ENTREVISTA A DIANA BARRETO

Fez o seu Mestrado Integrado em Psicologia e especializou-se em Psicologia Clínica e da Saúde. O que a levou a realizar um Mestrado sobre a sexualidade e fazer a dissertação com o Pedro Nobre da SexLab?

Fiz Mestrado Integrado em Psicologia e especializei-me na área de Psicologia Clínica e da Saúde. No primeiro ano de Mestrado temos de escolher um orientador para realizar o nosso Seminário. Mediante a escolha de orientadores deparei-me com um nome novo na lista «Prof. Dr. Pedro Nobre» acompanhado com diversos projetos de investigação muitíssimo interessantes na área da Sexualidade. Depois de pesquisar um pouco sobre o Professor e pelo Laboratório (O SexLab foi originalmente criado na Universidade de Aveiro e tinha sido transferido para a Faculdade de Psicologia do Porto nesse mesmo ano), decidi arriscar pela área da Sexualidade. É uma área em profundo crescimento em todo o mundo, mas em Portugal (in)felizmente ainda está a desenvolver as suas raízes. E foi este o principal motivo pelo qual escolhi como orientador de Seminário o Prof. Pedro Nobre. Vi uma oportunidade única, num campo de investigação e prática pouco explorada e pouco difundido e agarrei essa oportunidade com vista a um futuro promotor. Não me arrependo nem um bocado da escolha que fiz e sinto-me realizada com o projeto de investigação que fiz, orientado pelo Prof. Pedro Nobre e coorientado pela Dra. Sandra Vilarinho.

Desde que começou a trabalhar com o SexLab o seu interesse pela sexualidade cresceu? O que provocou esse interesse?

Cresceu e muito. Tudo começou com a escolha de um projeto de investigação ligado ao Desejo e motivações sexuais da população feminina portuguesa. O tema envolveu-me e fiquei verdadeiramente «apaixonada» pelo projeto. Sempre fui uma pessoa dedicada, dinâmica e motivada para o trabalho e creio que o meu interesse e a minha dedicação pelo projeto foram fundamentais para começar a colaborar com o SexLab em outros projetos, que foram (e vão!) desde a divulgação de projetos, angariação de voluntários, organização de conferências e assistência em projetos de investigação laboratorial. Claro que todo este gosto foi fomentado e incrementado pela excelente equipa do laboratório, que desde o início do Mestrado tive a oportunidade de conhecer. É uma equipa excecional tanto a nível dos conhecimentos como a nível pessoal e que em muito contribuiu para a minha excelente integração inicial e para o meu gosto pela área da Investigação em Sexualidade Humana (e desde aí nunca mais os deixei!).

O que é que a motivou a querer estudar e compreender as variáveis preditoras nos níveis de desejo sexual e explorar a relação da motivação sexual ou das pistas para o envolvimento sexual com o desejo sexual numa amostra de mulheres portuguesas heterossexuais e pré-menopáusicas?

O estudo do desejo sexual tem vindo a ganhar importância nas últimas décadas, em especial a partir da década de 90. Porém a investigação é maioritariamente internacional. A nível nacional existem poucos estudos sobre esta área, destacando os estudos da investigadora Dra. Joana Carvalho (SexLab). Mesmo a nível internacional os investigadores têm-se debruçado sobre o impacto nos níveis de desejo sexual das mulheres ao nível de variáveis médicas e psicopatológicas (por exemplo, presença de condições de saúde, ansiedade ou depressão estão associados a níveis inferiores de desejo), variáveis mais sociodemográficas (como a diminuição do desejo com o avanço da idade, em mulheres casadas e com filhos) e variáveis de cariz mais relacional (exemplificando a diminuição dos níveis de desejo com o avanço do relacionamento e a satisfação com a relação como um fator que favorece níveis mais elevados de desejo). Porém pouco ou quase nada se sabe do impacto de variáveis mais contextuais (como as características do contexto sexual, atividades auxiliares de prazer), variáveis mais cognitivas (presença ou ausência de fantasias sexuais ou a existência de preocupações durante a atividade sexual) nos níveis do desejo sexual nas mulheres. Já para não falar que a motivação sexual (ou seja, quais os motivos ou as pistas que levam a que as mulheres se envolvam em atividade sexual) é um tópico muito pouco estudado na literatura. Com base nestas evidências é que se denota a importância de realizar uma investigação com o objetivo de estudar e compreender as principais variáveis preditoras nos níveis de desejo sexual e explorar a relação que a motivação sexual tem com o desejo sexual, já que esta é apresentada como uma das componentes mais importantes daquilo que conceptualmente é o desejo sexual e que para mim podia ser resumido da seguinte forma «uma experiência psicobiológica que integra pensamentos, fantasias e comportamentos que resulta na ativação de pistas para o envolvimento ou fuga face a comportamentos sexuais».

