Entrevista a Carmo Gê Pereira

O que é que a motivou a criar um projecto sobre a sexualidade feminina?
Na verdade quando dei conta o projecto estava criado! Com 25 anos, a 1 de Abril de 2008, integrei a equipa de vendas d’A Maleta Vermelha. Acompanhada de uma mala comecei a entrar num espaço íntimo privilegiado de muitas mulheres. Senti-me na obrigação de procurar formação na área e cada vez mais informação para corresponder à responsabilidade que em mim era depositada ao deixarem-me entrar em campos tão privados. Em 2011, uns amigos que tinham o projecto, Associação Cultural O Bixo Mau nas Caldas da Rainha, convidaram-me para dinamizar e programar uma semana em Março, no evento geral a que chamaram “O Mês das Gajas”. Já tinham havido alguns pedidos para a criação de formações na área do Pompoarismo e pontos de prazer e pornografia para mulheres e foi assim que o projecto ganhou uma forma mais próxima da que tem hoje.
Quando partiu para este novo projecto fora da Maleta Vermelha como é que encarou e encara a sexualidade feminina e o facto de ainda haver muitas mulheres que ainda não vêem o sexo de forma natural, ou que não tenham uma sexualidade satisfatória?
Antes de ser Carmo Gê Pereira o projecto era Carmo da Maleta, houve a necessidade de independência na escolha dos produtos e formações que fazia e, naturalmente, houve o desligamento d’A Maleta Vermelha e a criação de um projecto em nome próprio, aberto a analisar qualquer parceria proposta. A sexualidade feminina e a educação sexual continuam a ser um tabú ao mesmo tempo que há uma pornificação crescente da sociedade. Isto é, diariamente, das mais variadas formas, somos bombardeados com imagens ou sugestões de pornografia, que nos criam expectativas e ideias erradas em relação ao sexo. Continuam-se a alimentar tabus, e cada vez mais é urgente a multiplicação de discursos sérios, mas leves ao mesmo tempo, sobre uma sexualidade diversa e saudável e de aceitação das várias práticas e formas de ter prazer. A ideia de que o sexo é natural e inato também me parece importante desconstruir. O sexo, como qualquer habilidade (a motricidade fina, cozinhar ou tocar piano) é uma actividade que requer aprendizagem para o maior desfrutar. A libido e o desejo podem ser inatos, mas pô-los bem e de forma prazeirosa em prática é uma questão de aprendizagem… e treino!
Depois de 5 anos a trabalhar com o Projecto A Maleta Vermelha, o que é que aprendeu? Sentia e sente que era e é urgente consciencializar o público?
A Maleta Vermelha abriu-me o mundo do enxoval para o ócio adulto e permitiu que entrasse em casa e no espaço intimo de muitas mulheres. Com elas aprendi muitas forças, fragilidades, certezas e inseguranças que trazemos, relembrei a absoluta necessidade que enquanto seres humanos temos que alguém externo à nossa vida interior nos diga que está tudo bem. Senti e sinto que é urgente ensinar conceitos de base, como consentimento e consciência, retirar o peso automático de determinados pontos de prazer e incentivar uma procura de corpo inteiro, falar, partilhar ensinar, de forma descomplexada e sem vergonhas, sobre sexo e a forma como o vivemos, sentimos e fazemos.
Já realizou vários workshops, formações, tertúlias, sessões de cinema e outros, no intuito de dar uma “visão sobre comportamentos e identidades de forma desmistificada e aberta”. No entanto, o que pensa que falta fazer para que cada vez mais mulheres se interessem e aprendam mais sobre sexo.
Temos já em Portugal um público feminino vasto que se interessa por sexo. Reparem, senão as revistas para mulheres não teriam as capas que têm. O problema é de que forma estamos a falar e o que é que está a ser ensinado. Falta educação sexual e feminista de base, que comece nas escolas, apoiada por programas governamentais. Falta mais projecção para projectos como o meu e de outras mulheres, lembro a Aida Suarez, com o seu projecto A Confraria Vermelha ou a New Sexology. Gostaria também que as comunidades que vivenciam formas relacionais e sexuais alternativas tivessem cada vez mais abertura e atenção de uma forma clara e não ocultada, nem distorcida. Precisamos de um sair do armário a nível sexual, de uma afirmação e incentivo a essa afirmação positiva dos nossos desejos e vontades.
O que é que falta para que cada vez mais se concretize o que diz: “vive a tua sexualidade em pleno”?
É preciso reconhecer que viver a sexualidade em pleno pode ir de uma orientação assexual, viver em pleno pode ser assumir o seu não desejo ou arromantismo, a uma vivência promíscua (retirando o peso negativo a esta palavra) da sexualidade ou extremamente afectiva. Viver a sexualidade em pleno é predispormo-nos a descobrir e assumir os nossos desejos e vontades e termos informação e formação disponível para aprimorar e ajudar esta descoberta, sem juízos de valor ou educação moral. Apenas uma ética de respeito por nós e pelos outros.
Para si ainda existem muitos preconceitos e falta de abertura na mulher e na sociedade em si? Como pensa que seja possível quebrá-los?
A visibilidade de vários comportamentos e práticas sexuais seria importante, muito importante também seria acabar com este ideal de corpo e beleza inatingível para a maioria das mulheres e optar por uma cultura de aceitação do corpo e de o entender como a maior ferramenta que temos, que nos dá possibilidades quase infinitas de realização, e claro de prazer.
Disse numa entrevista ao Nanozine que nos workshops falavam de sexo abertamente, expondo o máximo de informação sem grande caso pois é um assunto do dia-a-dia. É a forma ideal de se tratar este tema? Porque razão? Já é mais fácil apresentar o tema de forma tão aberta e clara?
