Entrevista ao Projecto Pronto a Despir

O seu blogue é sobre sexo, e fala sobre o tema na sua maioria em tom irónico, e cómico, o que a levou e leva a falar sobre o tema dessa forma, e como é que surgiu a vontade de estudar sobre o tema, e abordá-lo para o público da internet?

O tom do blogue é frequentemente irónico, de facto, mas não foi planeado. A ideia inicial era a de transmitir um olhar cómico, quase anedótico, dos eventos sexuais. Naïf até. Fi-lo dessa forma por refletir as minhas conversas entre amigos (amigas sobretudo) sobre o assunto. São profundamente divertidas, sobretudo quando se referem a eventos possivelmente constrangedores. O tom é humorístico porque as situações o são e procuro ser-lhes fiel – apesar de também ficcionar um pouco.
Suponho que não tenha decidido “estudar” o tema, foi mais o tema que veio até mim. O facto de trabalhar em saúde sexual abriu caminho para que as pessoas conversassem mais comigo sobre sexualidade. Por tantas vezes ri às gargalhadas devido às descrições detalhadas de eventos sexuais falhados ou caricatos que achei que talvez estivesse na altura de tentar fazer os outros rir. Para descomplicar! O sexo (e falar de sexo) ainda é muito complicado.

Dia 31 de Dezembro publicou um poema sobre a mulher, que a mulher deve deixar de ser esposa, companheira por obrigação, fazer sexo por obrigação, que não deve sentir culpa, não ter pudor… o que falta hoje em dia à mulher é acreditar em si, lutar por si, conhecer-se melhor?

Não acredito em lutas de género, acredito em lutas de pessoas. Não falta nada à mulher nem nada ao homem… Falta igualdade entre indivíduos, independentemente do sexo, para que possam gozar da liberdade de serem o que desejarem, sem obrigatoriedade de cumprir um papel que foi construído por outros e que, na melhor das hipóteses, “encaixa mais ou menos”.
O que falta não é a mulher acreditar e fazer por si. Falta é fazermos por todos. As responsabilidades são do coletivo.

Numa publicação sua no obviousmag sobre o facto do sexo acabar quando o homem tem o orgasmo, para si de que forma é que o homem deve dar mais relevo e importância ao orgasmo da mulher durante o acto sexual de penetração heterossexual? Já há mais consciência de que o orgasmo da mulher também deve ser tido em conta no acto da relação sexual?

Não gosto muito da ditadura do orgasmo, no geral, sendo que a expressão “prazer” me agrada muito mais. O orgasmo é uma fase da resposta sexual, já o prazer tem significações mais complexas – que podem ou não coincidir com o orgasmo. Claro que o prazer da mulher é tido em conta – na comunidade científica, médica, na comunicação social -, o que não quer dizer que o modelo transmitido não se encontre ainda muito orientado para o prazer masculino.

Nesse texto falou sobre o modelo do sexólogo Pedro Nobre acerca do facto da eterna culpa judaica-cristã estar enraizada na seio feminino em relação ao seu prazer, como é que a mulher deve ver a sexualidade, e o prazer? A eterna culpa não é um problema para a mulher, e a aceitação do seu corpo, de que pode e deve ter prazer, da sua sexualidade, qual é a sua opinião?

Não tenho nenhuma resposta para como deve a mulher ver a sua sexualidade, visto que cada uma terá as suas idiossincrasias. Posso apenas referir que é importante que o prazer sexual seja encarado como um direito de qualquer pessoa, como é aliás apontado pela Organização Mundial de Saúde. O facto de as raparigas serem socializadas para o cuidado e os rapazes para o entretenimento, ou seja o facto de ainda se manter enraizado o duplo padrão sexual, dificulta a orientação para uma sexualidade saudável (embora não a impossibilite necessariamente). Suponho que o que tenho a dizer às mulheres é que tentem libertar-se do arquétipo de Eva, pecadora, culpada, destruidora da ordem…

No “ai a adolescência e a masturbação” fala sobre os jovens se desinibirem e se masturbarem em conjunto, e refere que os jovens costumam dizer “Já sou capaz (e tu não)”, de que forma é possível evitar que estas situações acabem em disfunções eréctil e ejaculação prematura? E quanto à imposição do sonho do amor, e afectividade, e esperarem passivamente por ele, obviamente sem a parte da descoberta do seu próprio corpo?

