Entrevista ao autor do livro “A Vila das Cores”

1. Diz em entrevista ao Dezanove.pt que é um “eterno sonhador”. O que é que sonha para o movimento LGBT e para as famílias/os cidadãos em geral não heterossexuais em relação à aceitação de toda e qualquer sexualidade e toda e qualquer diferença de todo o ser humano?
O meu sonho é que “toda e qualquer diferença”, em particular no que diz respeito à orientação sexual e à identidade e expressão de género, deixe de ser motivo de preocupação. A vida tem tanto para dar que é uma pena precisarmos de dedicar tanto tempo lutando pela igualdade de direitos e de oportunidades. Mas, enquanto tiver de ser, quero sobretudo que nos unamos, não apenas por uma ou outra causa, mas por muitas. O bullying, a xenofobia e o racismo, por exemplo, são “práticas” inaceitáveis. Também há muito a fazer em relação às pessoas portadoras de deficiência, ou de religiões minoritárias, ou de classes sociais desfavorecidas.

2. Refere que a educação e a criação literária complementam-se e têm um lugar especial . No seu caso, o seu livro é uma forma de educar?
O meu livro é, ou poderá ser, uma forma de educar, logo a partir do momento em que, mesmo sem lê-lo, as pessoas tomam conhecimento dele. É a minha maneira de dizer “as famílias podem ser diferentes na sua estrutura mas são iguais na sua essência” ou “sou homossexual mas isso não me diminui enquanto ser humano”. Essa é a mensagem mais bonita que, neste momento, quero passar.

3. Através deste livro, e da reacção e aproximação de quem o ler, quem esteja a favor da luta contra preconceitos, discriminações e outro tipo de violência física ou psicológica para com os homossexuais… acredita que será mais fácil cumprir os objectivos propostos no livro?
Evidentemente! Não foi por acaso que, durante a sua génese, me rodeei de várias associações, como a AMPLOS, a Não Te Prives e a Rede Ex Aequo, que fazem um trabalho brilhante em prol da comunidade LGBT (lésbica, gay, bissexual e trans) e colaboraram na revisão dos conteúdos do livro. Agora, a ideia é apresentá-lo em bibliotecas, escolas e livrarias, onde, de facto, me deparo com a realidade e posso intervir mais activamente. É incrível poder dar visibilidade a esta causa, com livros como o meu, ou outros, expostos nas lojas de todo o país.

4. Como professor, e como activista LGBT, o que pensa que está a falhar na formação, na educação e na sociedade para que, primeiro, as questões da aceitação do outro estejam a ser postas de lado e, segundo, para que em parte haja um enorme retrocesso nesse sentido? O que é que é preciso fazer “para ontem”, para que todos possam viver sem ódios ou violências?
Sempre fui uma pessoa muito atenta, desde criança. Enquanto aluno, senti que os/as professores/as têm receio de intervir, ou não sabem como fazê-lo, acabando por, mesmo sem querer, não tirar partido de todo o seu papel, que vai muito para além do ensino. O mesmo noto agora, já como professor, embora o meu percurso na educação seja um pouco diferente. Em relação à sociedade, não sei se há um “retrocesso”, apenas sinto que é necessário passar da teoria à prática. Há muitas campanhas de sensibilização e muitos testemunhos “bonitos” na televisão, mas o importante é implementar medidas (e políticas) concretas.

