Entrevista ao Projecto Sim, Nós Fodemos

Gostava de começar por perguntar se encara este projecto como um grito de revolta e um despertar de consciências?
Diria que não encaramos nem como um grito de revolta, nem como um despertar de consciências. Apesar de querermos dar voz a quem muitas vezes não a tem e de pretendermos informar onde ainda vai grassando a ignorância. Nós encaramos sim este projecto como uma luta pela igualdade, num domínio tão central na vida de todos, como é o da sexualidade.
Na sua perspectiva, julga que ainda há muito caminho a percorrer no sentido de quebrar barreiras para quem tem plenas capacidades motoras? E para quem não as tem, sente também que é preciso lutar muito no que à mentalidade se refere?!
O tema da sexualidade é um tema ainda muito sensível no nosso país. Apesar de nos parecer que houve uma evolução interessante nos últimos anos, vivemos claramente num país conservador, facto que levanta barreiras para a vivência de uma sexualidade livre, descomplexada e plena. Há efectivamente barreiras a quebrar por todos nós portugueses, é evidente. Nas pessoas com diversidade funcional acrescem ainda as barreiras que advêm dessa condição, da impossibilidade que ainda existe no nosso país se serem cidadãos de plenos direitos e de não lhes serem dadas as mesmas oportunidades nas suas vidas. Daí que um dos nossos objectivos centrais seja informar.
O projecto começou em Novembro de 2013, já foi noticiado no Brasil, mas como tem visto primeiro a reacção das pessoas? E o que é que mudou desde então? Tem sentido que as pessoas encaram este tema de maneira diferente?
Somos de facto muito jovens. E durante este período temos tido uma recepção que só a podemos classificar como francamente positiva. Sabíamos que o tema não era fácil e que a linguagem por nós usada poderia não ser consensual, mas a pertinência da temática e a necessidade de uma linguagem directa e objectiva, foi entendida pela esmagadora maioria. Assim as mensagens de incentivo, notícias no Brasil (em breve em Portugal) e na blogosfera têm sido uma realidade.
Quanto ao que mudou, seria pretensioso achar que já mudou alguma coisa. Estamos a caminhar, firmes e com cada vez mais certeza de que de facto essas mudanças vão inevitavelmente surgir do decorrer do nosso trabalho. Mas não seremos, nem queremos ser os únicos agentes dessa mudança. Uma sexualidade plena para as pessoas com diversidade funcional deve interessar a todas as associações e instituições vocacionadas para as pessoas com deficiência. Chega de varrer este tema para debaixo do tapete.
A nossa tenra idade e a positividade das reacções não nos possibilitam perceber se o tema é tratado de forma diferente como diz.
O que é que é preciso para que cada pessoa com limitação e cada pessoa comum veja a sexualidade como algo natural?
Antes de mais, permita-me dizer-lhe daqui sentado na minha c400 (cadeira de rodas eléctrica) que me considero uma pessoa comum: como, durmo, estudo, trabalho, rio, choro e fodo. Isso faz de mim mais comum do que incomum. E esta noção é absolutamente central para que todos sejam tratados de forma igual em todos os domínios da vida onde a sexualidade se assume como absolutamente central.
Encarar com naturalidade a sexualidade é um processo moroso porque é algo iminentemente cultural. Para além disso a religião exerce uma forte influência, tanto mais num país com uma tradição católica tão acentuada. Assim, a informação, comunicação e desmistificação da temática é crucial.
Viver com tanto preconceito, e com tanto tabu sobre este assunto é muito difícil? Pergunto conjuntamente se não é castrador? Limita também a felicidade?
Viver com tanto preconceito é difícil sim, é cansativo. Viver com tanto tabu é angustiante. E pode sim ser castrador, se realmente se assumir que não temos direito a viver a nossa sexualidade como às vezes se parece fazer crer. E claro que o não acesso a uma necessidade básica como é considerada a Sexualidade pela Organização Mundial de Saúde, pode limitar a felicidade.
Até onde é que o Sr. Rui e o vosso colectivo estão dispostos a ir pela vossa luta?
Nós, como já se falou, estamos numa fase embrionária ainda. Estamos a delinear estratégias, acções e formas de comunicação. A nossa meta é o acesso à sexualidade por parte de todas as pessoas com diversidade funcional. Dentro desta minoria, ainda vivem muitas pessoas sem forma de viver a sua sexualidade e em angústia permanente por não conseguirem lidar com o desejo constante. Para conseguirmos isto ou promovermos o debate público que pode ser mobilizador da mudança utilizaremos a objectividade e ousadia que até agora nos tem caracterizado. E a meta, nestas lutas, normalmente está onde estão aqueles que podem decidir e alterar o estado das coisas. Temos todo um caminho a percorrer e queremos percorrê-lo.