A que conclusões chegou?

Foi um estudo amplo e com uma grande variedade de resultados, mas tentarei sintetizar o mais importante. A primeira meta do estudo consistia em explorar a relação de uma vasta panóplia de variáveis nos níveis de desejo sexual numa amostra de mulheres portuguesas. Para tal exploramos variáveis médicas e psicopatológicas, sociodemográficas, relacionais, cognitivas, contextuais e as pistas para o envolvimento sexual. De entre as variáveis médicas e psicopatológicas, a toma de medicação antidepressiva e a presença de sintomatologia ansiosa e depressiva mostraram-se preditores negativos do desejo, resultando em níveis inferiores de desejo para estas mulheres. Como variáveis sociodemográficas, o estado civil casada e estar em coabitação com o parceiro sexual mostraram-se associados igualmente a níveis mais baixos de desejo. Com o evoluir do relacionamento, o estudo demonstrou que os níveis de desejo também tendem a diminuir. Por outro lado, quanto maiores os níveis de satisfação com a relação, maiores os níveis de desejo. A existência de fantasias fora do contexto sexual e durante a masturbação parecem estar associadas a níveis mais elevados de desejo nas mulheres, contrapondo-se a níveis inferiores aquando a existência de preocupação e receio de dor ou desconforto físico durante a atividade sexual. O stress aparece igualmente associado a níveis inferiores de desejo nas mulheres, podendo ser contraposto à existência de fantasias/pensamentos sexuais e a existência de um contexto erótico como sendo fatores potenciadores de níveis mais elevados de desejo para as mulheres. Por último, a existência de pistas de excitação para o envolvimento sexual, potenciam na mulher, níveis mais elevados de desejo sexual. Como segunda meta do estudo procuramos agrupar todas as variáveis significativas e «conceber» um modelo explicativo e preditivo dos níveis de desejo sexual para as mulheres. Como tal, o modelo, permitiu-nos concluir que como fatores de proteção para a manutenção ou aumento dos níveis de desejo sexual temos a existência de: pistas de excitação para o envolvimento sexual, níveis mais elevados de satisfação com a relação, existência de fantasias fora do contexto sexual e a existência de um contexto erótico. Por outro lado, como fator de vulnerabilidade para a diminuição dos níveis de desejo temos a preocupação ou o receio com possível dor ou desconforto físico durante a atividade sexual. De um modo sucinto, o estudo demonstrou que as pistas de excitação (por exemplo, “Ter uma fantasia sexual”, “Pedir ou antecipar atividade sexual”) tornam-se no conjunto do modelo o melhor preditor dos níveis de desejo sexual, salientando a forte relação entre motivação sexual e o desejo nas mulheres; e por outro lado, este estudo salienta a importância em explorar novas variáveis no desejo (cognitivas, contextuais, motivação sexual), contribuindo para uma visão mais abrangente do conceito do desejo sexual.

Teve facilidade em encontrar pessoas interessadas em responder às suas questões?