Nesse artigo relato algumas situações como a prática da masturbação em grupos de rapazes com um intuito competitivo e a ausência de discussão do mesmo tema pelas raparigas, a quem é passada a ideia que a masturbação é uma coisa feia, da qual não têm necessidade (mas os rapazes sim). O que não quer dizer que as adolescentes não se masturbem, mas provavelmente não falam sobre o assunto.
A maioria destas situações não acaba em disfunção sexual, felizmente. A nossa sexualidade é influenciada por múltiplos fatores, sendo que temos possibilidade de construir e reconstruí-la frequentemente. É importante que a sexualidade seja vivida como positiva. Sendo que não me parece que seja nem uma espera passiva, nem uma corrida para quem acumula mais feitos.

O pompoarismo foi um dos temas que abordou no seu blogue, na sua perspectiva o que é que o homem e a mulher beneficiam com o exercitar o pénis e a vagina? Porque não é um assunto discutido, promovido diariamente, para que seja praticado com mais frequência?

Pompoarismo refere-se apenas ao exercício da musculatura da vagina, sendo que algumas pessoas o praticam naturalmente e sem pensar nisso – o que pode ser bom e mau. Pode ser positivo sobretudo para ganhar controlo sobre os músculos implicados, mas não é uma prática que deva ser levada a cabo levianamente – é um treino que deve ser acompanhado e que não é adequado para toda a gente. Para pessoas especialmente tensas o ideal era que conseguissem relaxar e não contrair.
Julgo que não é muito abordado porque existem poucas pessoas que possuam conhecimentos aprofundados acerca de pompoarismo. Eu só conheço a Carmo Gê Pereira.

Em Maiorca uma jovem fez sexo oral 24 vezes para poder beber cocktails, o seu texto refere subjugação feminina, porque é que este tipo de situações ainda acontecem várias vezes, o que pensa sobre este tipo de actos em que as mulheres se submetem a este tipo de humilhações em troca de bebidas…?

O triste evento de “mamading” a que se reporta só se verificou uma vez e não tenho informações sobre os desenvolvimentos legais que lhe procederam. Acredito que a mulher em questão não estava na posse de exercer o seu direito à autodeterminação sexual e de agir em conformidade com este, uma vez que se encontrava provavelmente muito alcoolizada, o significa que houve abuso. Portanto o que julgo em relação a este episódio de aparente subjugação feminina é que foi um crime, apesar de não poder garantir que não se processou tudo de acordo com os desejos da jovem. Se assim foi, suponho que estava no seu direito.

Aborda o mítico canal 18 no seu blogue, pergunto se o tipo de pornografia exibida neste canal e a pornografia comercial que é desenvolvida para homens pode prejudicar o bom desenvolvimento da sexualidade masculina e ou feminina?

Não tem que prejudicar necessariamente o desenvolvimento de ninguém, mas julgo que ajuda a construir uma noção utópica do que é o sexo, visto que o desempenho dos atores masculinos está muito longe da média (a anos luz diria) e disponibilidade das atrizes mulheres para uma série de práticas é também utópica. Assim sendo, a interiorização deste tipo de modelos pode, de facto, contribuir para a perpetuação de mitos ou crenças disfuncionais acerca do que é ter relações sexuais com alguém. Mas como já vim dizendo, a possibilidade de corrigirmos isto vai surgindo nas conversas entre amigos, no acesso a informação correta e pertinente e através das nossas próprias experiências.

Gostava de deixar alguma mensagem para quem nos ler, sobre sexualidade, sexo, cuidados a ter…?

Sim. O sexo é uma coisa fixe.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Artur Santos

21 de Janeiro de 2015

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