Entrevista a Emily Prior

Entrevista a Emily Prior Executiva Directora do Center para a Sexualidade Positiva. Professora, investigadora, sexóloga…

Em Dezembro fez um artigo sobre o facto de nas escolas os educadores ensinarem que só a monogamia heterossexual é que é o único tipo de relação que se deve alcançar, e que nas universidades os jovens tecem muitos comentários homofóbicos. Porque é que este tipo de mentalidades ainda persiste, e este tipo de imposições ainda acontecem?

1. Penso que o público em geral ainda vê tudo o que não seja hetero-normativo como uma coisa má, vil ou, errada, de uma maneira ou de outra, em vez de perceber que os seres humanos, tal como o todo o resto no universo, são diversificados. A sexualidade não é uma coisa fácil de definir, transparente ou estagnada. Temos de ultrapassar a ideia de que é algo de que se deve ter medo ou que se deve condenar.

Que importância tem a aprendizagem nas questões da abertura sobre os vários estilos de vida não monogâmicos consensuais, e na aceitação da homossexualidade?

2. Mais uma vez, temos de aceitar que as pessoas são diferentes de múltiplas maneiras e que não há problema nisso. Tal como podemos ter uma série de tons de pele, cores ou texturas de cabelo, formas e tamanhos, a nossa sexualidade e o nosso género também variam consideravelmente. É isso mesmo que torna a vida interessante.

Referiu também que se devia imaginar uma sociedade onde todas as pessoas são aceites conforme a sua forma de viver. Isso é possível de acontecer? Que caminhos se devem percorrer até alcançar essa sociedade sem preconceitos?

3. Os seres humanos gostam de designar o “outro”. É fácil decidir que “aquelas pessoas ali” são más e estão erradas e que “nós somos os bons”. É mais difícil aceitar que a diferença seja normal e não uma coisa má. Não penso que alguma vez viveremos totalmente sem preconceito, mas espero que consigamos chegar a um ponto em que os problemas que alguém possa ter com a minha identidade ou com a maneira como me apresento ao mundo não tenham impacto na minha possibilidade de viver ou de amar.

Quando é que que começou a estudar relações poliamorosas, BDSM, e sobre sexualidade? O que é que a seduziu sobre a não normatividade, e na aprendizagem duma vida melhor através da sexualidade? Em Portugal o Poliamor já tem uma plataforma, e tem sido trabalhado pelo Daniel Cardoso, Inês Rolo… mas porque é que é um assunto ainda tabu, que estigmas e preconceitos?

4. Já há quase vinte anos que ensino educação sexual e que investigo. Estas são áreas de interesse em parte porque me identifico com muitos destes grupos marginalizados e porque eles precisam de ser reconhecidos como aspectos saudáveis e normais de se ser humano. Ainda que haja vários grupos poliamorosos e uma estimativa de mais de 500.000 famílias poli nos Estados Unidos, não creio que os EUA estejam prontos para lidar com este estilo de relação enquanto uma relação “normativa”. Infelizmente, as nossas raízes Puritanas ainda são bem fortes no que diz respeito à sexualidade e às relações.

Desde que começou a trabalhar sobre sexualidade em 96. o que é que tem contribuído para progredir na aceitação das relações poliamorosas, do estilo de vida BDSM, e outros e sobretudo na questão da sexualidade?

5. Alguns meios de comunicação alternativa (programas de televisão, filmes, livros, etc) têm dado atenção a ideias destas, mas penso que as diferenças mais significativas têm sido na investigação académica. Cada vez mais estudos vêm confirmar que o BDSM não é uma patologia e que o poliamor pode ser saudável e estável, o que ajuda imenso a passar a informação aos educadores, aos decisores políticos e aos responsáveis pela aplicação da lei.

Que aprendizagens tem adquirido desde que começou a desenvolver os estudos sobre o estilo de vida BDSM, sobre as relações poliamorosas, as relações homossexuais, a sexualidade?

6. Tantas coisas! É impossível fazer uma lista de tudo o que aprendi e ainda estou a aprender. Julgo que a parte mais importante que devo sublinhar é que, independentemente da identidade sexual e de género que alguém possa ter, trata-se apenas de uma pessoa a tentar viver a sua vida. Não percas tempo a tentar definir as coisas em que são diferentes.

Gostaria que nos pudesse falar sobre a Introductory and Advanced Human Sexuality. E como é que é possível que a sexualidade seja vista e tratada como o vosso site como positive sexuality?

7. A “positive sexuality” (“sexualidade positiva”) é o enquadramento teórico do qual parte todo o trabalho do Center for Positive Sexuality. Tal como a descrevemos, a “positive sexuality” deve focar-se nos seguintes aspectos: nos pontos fortes, no bem-estar e na felicidade; a sexualidade é única e multifacetada; os princípios éticos são essenciais; a comunicação tem de ser aberta e honesta; temos de permitir perspectivas várias; é humanizadora e parte de uma perspectiva de paz; isto aplica-se a todos os níveis da sociedade.

Por último quer deixar alguma mensagem sobre a importância da sexualidade e da aprendizagem? Em relação ao seu trabalho desenvolvido no blogue? Para a motivação dos temas em que é especialista? E se quer acrescentar mais informação sobre os temas abordados?

8. Aconselho o nosso website (http://www.positivesexuality.org) e, claro está, que disponham dos nossos fantásticos educadores voluntários. Oferecemos sessões educativas para todos os tipos de grupos e podemos fazê-lo por Skype para sítios mais longe do que o sul da Califórnia. Vejam também a nossa nova publicação, o Journal of Positive Sexuality (http://www.journalofpositivesexuality.org), onde publicamos artigos com revisão científica sobre “positive sexuality”. A sexualidade é essencial à vida e devemos abordá-la de uma perspectiva positiva e saudável.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção e Tradução: Mariana Vieira
07 de Fevereiro de 2015

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