Entrevista a Cátia Oliveira

Entrevista a Cátia Oliveira Doutorada em Psicologia Clínica na Área da Sexologia e Investigadora no Sexlab na Universidade do Porto. Psicóloga Clínica e Terapeuta Sexual Creditada pela SPSC

O que a levou a estudar e investigar os motivos da dor da mulher a nível sexual?
 A sexualidade feminina é um dos meus principais temas de interesse desde que comecei a interessar-me pela área da Sexologia. Apesar do avanço da investigação em torno desta temática ao longo dos últimos anos, muito ainda está por explicar. Em relação à dor sexual constatei que sabemos ainda muito pouco e que esta é uma problemática vivenciada de forma particular pela maioria das mulheres e casais. Talvez por ser um fenómeno complexo e do qual ainda sabemos muito pouco a nível nacional e internacional, acabou por chamar a minha atenção.
Numa entrevista em 2012 referiu que a dor pode vir de inadequada educação sexual, de crenças conservadoras, uma fraca auto-estima geral e sexual. Em 2014 estes problemas não deviam estar já sanados, e haver uma educação sexual avançada nas famílias portuguesas e uma sexualidade estável não só nas mulheres mas também nos homens?
Se vivêssemos numa sociedade com um contexto histórico ideal, talvez. Vivemos em 2014 mas herdamos um contexto histórico e social pautado por normas sociais altamente conservadoras que ainda hoje se reflectem no nosso dia-a-dia. Sé é verdade que hoje a sexualidade é vivenciada por muitos com maior naturalidade e liberdade, também é verdade que existem ainda muitas as crenças conservadoras e negativas que impedem uma correcta educação sexual e vivência de uma sexualidade mais satisfatória em homens e mulheres. Por outro lado a sexualidade não é uma dimensão afastada de outras áreas da nossa vida, sendo por isso afectada pelo stress da vida diária e por outros problemas psicológicos.
O Diário de Aveiro questiona a razão do tema da dor ser ainda tabu, mas a própria sexualidade ainda o é ou não é tão discutido como devia, por que razão? E como se podem abrir horizontes, abrir as mentes, para se criar uma sexualidade mais satisfatória?
 
O tema da sexualidade está hoje muito presente em tudo o que nos rodeia e nos meios de comunicação social. Contudo, isto não significa que o mesmo seja apresentado e discutido da melhor forma. A presença e educação para uma sexualidade mais satisfatória estão dependentes de uma abordagem mais realista, menos comercial e menos banal do sexo.  
Dizia na entrevista que os estudos apontavam 5% a 35% em Portugal e lá fora eram de 12 a 21% dos 18 aos 75 anos, não é preocupante e alarmante? 
São realmente números pouco positivos. Devemos contudo salientar que estes números representam diferentes dimensões desta problemática, ou seja, nem todas as mulheres que fazem parte destas estatísticas apresentam um nível severo de dor sexual. Mais importante é o que esta percentagem pode representar, nomeadamente o facto de muitas mulheres que apresentam dor sexual nunca procurarem ajuda nem aconselhamento para lidar com as suas dificuldades.
 
Na sua opinião o que se pode fazer para que haja uma maior vontade das mulheres procurarem aprender mais sobre sexualidade, abordar mais o tema, e quebrar medos e barreiras?
Eu penso que as mulheres estão naturalmente interessadas na sua sexualidade e procuram informação sobre a mesa. Contudo, e como referido em cima, muita da informação que encontra disponível aborda a sexualidade de forma pouco erótica e de forma restrita e irrealista, muitas vezes centrada na performance e no coito. Por outro lado, existe ainda uma grande resistência em procurar ajuda profissional onde várias destas barreiras podem ser discutidas e deixadas para trás.
Ainda existem muitos mitos em relação por exemplo ao estudo que realizou? E sobre a sexualidade feminina em geral também existem muitos mitos? Como é possível quebrá-los?
 
