Entrevista a Nicole Daedone

Existem mulheres que têm orgasmos durante o sono – e, eventualmente, acordam ao tê-lo. Existe alguma explicação para tal?
O corpo de uma mulher já é, por si só, naturalmente orgásmico, ainda assim eu conheço regularmente mulheres que reprimem o seu desejo com uma força imensa. No sono, as inibições que estas mulheres sentiriam, desaparecem. Quando isso acontece é mais fácil os seus corpos se entregarem ao desejo e à experiência do prazer. Orgasmos durante o sono acaba por ser um momento em que elas libertam energia sexual. Por outro lado, mulheres que ‘cultivam’ o orgasmo podem sentir que ainda têm excesso de energia e acabam por libertar durante o sono e os sonhos. De qualquer maneira, eu digo ‘Aproveitem!’.
Acredita que a maioria das mulheres conseguem atingir o orgasmo durante a relação sexual?
Acredito que as mulheres conseguem entrar num estado orgásmico através de várias actividades – a melhor maneira que conheço é através da Meditação Orgásmica (Orgasmic Meditation (OM)). OM cultiva o orgasmo da mulher e ajuda-a a construir sensações sexuais no seu corpo. Enquanto que algumas mulheres conseguem atingir o climax através das relações sexuais, é muito menos comum para elas experienciar o orgasmo assim comparado com actividades que incluem estimulação directa do clitóris. Na Meditação Orgásmica o clitóris é massajado, deliberadamente, com o dedo indicador – o lado mais habilidoso do corpo humano. Por entre atenção precisa e refinada, o climax consegue ser atingido mais fácilmente. Porém, na verdade, o climax não é o objectivo da OM. Em vez disso, nós encorajamos as pessoas, ou os participantes, a desfrutar da liberalidade do caminho orgásmico.
Acha que hoje em dia existem mais mulheres a masturbarem-se?
Eu não posso dizer que existem mais mulheres a masturbarem-se do que no passado. Mas eu sei que muitas mulheres estão extremamente insatisfeitas com as suas experiências sexuais. No meu trabalho, eu encontro inúmeras mulheres que estão à procura de maneiras para se ‘nutrirem’ sexualmente. Muitas delas já tentaram todas as maneiras convencionais – masturbação, vibradores, relações sexuais – e continuam a sentir falta, uma ‘fome’ por algo mais profundo e intenso. Eu acredito que dada a nossa natureza límbica, toques partilhados pelo parceiro, como o que ensinamos na OM, é uma maneira mais satisfatória para alimentar este tipo de ‘fome’.
Qual é a sua opinião acerca da mutilação sexual?
Eu quero que todas as mulheres tenham acesso à nutrição sexual e eu adoraria ver um mundo em que todos tivessem direito a isso.
Quando te apercebeste que o teu caminho profissional tinha que passar pela sexualidade e o seu ensinamento?
De início, eu nunca teria pensado sequer que o meu caminho me teria levado até ao domínio da sexualidade. Eu comecei como professora de comunicações entre géneros. Eu sempre me interessei pela maneira como homens e mulheres se relacionavam através da linguagem, mas o sexo em si não era o meu ponto central. Porém, um dia, eu fiz um teste para a turma, perguntando-lhes o que lhes interessava mais e o que eu ouvi, uma e outra vez, durante as respostas, foi algo do género “diga-me qual é o problema do meu sexo”. Todos queriam uma resposta a isso. Eu inspirei-me nisso para estudar cada vez mais, e mais aprofundadamente, para trazer alguma sanidade de volta a um mundo que está tão confuso acerca do sexo. Esse foi o início da minha caminhada.
Como tem sido a reacção do público para com as suas aulas e após lerem os seus textos?
Ambos os homens e as mulheres são igualmente ‘esfomeados’ no que toca a este tipo de ensinamentos. Desde que ‘Slow Sex’ foi publicado no ano passado, tivemos a imprensa vinda de todo o mundo – desde Itália até Austrália. Claro que existem algumas pessoas que se sentem confrontadas com tamanha honestidade e discussão aberta acerca de sexo e relações. Este tipo de coisas mexe com a nossa vergonha e incerteza mais profunda. É natural. Embora tenho ouvido cada vez mais acerca de pessoas que se sentem aliviadas por terem uma nova perspectiva e uma aprovação desinibida acerca do seu desejo e sexo.
Toda a informação errada que foi e é transmitida pelos filmes pornográficos é considerada, para si, como um calcanhar de Aquiles?
Pornografia ensina, na maior parte das vezes, que o quanto mais rápido e forte melhor é. Enquanto que pode ser considerado prazeroso em doses limitadas, se se continuar a praticar este tipo de sexo é uma maneira rápida de dessensibilizar os nossos genitais. No OM nós encorajamos as pessoas a usar o toque suave de maneira a experienciar uma gama alargada de sensações – de suave até ao intenso. Eu digo, abrandem, aprendam a conhecer o vosso corpo e do parceiro, depois continuem a partir daí.
