvimento das condições para a saúde sexual de pessoas com incapacidades, penso que ainda teremos muito trabalho a fazer em termos culturais e atitudinais, no sentido de desmistificar preconceitos. E, por isso, cabe às instituições de ensino o papel de educar para uma sociedade inclusiva. Além do mais, penso que estas questões são difíceis de ultrapassar pelo facto de dominar um modelo social que perpetua o heterossexismo e uma divisão dos papéis de género e papéis sexuais que ignora/incrimina todas as práticas sexuais que não sejam concordantes com esse modelo. Por isso, acredito que devemos persistir ao procurar informar e, mais do que isso, educar mentalidades através dos diversos meios de comunicação ao dispor.

Tendo em conta que a sexualidade, para nós que não temos qualquer incapacidade, a sexualidade ainda não se vive da melhor forma, acredito que as pessoas com deficiência estão ainda mais longe disso. De que forma é que pode ser negativo e castrador para as suas vidas? Como se pode alterar esta situação e mudar a perspectiva e a forma de encarar a sexualidade?

O impacto negativo da repressão sexual, mais ou menos encoberta, que sofrem as pessoas com incapacidade, tem já sido frequentemente documentado, quer em estudos, quer em vários meios de comunicação e movimentos activistas. A literatura conclui que, mais do que as barreiras físicas ou da própria incapacidade, são, muitas vezes, as barreiras sociais que assumem um maior peso na vivência de uma sexualidade saudável. Concomitantemente, os estudos documentam amplamente menores níveis de satisfação sexual e auto-estima sexual por parte de pessoas com incapacidade, em particular física, na qual me debrucei mais. Como referi na questão, creio que esta situação só mudará verdadeiramente se for feita uma mudança social, a nível geral, no reconhecimento dos direitos de todos os cidadãos. Principalmente, e de forma muito simples, do reconhecimento da igualdade na diversidade. Caso contrário, por muitas mudanças estruturais que se dêem, na criação de serviços mais especializados, ou na formação técnica de profissionais, nunca será suficiente. Pois o que é mais castrador, que é o preconceito social, poderá perdurar.

Como já referi, é investigadora da SexLab e tem vários interesses sobre sexualidade. O que gostaria de investigar no futuro?

Como já adiantei, no futuro quero investir na temática da sexualidade e incapacidade, particularmente a física, concretamente no âmbito do meu doutoramento. Para além disso, gostaria de continuar a colaborar noutros projectos do SexLab, interessando-me mais a área da sexologia clínica, das disfunções sexuais, tendo sempre presente a promoção dos direitos e da saúde sexual.

Na sua opinião que temas precisam de ser abordados, estudados/investigados e discutidos? Que outras disfunções sexuais é que são do seu interesse e que são preocupantes para a vida sexual das pessoas?

Parece-me que, nos últimos anos, têm sido feitos grandes avanços na investigação em sexualidade, particularmente em Portugal, e poucos serão os temas que não terão sido já abordados. Parece-me que é necessário continuar o trabalho encetado, nomeadamente avançando nos estudos de eficácia de protocolos clínicos e validação de modelos teóricos. Para além disso, e no âmbito da dor, penso que fica ainda por abordar a problemática específica da anodispareunia (dor anal).

O seu último trabalho de investigação em que está inserida intitula-se de «Emoções e Movimento Oculares face a um clip erótico»: quais são as expectativas para esta pesquisa?

A minha colaboração no estudo “Emoções e Movimentos Oculares face a um clip erótico” prendeu-se com a preparação dos protocolos experimentais e a recolha de participantes. Foi o primeiro estudo que realizei em laboratório, e uma oportunidade que me deixa muito orgulhosa de aprender e aprimorar os meus conhecimentos de investigação. Na verdade, este estudo encontra-se já concluído, com resultados a ser publicados com data provável em 2016.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.
Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Mariana Dias

17 de Maio de 2015

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