5. Durante a elaboração do livro, colaborou como membro do coro CoLeGaS e do grupo de teatro da associação ILGA Portugal, e teve de conhecer ainda melhor as famílias arco-íris. O que é que aprendeu com essa colaboração e o que é que tem adquirido de conhecimentos desde que começou a fazer o livro até agora que é entrevistado e que tem recebido críticas, opiniões, e tem apresentado o livro?
A ILGA teve, de facto, um papel preponderante e incontornável no meu percurso. Se, nos tempos de criança, sempre me dediquei imenso à escrita, na idade adulta isso já não acontecia até há bem pouco tempo – e o mesmo em relação à música e ao teatro. Nesse sentido, a parte “artística” e “criativa” da minha personalidade ressurgiu graças à associação, completamente. Por outro lado, a sensibilidade em relação a diferentes problemáticas e a noção do papel que posso desempenhar na sociedade sempre estiveram bem presentes, pelo que todas as experiências por que passei desde 2012 apenas me levaram a descobrir – e, sobretudo, a assumir – o “meu” modo de intervir. O facto de ter conhecido muitas pessoas LGBT e famílias arco-íris também foi importante, claro, mas sempre quis publicar um livro antes dos 30 anos, por isso era natural que isso viesse a acontecer de qualquer maneira. As críticas e o feedback têm sido positivos, mas a maior parte do “trabalho” foi feito ao longo de toda a minha vida e não apenas nos últimos 2 ou 3 anos.

6. Como já referi mais acima, é professor e é activista LGBT, e já colaborava com a ILGA. Em que é que tudo isto o ajudou neste projecto, a pensar e a fazer o livro?
Na verdade, e muito concretamente, a colaboração com a ILGA fez-me tomar conhecimento do concurso “Um Conto Arco-Íris”, que serviu de pretexto para recomeçar a escrever, sobretudo literatura infanto-juvenil. Não sei se o facto de ser professor (e activista, como diz) interferiu no processo, creio que sim, mas o principal veio de uma vontade, de um processo e de uma consciência muito pessoais.

7. Qual é o trabalho que ainda é preciso ser feito, quer a partir do seu livro, quer a partir dos projectos existentes da comunidade LGBT, para que deixe de haver indiferença e para que todos possam ver todas as cores que refere no livro?
Infelizmente, ainda há muitas pessoas que apenas “conhecem” uma única cor. Continuo a acreditar que cada um/a de nós pode fazer um pouco e dar assim o seu pequeno contributo. Neste momento, faço o meu “pouco” através do meu livro, “A Vila das Cores”, mas já o fiz através da música, do teatro, da fotografia. Todo o trabalho é bem-vindo e há muitas formas de fazê-lo. Queremos que a sociedade conheça o arco-íris e não viva apenas no preto ou no branco.

8. Este livro é destinado em grande parte às crianças, mas também é destinado aos adultos. É objectivo do livro também passar a mensagem que as crianças devem pensar nestas questões e tê-las como exemplos? Considera que este livro também é uma mais-valia na formação, na educação e nos comportamentos das crianças?
O livro pretende dar visibilidade às famílias arco-íris, demonstrar a possibilidade de amor entre duas pessoas do mesmo sexo, alertar para o direito de constituir família e valorizar a diversidade. Se é desde criança que se vai à escola, entendo que é também desde criança que se abordam estes tópicos. Em relação aos adultos, é bonito perceber que o livro tem servido para um/a adolescente assumir-se perante a família, ou um pai/uma mãe compreender a homossexualidade ou a bissexualidade de um/a filho/a. A abordagem e a exploração deste livro não são estanques e eu próprio fico surpreendido com as múltiplas possibilidades que ele oferece.

9. Disse em entrevista ao blogue Audrey Movie que a votação sobre a adopção de crianças por parte de casais do mesmo sexo não reflecte a opinião pública. Qual deve ser a resposta por parte do povo perante este atentado contra as crianças e famílias que não podem ter um presente e um futuro mais felizes?
As pessoas podem expressar a sua opinião recorrendo aos meios de comunicação social, juntando-se a movimentos associativos ou indo à própria Assembleia da República.

10. Qual é o futuro que pretende para Portugal para a luta que trava diariamente?
Quero um país mais justo, mais compreensivo, mais sensível. O meu livro contribui para essa ideia. Não é um livro para crianças, é um livro para pessoas de todas as idades e para todas as famílias.

11. Quer deixar mais alguma nota?
Leiam, oiçam música, vão ao teatro, alimentem a cultura e alimentem-se dela!

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista por: Pedro Marques
Correcção por: Catarina Isabel

20 de Fevereiro de 2015

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s