 Muita gente pergunta-lhe como encontrar o Ponto G?
Muitas mulheres e homens são curiosos acerca do Ponto G. Quando começam a sua exploração sexual normalmente não possuem a informação necessária sobre a anatomia do clitóris, por isso desconhecem e não compreendem que os dois estão interligados. A partir da glande do clitóris (localizado onde os lábios interiores se unem), o clitóris divide-se em dois e desce pelas paredes vaginais. É precisamente na parede vaginal mais abaixo que o Ponto G está localizado – portanto quando alguém pressiona o Ponto G estão essencialmente a pressionar os nervos bifurcados do clitóris.
Em Portugal os progenitores costumavam contar às suas crianças – quando eram confrontadas com a pergunta ‘de onde vêem os bebés’ – que uma cegonha os trouxe no bico. Isto também acontece na América ou têm outro tipo de ‘história’?
Nós temos histórias semelhantes, embora hoje em dia o ensino sexual básico vai muito mais além. Fazer chegar a informação básica e essencial aos mais jovens é uma das coisas mais saudáveis que nós podemos fazer!
Quais são as maiores lacunas na sexualidade, hoje em dia?
Parece-me que, sendo eu uma mulher ocidental, conseguimos atingir uma maior igualdade ao dos homens em muitas áreas. Ainda assim não nos sentimos realizadas. No meu escritório consigo ouvir imensas mulheres a cantar aquilo que acabámos por intitular ‘o mantra das mulheres ocidentais’. É algo deste género ‘Eu como demais, eu bebo demais, eu consumo compulsivamente, eu trabalho demais…’. Apesar de alcançarmos estatutos na sociedade, as mulheres não estão satisfeitas e tentam encontrar maneiras de preencher esse vazio. Muitas delas nem sequer se apercebem que o vazio está lá devido a uma falta de nutrição sexual. Enquanto que até podem ter uma vida sexual robusta, elas não estão a viver uma vida sexual que as satisfaz plenamente – o tipo de sexo feito especialmente para o corpo da mulher. Elas acabam por construir uma energia sexual sem potência nos seus corpos que é experienciada como stress. Apesar de todos os esforços para aliviar o sucessido, isso não desaparece até o problema ser confrontado directamente. É aí que a Meditação Orgásmica entra.
Quais são as melhores maneiras que, para si, existem para atingir um orgasmo melhor e mais longo?
Para experienciar um orgasmo mais profundo e rico de sensações, eu recomendo que as pessoas comecem por abrandar. Aprendam a sentir as variações de sensações que existe nos vossos corpos. Experimentem diferentes formas de toque. Nas nossas aulas de coaching no OneTaste, nós encorajamos as pessoas a não irem mais além, ou mais rápido, do que aquilo que conseguem enquanto estão focados e presentes na acção. Logo que aprendam estas regras bases, irão ficar mais atentos ao parceiro e aos seus próprios corpos. A partir daqui podem ir para os pontos altos e baixos da experiência sexual sem estarem preocupados com um objective único. Quando o corpo está desperto, nós dizemos que está em orgasmo. Orgasmos não é um destino, é sim a experiência durante a viagem completa.
Como é que o ‘One Taste’ surgiu?
Após ter deixado a minha posição como professor, eu comecei um estudo incentivamente um estudo pessoal acerca da sexualidade que durou imensos anos. Depois, há 8 anos atrás, tive uma necessidade fortíssima de trazer à luz pública o que tinha aprendido. Eu tive que estudar em locais muito isolados. Eu queria que todos os outros tivessem um fácil acesso à Meditação Orgásmica. Uma professora minha encorajou-me fortemente, reconhecendo que o mundo tinha que ouvir estes ensinamentos a partir de uma mulher. Desde aí que esta tem sido a minha missão: levar a prática do OM para pessoas em todo o mundo.
Tem conhecimento se esta técnica tem sido bem aceite pelos outros?
A Meditação Orgásmica está a espalhar-se rápidamente. Todos os meses mais de 300 pessoas aprendem a prática apenas a partir dos produtos vendidos no website da OneTaste. Hoje em dia temos formadores da OneTaste em mais de 15 cidades da América, bem como na Suécia e Israel. No Facebook temos uma comunidade florescente de praticantes provindos de todo o mundo que partilham as suas percepções e experiências acerca da prática.
Acha que com o ‘Symbian’ a mulher conseguir atingir o orgamos mais rápidamente do que com o uso do dildo?
Não estou familiarizada com o symbian, mas sei que algumas mulheres conseguem atingir o orgasmos com penetração (como explicado acima). Toque directo e deliberado do clitóris, como praticado na OM, é o que mais é necessário para gerar as sensações do orgasmos no corpo.
Acha possível ajudar alguém a atingir o orgasmo usando reflexologia ou com estimulação do corpo sem haver contacto genital?
Não estou familiarizada com o uso desses métodos para atingir o orgasmos, mas certamente que algo que ajude a relaxar o corpo e prepará-lo para Meditação Orgásmica é maravilhoso.