A questão de deficientes poderem dispor de prostitutas é deveras polémica. Qual é a sua opinião, e como é que isso podia ser positivo?
Se qualquer português ou portuguesa tem acesso a prostitutas ou prostitutos, as pessoas com deficiência também têm ou deveriam ter. É o conceito de Igualdade de que falo sempre. Lembro que a prostituição não é crime no nosso país, apesar de existir a ideia de que é. Portanto, não vemos qualquer tipo de polémica aqui. Não incentivamos, nem condenamos. O recorrer à prostituição deve ser uma escolha livre por parte de quem a faz.
O que acontece é que algumas vezes nem esta forma de viver a sexualidade está acessível às pessoas com diversidade funcional. Por preconceito, ignorância e medo da diferença (deformidades do corpo por exemplo) as prostitutas(os), por vezes, não aceitam clientes com diversidade funcional. É aqui que agitamos duas das nossas “bandeiras”: informar e a assistência sexual.
Da reportagem da TVI de 2011 que partilharam, falavam na reportagem do afastamento das mulheres do deficiente por transmitir os seus sentimentos, como se pode mudar este paradigma? Como criar mais ligações? E menos preconceito.
Sobre esta reportagem, gostaria de dizer que está longe de ser fantástica, na nossa opinião. Acontece que em Portugal este tema é tão pouco abordado que quando é, há que aproveitar o que foi feito. Foi o caso, partilhamos porque é um dos raríssimos contributos para a temática. A jornalista ignora o paradigma da inclusão e adopta um discurso segregacionista que deve ser condenado em toda a linha. Fala das pessoas com diversidade funcional como se vivessem num mundo à parte referindo-se a elas como “essas pessoas”, “eles” e “deficientes”. Não seria grave se fosse a única a fazê-lo. Infelizmente não é.
E parece-me que o afastamento que se fala na reportagem resulta dessa mesma postura em relação à deficiência. Para muitas pessoas ditas “normais” a deficiência não é encarada de forma normal; como que define a pessoa ou seja, antes de ser pessoa é deficiente. De facto, como já referi, somos mais iguais que diferentes. Sendo  a Sexualidade sinónimo de entrega e partilha entre duas pessoas, perante um preconceito já existente e fortíssimo cresce o medo e a insegurança. O que urge fazer-se é falar disto sem rodeios e de forma muito natural. Todos somos ignorantes sobre algo, até termos informação a respeito.
Que propostas, e objectivos tem o colectivo para o presente e futuro? Qual é para si e para o colectivo a luta mais difícil de travar para terem uma sexualidade mais satisfatória?
Nós queremos fundamentalmente abordar e desmistificar a sexualidade em pessoas com diversidade funcional, os chamados deficientes. Já que a Sexualidade é o motor mais potente de crescimento pessoal, desenvolvimento da própria personalidade e das relações sociais. Para tal temos algumas ideias que poderão passar por sessões fotográficas, vídeos com testemunhos e escrever um livro está também no nosso horizonte. Isto para além da habitual actualização constante da nossa página. A luta mais difícil que travaremos estamos convencidos de que será a da Assistência Sexual. Queremos no futuro elaborar um contributo sério para esta questão.
O que é que leva as pessoas a pensarem que as pessoas portadoras de deficiência são assexuadas, ou têm excesso de desejo? Que mitos é que ainda existem? Como pretendem eliminá-los?
De forma muito objectiva a deficiência caracteriza-se pela diminuição de função e admito que seja essa a razão: a suposição de que a função sexual está também ela diminuída. O que é facto é que na maioria das situações não está afectada e quando está, existem estratégias e soluções para o casal ter uma viva sexual plena e satisfatória.
Naturalmente que a carência quando existe aumenta o desejo, isso é algo natural no Humano, tenha ele ou não deficiência.
Todos somos seres sexuais, e isso não é mito.
Informar e sensibilizar serão sempre palavras-chave.
Existe um antes e um depois do projecto ter sido iniciado, mas a luta sempre houve desde que tomaram consciência do quão é importante a sexualidade também para vocês. É também isso que querem mostrar e transmitir?
Queremos mostrar união, chega de cada um lutar por si e de forma isolada. Agora estamos juntos e juntos será mais fácil com certeza.
Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.
Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Miss B

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