Entrevista a Vânia Beliz Psicóloga e Mestre em Sexologia

Considera que os portugueses já tem maior domínio sobre o conceito de sexualidade?

Sim, claro apesar de ainda existir muito desconhecimento e muitos tabus por desmistificar. Os portugueses ainda têm muita vergonha em falar da sua intimidade ou em procurar ajuda para resolver as suas dificuldades e problemas. A educação sexual ainda encontra muitas barreiras e nas escolas a atenção ainda se foca essencialmente numa visão um pouco negativa da sexualidade, o perigo da gravidez, das infecções, fala-se pouco ou nada de prazer. Há um longo trabalho para fazer.

Acha que os adolescentes e jovens adultos da actualidade estão mais bem preparados para iniciar a vida sexual do que as anteriores gerações? Porquê?

Acho que teriam todos os motivos para isso. A educação sexual apesar de ainda ser essencialmente focada na saúde reprodutiva, é uma porta para que se esclareçam mas a maior parte dos jovens ainda não consegue fazê-lo sequer junto da família. O recurso à internet, muito frequente, constitui um perigo uma vez que a maior parte das vezes não oferece uma informação credível.

Quais são os maiores perigos do sexo anal e por que razão a sua prática tem vindo a aumentar? Serão os preliminares e a vaselina meios que têm vindo  a desvanecer resistências à sua prática?

O sexo anal não constitui qualquer perigo se o casal estiver excitado e se forem usados lubrificantes adequados e tomados alguns cuidados. Os preliminares ajudam claro a conseguir o relaxamento necessário, os lubrificantes cada vez mais sofisticados substituem a antiga bisnaga de vaselina, hoje temos lubrificantes à base de silicone que garantem uma lubrificação mais eficaz…É preciso ainda que existam alguns cuidados na prática anal, por exemplo em relação à penetração, no caso de um casal heterossexual, não deve haver passagem directa do ânus para a vagina, uma vez que existem bactérias que podem causar algumas complicações.

Quais são os maiores erros que se cometem nos filmes porno?

Na minha opinião a banalização do sexo e ainda do papel da mulher, a ausência do preservativo e a ilusão que tudo dá prazer e durante um tempo indeterminado, a falta de preliminares…. Existe muita coisa falsa na pornografia, até os ângulos de filmagem podem aumentar em vários centímetros um pénis pouco abonado.

Acha que os maus hábitos e os erros dos actores e actrizes porno podem influenciar negativamente quem está a assistir?
Sim, claro. Algumas cenas são completamente irreais e não potenciam qualquer prazer servem apenas para excitar visualmente e não ensinam pouco na realidade.

Na sua opinião seria viável criar filmes pornográficos com o intuito de ensinar e de ajudar casais, indivíduos, …?

Sim, claro no entanto todos temos de perceber que cada pessoa é única e o que pode resultar para excitar e dar prazer a uma pessoa pode não resultar com outra.

Quais são as perguntas mais frequentes que lhe fazem no consultório?

As mulheres procuram-me essencialmente com questões relacionadas com o desejo e a dificuldade para  atingirem o orgasmo, os homens têm uma preocupação maior em relação à performance e querem demorar mais tempo e conseguir erecções mais eficazes.

Normalmente, o cidadão comum ri das perguntas que surgem na página de sexologia da revista Vidas do Correio da Manhã e da revista Maria, entre outras. Faz sentido essa ridicularizarão levada a cabo por parte dos portugueses ou são formas de manifestar que a sexualidade é ainda um tabu?
Existem muitas perguntas que revelam muito desconhecimento e temos de respeitar mesmo quando nos surpreendemos. Existem muitas formas de esclarecer os outros e públicos-alvo muito diferentes. Ainda existem pessoas que acham que se pode engravidar pelo facto de nos limparmos numa toalha usada por um homem ou que podemos engravidar no banho por acreditarem que os espermatozóides se deslocam em meio aquático, o importante é que ao pouco se desmistifiquem determinadas dúvidas mas nem sempre é fácil.

Como surgiu o gosto e a vontade de trabalhar em sexologia, desenvolvendo neste ramo a sua especialização?

Sempre achei a área da sexologia muito interessante e lembro-me de ter muita curiosidade desde sempre em perceber como é que as coisas aconteciam apesar de ter tido uma educação muito conservadora. Tive muitas dificuldades com a minha família quando optei por esta especialização e algumas pessoas apontaram-me o dedo quando comecei a trabalhar com material erótico e a aparecer na televisão.

