Entrevista a Sílvia Gil

Quando é que te surgiu o gosto e a vontade de trabalhares no BDSM?

Desde muito cedo que tinha tendências em dominar e fazer valer os meus desejos.
Em todos os meus relacionamentos existia algo tipicamente fetichista ou do foro Bdsm, vendas, lenços e bondage, etc.
Recordo que houve uma fase da minha vida em que gostava de narrar histórias e personagens e assim aumentar a excitação do meu parceiro.
Em 2005 conheci o mundo do Swing mas as trocas não eram o meu estilo, acabava sempre por fazer algo sádico nos clubes.
Comecei a fazer algumas animações e partir daí foi um desenrolar de eventos.

Foi um caminho duro e longo até conseguires algum respeito e teres espaço?

Quando apareci na comunidade em 2006 já tinha uma loja temática.
Através de um anúncio para ghost writer conheci um realizador de filmes de Bdsm e já tinha feito trabalhos.
Acharam que era alguém falso, houve alguma resistência mas ainda cá estou!

De entre o trabalho nos salões eróticos portugueses (Porto) e espanhóis (Barcelona) e nos filmes em que participaste, que histórias tens e gostarias de contar?

No salão em Barcelona começamos a notar que o stand em frente copiava as nossas apresentações, chamamos a atenção aos hermanos Espanhóis mas não acreditaram.
O Amo Dominik tem por hábito enquadrar Yoga nos shows, coisa que nada tem a ver com BDSM.
Quando o stand em frente vai descobrir uma miúda para fazer yoga no palco deles, ficamos mesmo com a certeza. Era inegável.
No Sábado do salão estava eu e a Ama Monika com 2 straps “abusando” da Sissy Maid no palco, o Amo Dominik a fazer yoga a beber Jack Daniels, os Porn stars apadrinhados pela Ama Monika com uma miúda em baixo do palco em grande algazarra, tudo a acontecer em simultâneo.
Em frente, o outro stand tinha parado. Apagaram as luzes e não apareceram mais.

Como se deu o salto para os salões eróticos?

Em 2007 já tinha feito um salão pela Genuine Films.
Em 2012 regressei com a Bdsm4Utopia ao Salão Erótico do Atlântico.
Daí a ir a Barcelona foi simples, o organizador simplesmente convidou e juntei-me à equipa da Ama Monika.
Somos excelentes a trabalhar todos em conjunto.

Para ti é a melhor forma de exibição e de experimentação?

É uma das formas.

No vídeo para o canal Q dizes que só os não curiosos te compram material mais específico, consideras que ainda existe algum receio em explorar outras formas de prazer principalmente o BDSM?

Os iniciantes não compram material mais hard. Gostam de um plug mais bonito e pequeno, de um chicotinho suave, as típicas algemas e uma venda.
É um crescer, um evoluir. Das algemas passam para cordas, cordas têm um nível de dificuldade bem maior apesar de não parecer.
Tal como eu não me iniciei a fazer plays de agulhas, também tive de evoluir e começar a usar material mais especifico e cada vez mais difícil de encontrar.

Sentes que hoje há uma maior abertura e receptividade por parte das pessoas?

Nunca senti resistência, mas eu também tenho um modo de desdramatizar as práticas, mostrando que todos têm algo fetichista ou de kinky.

Nos espaços dos salões eróticos fazem algum tipo de sensibilização para novos públicos, quer de compreensão/aceitação, quer de experimentação?

Sim, apesar dos nossos plays serem bastante hard, tentamos chamar o publico e com eles somos brandos.
Umas cordas, um flogger. Eles aceitam bem.
Como foi participares em pelo menos 5 filmes?

7 ou 8 já, enervante.
Muita responsabilidade. Uma vez chorei por me sentir mesmo com imensa responsabilidade em cima. Um casal estrangeiro, um país estranho, não sabia como seria e não gosto de sentir que tudo depende de mim.