Este estudo foi realizado online, o que revelou ter as suas vantagens como a facilidade de chegar a um vasto número de pessoas a nível nacional, rapidez na resposta, divulgação mais acessível e num curto espaço de tempo; sendo que o recurso a esta metodologia é recorrente em estudos na área de investigação em Sexologia. Porém também apresentou as suas desvantagens, como a média de idades das participantes que se situa nos 26 anos, sendo uma amostra maioritariamente jovem. Mas apesar de tudo, conseguimos um número bastante interessante de participantes que responderam à totalidade do questionário (que demorava entre 15 a 20 minutos). Porém este estudo tem ainda outros objetivos que não puderam ser alcançados dada a dificuldade de chegarmos a mulheres num relacionamento há mais de 20 anos, sendo que o link continua ativo para resposta. E aproveito esta oportunidade para fazer a divulgação do estudo: http://www.fpce.up.pt/limesurvey/index.php?sid=12452&lang=pt

Qual a razão para ter escolhido estudar o desejo sexual no início da menopausa? Por ser um assunto que não é assim tão discutido, explorado?

Os critérios do estudo não restringiam a participação a mulheres em diferentes estágios de menopausa ou orientação sexual. Porém a maioria das mulheres que responderam ao nosso questionário estavam na fase da pré-menopausa e eram heterossexuais, pelo que para tornar o estudo mais «limpo» conduziram-se análises apenas às mulheres com estas características (546 mulheres, 91% da amostra inicial). Mas aproveito para dizer que é de todo o nosso interesse chegar a mulheres com diferentes estados de menopausa e orientação sexual de modo a comparar os resultados e levantar implicações para a prática clínica.

O seu próximo estudo é sobre a questão dos desejos do homem e da mulher, e as discrepâncias sentidas a nível sexual entre si e o envolvimento na actividade sexual. É importante para si compreender os problemas do desejo, e o quão pode ser prejudicial para uma sexualidade positiva?

A falta de desejo ou a discrepância ao nível do casal são das principais queixas nas consultas de sexologia clínica. E para uma boa prática está subjacente boa e sólida investigação, daí a importância que eu dou de continuar a investir no campo do desejo sexual. Tenho muito interesse em desenvolver um estudo nesta temática, quantificando não só a discrepância nos níveis de desejo sexual entre homens e mulheres, mas mais do que isso, explorar e compreender quais as estratégias que os casais (de quaisquer orientação sexual) utilizam para fazer face a esta discrepância. Portanto, em linhas gerais estou interessada em perceber o que é que o homem/a mulher faz/pensa/sente quando um sente desejo para se envolver em atividade sexual e o outro não; quais os processos por de trás de tais decisões (questões de personalidade, estados emocionais, etc.); e de que forma isso afeta os relacionamentos e a vivência da sua sexualidade. Este estudo está apenas na lista de projetos a querer investir no futuro mas espero que seja para breve.

Os seus estudos no SexLab, na sua Tese e agora nas novas colaborações, centram-se muito em relação ao desejo sexual. É um tema importante que lhe interessa investigar e explorar em todas as vertentes?

O meu interesse pelo estudo do desejo sexual nasceu com o projeto de investigação desenvolvido para a minha Dissertação de Mestrado. O gosto foi aumentando com o crescimento do projeto, com os primeiros resultados do estudo e pela excelente orientação do Prof. Pedro Nobre e da Dra. Sandra Vilarinho. O desejo é já um tópico bastante estudado na literatura, mas a meu ver, há ainda muitos aspetos a ele associados que merecem ser explorados, como a questão da discrepância dos níveis do desejo sexual, salientada na questão anterior.

O que é que a seduz na questão do desejo a nível sexual, no homem e na mulher?

