Entrevista a Marisa Santos

Marisa é investigadora do Sex Lab e fez o estudo de Mestrado Integrado em Psicologia, tendo como área de especialização em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, sobre “O Papel das Cognições Sexuais Positivas e Negativas no Funcionamento Sexual Feminino ”. Antes de mais, para os leitores que não saibam o que são cognições sexuais, o que é que significa e o que é a que a motivou a investigar este tema?

Trocando um pouco a ordem na resposta. Quando me foram sugeridos os temas para a tese de mestrado, o conceito apresentado não foi cognições sexuais, mas fantasias sexuais, explico de seguida o porquê da alteração do conceito utilizado.
O tema fantasias sexuais suscitou-me muito interesse, porque é um tema pouco estudado, mas que pertence à sexualidade de grande parte da população. Então eu pensei logo “qual é o papel que as fantasias desempenham na sexualidade? Como é que as fantasias podem contribuir para uma sexualidade mais saudável?“. A curiosidade para responder a estas e outras questões e outras que surgiram e continuam a surgir é o que me motivam para estudar este tema.

Já todos conhecemos o termo fantasia sexual, este conceito é definido na literatura de várias formas “pensamentos e imagens sexuais”, “experiências secretas imaginadas pelo indivíduo”, entre outras, no entanto na maioria das definições estão subjacentes estados afectivos positivos, o que nem sempre acontece, uma vez que há pessoas que sentem, por exemplo, vergonha e/ou culpa ao experienciar uma fantasia sexual. Desta forma houve a necessidade de encontrar um conceito neutro que representasse todas as cognições de teor sexual, o conceito cognições sexuais.

Em que é que o papel das cognições pode influenciar a sexualidade, quer negativa quer positivamente? Qual é a importância das cognições para o funcionamento sexual da mulher? O que é que concluiu com este estudo? De que forma se podem anular as cognições negativas?

Com os resultados que obtive do meu estudo pude perceber que a frequência de cognições sexuais positivas aumenta os níveis de desejo e de excitação, facilita a lubrificação e o orgasmo, e funciona como um factor protector para a dor sexual e o vaginismo, ou seja, contribui de uma forma geral para um melhor funcionamento sexual e para a satisfação sexual. As cognições sexuais negativas não mostraram qualquer influência significativa, pensamos que possa ser devido à reduzida frequência das cognições sexuais negativas, o que é bom, pois mesmo que existam parecem não ter efeito considerável no funcionamento sexual.

Tendo em conta os resultados supracitados, considero que é importante que as mulheres com dificuldades sexuais, nomeadamente nas dimensões abordadas (desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, dor e vaginismo), recorram ao auxílio de cognições sexuais. A frequência de cognições sexuais positivas funciona também como um factor protector do desenvolvimento de disfunções sexuais.

Como já referi as cognições sexuais negativas são pouco frequentes e não têm uma influência significativa no funcionamento sexual da mulher. As cognições sexuais podem surgir de forma espontânea ou de forma deliberada, se por um lado elas surgem, por outro é o próprio individuo a evocá-las. Eu não sou muito apologista de se tentar anular cognições, em vez disso apoio a exploração das nossas emoções associadas a essas cognições sexuais negativas, ou seja, se perante uma cognição sexual o indivíduo sente vergonha, devendo explorar essa emoção, o motivo que o levou a sentir vergonha, por exemplo. Considero que esta exploração da própria sexualidade é muito mais benéfica para o indivíduo a longo prazo. Mesmo que o leve a experienciar estados afectivos menos positivos, do que anular cognições sexuais negativas.

Participou neste seminário: International Seminar: Research in Human Sexuality abordando as cognições sexuais, aprofundou a sua investigação e análise sobre o tema. Que mais conclusões tirou? O que mais aprendeu para abordar e discutir nesse seminário?

Neste seminário foram abordados diversos temas dentro da sexualidade, nomeadamente os resultados mais recentes dos últimos estudos realizados no SexLab. As conclusões que apreendi foram, sobretudo, as apresentadas pelos investigadores convidados. De resto foram as minhas hipóteses sobre o que seria interessante estudar perante estes ou aqueles resultados.
Uma coisa que se alterou em mim neste curto período de tempo na psicologia, e ainda mais curto, na investigação em sexualidade, é chegada de conclusão a algo, esta é uma área muito subjectiva e temos de ter muito cuidado para não cair em juízos de valor ou em ilações erradas.

Conferência “The Psychophysiology of Sex” – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, participou também nesta conferência. Para si o que é a psicologia do sexo, e como pode influenciar o sexo e a sexualidade? O que adquiriu de conhecimento ao estudar esta temática?

O nosso cérebro é um órgão de grande complexidade, com grandes enigmas acerca do ser humano, a investigação nesta área é fundamental para uma melhor compreensão dos mecanismos a ele inerentes. No que diz respeito à sexualidade, a sua função também é fundamental, uma vez que regula a actividade sexual. Esta conferência abordou sobretudo esta regulação da actividade sexual, entre a excitação e a inibição sexuais.
Esta foi das primeiras conferências na área da sexualidade a que assisti. Considerei que foi muito útil compreender melhor esta dualidade e também ter um espaço para reflectir. Esta conferência coincidiu com o início da minha paixão pela investigação na sexualidade e até então tinha absorvido muita informação, sem ter muito tempo para reflectir sobre a mesma.

Reunião Científica “Investigação em Sexualidade Humana: Passado, Presente e Futuro” – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, também esteve presente nesta reunião. Tendo em conta o que já se estudou, investigou e ensinou, o que pode contribuir para o presente e para o futuro? O que é que a sociedade/população precisa de aprender para que a sexualidade humana se desenvolva cada vez mais? E qual é a importância para si de ter participado nesta reunião? O que é que contribuiu para o seu saber e a sua aprendizagem na sexualidade?

Respondendo às duas primeiras questões em simultâneo, considero que a sociedade necessita de aprender a viver com a própria sexualidade com naturalidade, pois acredito que quando isso acontecer também vai ver a sexualidade do outro com mais respeito também. E é sobretudo aqui que eu gostava de contribuir como pessoa que valoriza a sexualidade e que defende que esta é uma dimensão muito importante da nossa vivência. Sinto que como investigadora também posso contribuir, pelo que irei continuar a investir nesta área.
Nesta reunião foram debatidas várias temáticas dentro da sexualidade em diversas mesas, nomeadamente as disfunções sexuais e a agressão sexual. Na mesa principal debateu-se sobre a importância da investigação na sexualidade. Este foi outro espaço de partilha e debate que foi de grande utilidade para o meu crescimento nesta área.

Como já referi, é investigadora da SexLab e tem vários interesses sobre sexualidade. O que gostaria de investigar no futuro?

Para já pretendo fazer o estudo dos homens, ou seja, perceber o papel das cognições sexuais positivas e negativas no funcionamento sexual masculino. Estando bastante curiosa para ver os resultados deste estudo.
Num futuro mais distante, pretendo investir na investigação e intervenção em educação sexual, uma intervenção mais antecipada poderia prevenir várias problemáticas.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.
Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.

01 de Junho de 2015

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