 Diferentes estudos e a minha experiência clínica têm demonstrado a presença de diferentes mitos e crenças em relação à sexualidade, nomeadamente a presença de ideias conservadoras, a visão do desejo sexual como pecado, crenças erróneas relativas à imagem corporal e à idade. Mais especificamente, mulheres com dor sexual apresentam por vezes crenças de que a penetração vai causar dor, sangramento, algum tipo de lesão, ou a ideia de que a vagina é muito pequena. Penso que alguns destes mitos e outros acabarão por estra sempre presentes, mas os mesmos poderão ser atenuados pela presença de uma correcta e mais completa educação sexual e também por uma abordagem mais realista da sexualidade. Também me parece uma importante uma maior abordagem da sexualidade por parte dos diferentes profissionais de saúde.
 
Desde que em 2008 integrou a Sociedade Portuguesa de Sexologia, o que tem aprendido da sexualidade homem, mulher? E que importância tem para si e deveria ter para cada um e para a sociedade em geral? Deve ser estudada reflectida e falada?
 Estamos sempre a aprender sobre a sexualidade feminina e masculina. É uma evolução constante a par com a evolução da nossa sociedade e de cada um de nós. É também uma dimensão da nossa vida tão importante como todas as outras que, por vezes, estamos mais habituados a citar e a considerar como mais significativas (trabalho, família, saúde, etc.). Por essa razão deve continuar a ser falada, discutida e reflectida.
No caso das mulheres disse ao CM em 2012 que muitas vezes ficam caladas, não falam sobre o assunto quer com os parceiros/as quer com os técnicos/as para ajudar, já tem havido uma maior abertura? Tem existido mais facilidade para abordar este tema e procurar ajuda?
 Penso que não. Contudo considero expectável, uma vez que mudanças de atitudes a algo que é sentido como tão pessoal e íntimo não se dão de um dia para ou outro, ou de um ano para outro. Tenho contudo muitas expectativas e trabalharei no sentido de se tornar mais fácil a estas mulheres e respectivos companheiros procurarem ajuda face à dor sexual e outras problemáticas de índole sexual. Este trabalho diz respeito à sensibilização social, mas também a sensibilização de diferentes profissionais de saúde.
Em 2013 realizou uma Comunicação Oral sobre a sexualidade nos dias de hoje, como é a sexualidade nos dias de hoje? Houve alguma grande revolução sexual tanto com o 25 de Abril, como com o desenrolar dos anos, o aparecimento de muitos terapeutas e sexólogos…?
Não lhe chamaria uma revolução sexual mas uma evolução gradual da forma como fomos discutindo e vivenciando a sexualidade, em parte acompanhando algumas revoluções que se foram dando a nível internacional. Apesar das diferentes alterações sociais decorrentes do 25 Abril só a partir da década de 80 é que se dá um aumento exponencial de estudos em torno da disfunção eréctil que irá promover o lançamento do Viagra já em 1998. É a partir daqui que depois se dá um aumento exponencial de interesse na sexualidade feminina, que é portanto algo ainda relativamente recente. Penso que ainda estamos no início de uma caminhada que vai aumentando gradualmente o seu ritmo com, cada vez, um maior interesse da parte dos profissionais de saúde nesta temática e a crescente formação na área em temos do ensino público e privado em Portugal.
Em entrevista que realizei recentemente ao psicólogo clínico Rui Machado, integrante do Projecto “Sim, nós Fodemos” afirma que o não acesso a uma necessidade básica como a sexualidade, necessidade básica essa considerada pela Organização Mundial de Saúde, pode limitar a felicidade. Vê que em Portugal é uma necessidade básica assim tão descurada pelo governo, escolas e cada um? Tendo em conta a palestra que deu sobre a sexualidade dos dias de hoje, o facto de este tema ainda ser muito tabu, de não ser tratado como básico como a Organização Mundial de Saúde o confirma, pode ser muito infeliz, castrador, frustrante, inibidor?
É sem dúvida uma necessidade básica como outras que fazem parte da nossa vida. Efectivamente isto nem sempre é tido em conta desta forma na sociedade em geral e por muitos de nós. Isto pode ter consequências negativas na nossa saúde e níveis de bem-estar. Estudos feitos em diferentes países demonstraram a presença de uma relação positiva e significativa entre bem-estar sexual, saúde física e mental, níveis de actividade sexual e contexto relacional. Por outro lado o interesse sexual parece contribuir para a felicidade geral. Assim, é realmente essencial uma mudança na abordagem geral e específica da sexualidade e, também das problemáticas associadas, para que todos possam vivenciar de forma natural, individual e sem culpas uma sexualidade plena.
Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.
Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Miss B

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s