A questão do desejo sexual é tão abrangente que ideias para explorar não me faltam. A nível pessoal interessa-me explorar as questões do desejo sexual espontâneo e responsivo nas mulheres (já que estudos mais recentes indicam que as mulheres apresentam níveis superiores de desejo sexual responsivo, ou seja, existe uma «pré-avaliação» das condições para o envolvimento sexual; ou por outras palavras, salienta-se a existência de motivos/pistas para o envolvimento sexual). Estudos de diferenças, quanto ao género (homens vs mulheres), quanto aos motivos para o envolvimento sexual e na sua relação com os níveis de desejo sexual são também do nosso interesse; bem como estudos comparativos de população clínica (dificuldades sexuais ou perturbação do desejo) com normativa de modo a avaliar-se fatores de proteção e vulnerabilidade dos níveis de desejo sexual para cada um dos grupos. Algumas ideias estão já a ser pensadas e resultarão artigos científicos, conjugando a base de dados da minha dissertação de mestrado e de uma colega que estudou o desejo sexual masculino. Fiquem para ver!

O seu último trabalho de investigação em que está inserida é «Emoções e Movimento Oculares face a um clip erótico», quais são as expectativas para esta pesquisa?

Trata-se de um estudo laboratorial conduzido por quatro investigadores (Prof. Pedro, Dra. Joana Carvalho, a Mestre Raquel Pereira e por mim), não-evasivo e com recurso ao eyetracker, com uma duração aproximada de 15 a 20 minutos, em que se pede aos participantes para assistirem a dois clips, um sexualmente explícito e que respondam a umas perguntas sobre emoções e pensamentos sentidos durante a visualização dos clips. É um estudo simples mas com objetivos de estudo muito interessantes e, diria até, inovadores. Ainda está em fase de recolhas e aproveitava para incentivar à participação através do e-mail: estudo.emocoes.sexlab@gmail.com (homens e mulheres heterossexuais, sem patologia neurológica e sem problemas sexuais). Não posso revelar muito mais por ainda estarmos na fase de recolhas. Para já temos tido uma excelente adesão da parte das mulheres, mas dos homens o processo está mais difícil, o que pode dever-se a uma série de motivos, mas para avançarmos no campo da ciência, os voluntários são fundamentais e ainda têm a oportunidade de conhecer as instalações do primeiro laboratório que estuda a sexualidade humana em Portugal.

No futuro que trabalhos sobre a sexualidade é que gostaria de desenvolver?

Há imensas possibilidades para se desenvolver no futuro. Pessoalmente interesso-me muito pelas questões do desejo no seio do casal; em como é vivida e afetada a sexualidade em casais onde um tem uma doença oncológica; programas de educação sexual… A sexualidade humana é uma área riquíssima para ser explorada em termos de investigação e encaminhar novas implicações para a prática clínica. A vontade e o interesse estão lá, só falta investimento para os projetos e voluntários interessados em fazer parte desses estudos.

Começou a estudar/investigar a sexualidade provavelmente para aprender mais, e poder melhorá-la. O que é que gostaria de ver desenvolvido, quer em estudos, quer na educação sexual, quer na sexualidade de cada pessoa?

Quando se desenvolve um estudo tem de se pensar obviamente nas implicações que ele poderá trazer para o meio científico (tema inovador, se acrescenta alguma coisa ao conhecimento que já se tem), mas sobretudo temos de pensar nas implicações que o estudo poderá trazer para a prática. Que vantagens traz a nossa investigação? Poderão delinear-se novas orientações para a prática clínica? Vamos salientar aspetos importantes a ter em conta nas consultas de sexologia clínica? Quando investigamos pensamentos sempre no futuro e na forma como podemos estar a contribuir para o avanço da área. Neste momento gostaria muito de investir em artigos sobre as questões do desejo sexual feminino e dos motivos para o envolvimento em atividade sexual e compará-lo com o masculino (do qual resultarão alguns artigos científicos) e desenvolver um projeto de educação para a saúde sexual positiva dos jovens e alargar o campo de atuação a todas as pessoas interessadas (uma possível ideia para um estágio profissional). Neste momento só preciso de pessoas que queiram ajudar-me a investir nesta área.

As respostas foram escritas ao abrigo do novo acordo ortográfico ao90 pela vontade da própria entrevistada

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: B. T.

03 de Novembro de 2014

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