Depois de te apaixonares pelo BDSM como é que surgiu o gosto e a vontade de produzires o próprio material e criares uma marca?

Tinha um clube para inaugurar e morava ao lado de uma sexshop.
Precisava equipar o espaço com muitas peças e torná-lo bem apelativo.
A menina da loja apresentou-me um segundo ela chicote… (uma porcaria, desculpando o termo) e a partir daí meti mãos à obra e criei.

Num vídeo que fizeste para a fotógrafa do Porto Daniela Alves dizias que gostas é de dominar pessoas inteligentes. Qual é o gozo? É por sentires que o desafio é maior e tens de te esforçar mais?

Qual seria o prazer de dominar quem não oferece resistência?
Gosto de quem me dá luta, a recompensa é maior.

Quanto tempo é que levaste a aprender as técnicas e conhecer os acessórios? Como é que cada um pode aprender a fazer e praticar em casa?

Muitos anos, estou no meio desde 2006, é um acumular de informação e de experiências.
Recomendo que leiam muito. Que vejam e que testem a 2.
Crescer a dois é o melhor e o ideal. Falar, dialogar, saber se o submisso está bem e este deve falar caso não esteja.
Os heróis estão mortos e no Bdsm não queremos heróis.

Que mitos é que existem? Como é que é possível desmistificá-los?

Que Bdsm é só dor. Não é nem precisa de ser. Dominação é psicológica.
Bondage é restrição de movimentos, novamente não precisa ser dor.
Não creio que seja possível, ainda há mitos no sexo baunilha e toda a gente o faz desde o inicio dos tempos.

Como foi a experiência de ser dominadora profissional?

Ainda é… É necessária, liberta os submissos que não podem servir sempre e dá-lhes a segurança de que não vou interferir na vida privada deles.

Para além do prazer de ser dominado, de dominar e do castigo, que mais prazeres é que se sente no BDSM? O que te dá mais prazer?

Saber que tenho fãs, que me admiram e que fariam tudo para me agradar.
Odeio rebanhos e odiava ser igual à maioria. E as emoções e sempre escalar no grau de dificuldade.

Quais são os maiores riscos na prática e que cuidados é que se devem ter?

Há riscos de ferir o Dominador e estes ninguém fala. Eu mantenho o submisso sempre calmo, porque se reage a um movimento meu pode-me ferir.
Escolher bem com quem se faz uma prática, uma suspensão mal feita por um Dominador inexperiente, que pressione partes do corpo de um modo errado pode causar danos irreparáveis no submisso.
A cera quente demais, não testada pode causar queimaduras.
Eu tento sempre ensinar, e testar antes de deixar outros errarem ou eu errar.

No teu antigo blogue e no longínquo ano de 2006 referias que para algumas pessoas o facto de serem amantes do BDSM significa serem doentes. Mas o que vocês amantes fazem não é por prazer consentido? O que é que ainda faz com que haja pessoas a pensarem assim acerca desta prática e sobre outras práticas de sexualidade?

São, Seguro e Consensual são as premissas chave e basilares do BDSM.
Sim a cada passo ainda ouço essas deixas da malta ser doente.
A zoofilia divide opiniões, no Bdsm há quem queira ver enquadrado e aceite e os Bdsmers não aceitam porque o animal não consentiu.
E os animais têm direitos.
A castração, a nível legal levanta imensos problemas. E fetiches como roman showers e scat continuam a causar repulsa a 80% dos Bdsmers.
Haverá sempre divergências. Até no seio dos próprios Bdsmers.

Para além de terem profissões normais, da porradinha, de serem dominados, ou dominarem e de serem escravos, também têm uma sexualidade normal, certo? Isso faz de vocês os tais doentes?

Não tenho profissão fora do Bdsm, tenho estudos e formação fora do Bdsm.
E não entendi bem a pergunta mas os doentes para mim são os pedófilos, os violadores, os abusadores…

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Miss B

29 de Setembro de 2014

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