Já aconteceu não ter conseguido esclarecer uma dúvida, mesmo depois de tentar explicar de milhentas formas, com desenhos e tudo?!

Não posso garantir que me percebam sempre mas tento sempre fazer tudo para que quem me procura saia o mais esclarecido possível, esse é o meu principal objectivo. Gostava de poder fazer muito mais, se pudesse só trabalhava nesta área mas até ao momento não foi possível. Gosto bastante de trabalhar com grupos na área do esclarecimento e por isso preparo um novo projecto que me permitirá chegar a muitas mais pessoas, estou desejosa.

Ainda existe muito desconhecimento acerca do uso do preservativo, lubrificantes, como se comportar a nível sexual com a parceira ou com o parceiro?

Sim, infelizmente…ainda há quem ache que o preservativo é um inimigo e que os lubrificantes servem apenas para a menopausa…devia-se falar deles muito mais cedo, levam-se os preservativos à escola mas poucas vezes se aborda realmente a importância do lubrificante e se explica quando poderemos precisar dele. Lamento que existam ainda muitas mulheres que não tenham uma vida sexual gratificante porque não conhecem a sua existência. O lubrificante devia estar em todas as mesinhas de cabeceira…
Como tem sido o trabalho desenvolvido nos Salões Eróticos? Como é que ocorreu essa ligação entre você e os Salões? Tem corrido bem? O Balanço é positivo em termos de ensinamento ao público em geral? Como foi a integração nos Salões?

Neste momento já não participo nos salões, foi uma experiência importante, contactei com realidades muito diferentes e tive a oportunidade de esclarecer muitas pessoas que me receberam muito bem. Foi uma experiência em algumas situações únicas que me fez aprender bastante. Ali existiam pessoas de diversas áreas, deste a actriz porno aos grupos de prevenção. Infelizmente o conceito não evoluiu e eu não quis estar associada à oferta que se tornou na minha opinião muito banalizadora, o sexo merecia mais.

Como acha que correu a participação no Curto Circuito?

O Curto Circuito faz-me aprender realmente as dúvidas e preocupações dos mais novos, recebi até ao momento centenas de e-mails com questões que denotam em muitas situações que precisamos de investir muito mais no aconselhamento aos mais novos. Gosto muito da televisão e da forma como conseguimos chegar às pessoas, estou desejosa de poder voltar.

Qual é a sua opinião para o facto de haver tantos divórcios em Portugal? O que se pode fazer para que não hajam tantos divórcios ou para que os relacionamentos sejam mais estáveis?

Deve-se parar de se vender a mentira que seremos felizes para sempre…actualmente as pessoas andam desmotivadas, existem problemas graves que afectam as famílias e é claro que a intimidade sai muito prejudicada. É difícil haver desejo quando nos preocupamos com coisas tão básicas como ter dinheiro para levar o filho ao médico ou para comer…Fora do panorama de crise acho que os casais hoje já não estão para viver infelizes e quando algo não corre bem já sentem liberdade para fazerem as malinhas e partirem, no entanto acho que devemos sempre fazer o possível para ir resolvendo as dificuldades para evitar as rupturas, o divórcio ou as separações são quase sempre, na minha opinião, desgastantes, já para não falar da frustração que sentimos por ter sido um investimento que no final falhou.

Como vê o contraste entre o porno Nacional e o porno internacional?

Há bom e mau como em todas as coisas, não somos melhores nem piores do que a maioria que existe. Infelizmente, apesar de existirem alguns projectos lá fora muito interessantes, como é o caso do trabalho da realizadora Erika Lust, a verdade é que a pornografia sem qualidade continua a vender muito…aqui e lá fora…
Conhece o programa Dinamarquês Red Zone, em português Academia do Sexo? Se, sim acompanhou? Podia resultar em Portugal?

Acho que teria de ter um formato muito diferente, não estamos ainda preparados para isso, teria sempre de ser algo muito cuidado e os conteúdos nunca poderiam ser tão explícitos. Teria de haver muita naturalidade e abordar o sexo dessa forma poderia ser mal interpretado. Existem colegas que já abriram várias portas mas há falta de pessoas que apostem nesta área. Este formato não acredito que resultasse mas existem algumas tipologias que poderiam ser muito interessantes.

Corrigido por: Paulo Pereira
Entrevista por: Pedro Marques

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