Costuma dar palestras em escolas secundárias e universidades? Se sim, que maior tipo de perguntas e dúvidas é confrontada pelos estudantes?
Todos os nossos programas são para pessoas acima dos 18 anos e visitamos universidades. O ano passado dei uma palestra a uma audiência com mais de 300 estudantes numa Universidade de Washigton State. A pergunta mais frequente  que ouço dentro deste grupo etário é ‘Como posso ter o tipo de sexo que quero?’. Ouço neles um certo tipo de esperança e incerteza que provém da falta de uma educação sexual inteligente. Já falei com inúmeras mulheres no meu escritório e todas elas dizem ‘nunca ninguém nos ensinou isso!’. Ambos, homens e mulheres, sentem-se alíviados por ouvirem que existe uma outra forma, e mais satisfatória, de se ligarem sexualmente com o parceiro.
Costuma receber perguntas por email de adolescentes?
Todos os nossos programas são para pessoas com mais de 18 anos, portanto não trabalhamos com adolescentes.
Acha que hoje em dia existem mais pessoas interessadas na sexualidade?
Eu penso que existem mais conversas dinâmicas no que toca ao sexo, em todo o mundo. Como cada vez mais temos mais necessidades básicas e começamos a senti-las a virem ao de cima, as perguntas para uma maior satisfação também surge. Como podemos nos interligar? Como podemos viver a partir dos nossos desejos? Como obtemos a energia que precisamos para vivermos mais criativamente ainda mais responsávelmente? Parece que estamos, finalmente, preparados para falarmos sobre sexo duma maneira aberta e inteligente. O mundo está com fome disso.
Considera que podemos ensinar sexualidade e até mesmo como obter um melhor orgasm, a partir de filmes?
Na OneTaste usamos vários e diferentes formatos para partilharmos a prática da OM com as pessoas. Em cursos pessoais, coaching blogs e videos online são maneiras que as pessoas conseguem acessar aos ensinamentos. Os vídeos na nossa página são reproduzidos e guardados mais do que 300 vezes por mês!
Podemos esperar que os seus livros sejam postos à venda em Portugal?
Espero que sim! Vamos publicar este ano na China. Assim que um editor em Portugal se sinta preparado, estaremos aí.
Quem entra mais em contacto consigo para tirar dúvidas: homens ou mulheres?
Mulheres e homens procuram, por igual, a OneTaste. As mulheres vêm à procura de uma maneira de melhorar o seu poder e usá-lo. Elas sentem que o seu sexo está, de certa maneira, conectado a isso e têm razão! Os homens andam, na maior parte das vezes, à procura de entenderem melhor as suas parceiras, conectarem-se e brincarem mais com elas. Eles querem saber como entrar num jogo a 100% com uma mulher excitada.
Na América, onde vive e trabalha, existem muitos homens que nem sequer questionam a sua sexualidade pois acham que já sabem tudo?
É verdade que alguns homens sentem-se profundamente intimidados em aprenderem algo acerca do sexo. Sentem receio de se sentirem ignorantes e de serem, posteriormente, desaprovados. Como mulheres não temos feito um bom trabalho no que toca a aprovarmos graciosamente os homens e eles sentem-se hesitantes a baixarem a guarda. Isto é parte do que ensinamos às mulheres – como aprovarem os seus companheiros e reconhecerem que os homens querem, mais do que tudo, fazer as mulheres felizes. Temos tantos homens maravilhosos na OneTaste que fizeram a árdua tarefa de baixarem a guarda. E temos mulheres que aprenderam a amar e a aprovar os seus companheiros. São homens fantásticos para se ter por perto pois estão dispostos a irem aonde quer que seja com uma mulher – eles não têm mais que se protegerem, por isso podem jogar em grande.
Uma Mestre em Sexologia de Filmes disse que quando se cospe na mão e se toca na área genital, levamos bactéricas até lá. Então e quando se cospe – como normalmente vemos em filmes porno – directamente no órgão genital? Não é a mesma coisa?
Não sei dizer nada sobre esse assunto.
Na minha humilde opinião, eu penso que existem diferenças no que toca ao que um homem e uma mulher querem durante a relação sexual. Como é que um casal consegue lidar com isso e encontrar uma maneira para que funcione para os dois?
Em última análise, eu julgo que as pessoas querem alimentar uma fome ainda mais ‘faminta’. Temos diversas estratégias para chegar aí. Quando falo com homens e mulheres ouço continuadamente que as mulheres sentem a falta, e querem, toque e os homens querem dá-lo. Quem poderia ser mais feliz do que um homem com uma companheira excitada? Nós ensinamos os homens a conectarem-se às mulheres enquanto que elas aprendem o processo de se abrirem ao sexo. No processo do seu ‘desembrulhar’, ele fica consciente, também, do quanto mais existe no sexo. Todos saem beneficiados!
Entrevista por Pedro Marques
Tradução e correcção por Sílvia Dias

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