A desmistificação passa por um discurso claro e aberto. Não estamos a falar num discurso vulgar ou pornográfico, estamos a tratar as coisas pelos nomes de forma a que toda a gente entenda e possamos aprender uns com os outros. Não digo que seja a forma ideal ou correcta, foi a forma que eu encontrei e a minha melhor forma. Não teria conhecimento (nem seria eficaz para o meu público) para um discurso essencialmente médico e teórico, assim como não me sentiria bem a cair no discurso brejeiro. Falar de sexo como se estivéssemos a falar de qualquer outra actividade que desperte o nosso interesse e falar da vulva e vagina com a mesma naturalidade com que falamos das mãos, joelhos ou orelhas é o que me é mais fácil e acessível e me parece mais eficaz.
Participou na organização de um ciclo de cinema dedicado a Erika Lust. Em que aspecto é que a pornografia para mulheres pode ser essencial? E na sua opinião, trabalhos como a Erika Lust e, por exemplo, a Emilie Jouvet podem ser importantes para se repensar na pornografia e nos filmes que só são feitos a pensar nos homens?
A pornografia para mulheres é essencial para demonstrar e preencher uma lacuna, há mulheres que gostam de porno, há casais que gostam de ver filmes juntos e é preciso criar produtos para todos os gostos.Vejo a Erika Lust como cinema mainstream de qualidade, que se preocupa com acabar com estereótipos e passar uma visão diversa da sexualidade, demonstrando a mulher fora de uma posição de subjugação e dos lugares de puta ou santa. Mostra mulheres e homens que estão mais próximos de existir do que o que acontece na maioria da pornografia e são filmes bons, agradáveis de se ver, com o tempo certo de cada história, equilíbrio das cenas de sexo e guião consistente. A Emilie Jouvet assim como as realizadoras do Dirty Diaries, ou projectos portugueses como António da Silva ou Bela TV usam a pornografia como arma política e de formação e disrupção social. Parecem-me importantíssimos para nos fazer pensar e despertar uma consciência critica. São na sua maioria, também, formas de arte bastante válidas que usam o sexo como forma de expressão.
O que é que sente ao desempenhar este papel de mulher activa na partilha de informação e jogos importantes para a sexualidade feminina?
Sinto que não poderia fazer outra coisa. Não me sinto acima de qualquer mulher ou ser e quer em Portugal, e principalmente fora, tenho bastantes profissionais na mesma luta e missão que eu. O meu projecto entreluza-se com a minha ideologia, aquilo em que acredito, e aquilo que gosto de fazer. Ensinar, falar, mostrar e partilhar conhecimento em relação às sexualidades é uma paixão. Não deixa por isso de ser trabalho, e a parte profissional da minha vida. O meu sentimento de mulher, e ser humano, pessoal passa por muito mais do que a minha profissão, obviamente.
Como é que funcionam as reuniões de enxoval? E quais os seus benefícios?
As reuniões de enxoval para o ócio adulto são reuniões de demonstração dos vários produtos presentes na mala. Têm o enorme beneficio das mulheres poderem usufruir de aconselhamento dedicado, aprender com a partilha de conhecimentos entre elas e com a pessoa que realiza a reunião. No caso da minha mala, há o cuidado com a selecção, aspecto, qualidade e segurança de tudo o que é apresentado. São também um belo momento de estreitar laços, e principalmente um serão bem passado a aprender, ver e experimentar.
Um dos workshops que realiza é sobre o pompoarismo, o que é que pode dizer para que as mulheres se sintam interessadas a aderir e qual é a importância dessa aprendizagem?
Penso que o mais importante será alertar e ensinar os dois movimentos principais e a detecção dos músculos PC e constritor cunni, há um upgrade no auto-conhecimento do nosso órgão e espaço vaginal, traz benefícios à saúde entre os quais se contam melhoria da flora vaginal, prevenção e cura da incontinência urinária e prolapso uterino e uma melhoria da vida sexual da mulher e do casal, tornando as relações sexuais ainda mais prazeirosas e ajudando a intensificar e desbloquear os orgasmos.
Como mulher interessada pelos temas feministas e lgbt, quais são os principais problemas com que se depara, quais são as suas lutas e o que pensa que é preciso para alcançar a igualdade?
A questão da igualdade de direitos neste momento cruza-se com os temas da austeridade e crise. Temos que nos lembrar que as minorias de direito sofrem um pouco mais. Tenho uma visão bastante positiva do mundo, por isso, reconhecendo que ainda há muito porque lutar e ainda temos muito que caminhar até estarmos perto de uma sociedade equalitária e diversa, julgo estarmos no bom caminho. É importante reconhecer os grupos e instituições que fazem activismo e dar-lhes voz. É também importante que reconheçamos onde podemos integrar acções e condutas mais positivas e de luta contra o sexismo, homofobia, bifobia, transfobia, polifonia, racismo, xenofobia no nosso quotidiano. Eu vou estando atenta a estas lutas, junto com a luta pela autodeterminação sexual, liberdade sexual e feminista. Cada um pode escolher as suas lutas e ideais, tendo cuidado para nunca minorar, desrespeitar ou atropelar as lutas do outro. Estamos nisto juntos, afinal!
Desde que começou tem aprendido e trabalhado nos temas para a redução de riscos e danos. Que riscos e danos se refere e quais devem ser os cuidados a tomar?
Deve haver uma visão realista das práticas e da diversidade das mesmas. Não podemos ignorar o barebacking e consumo de substâncias associado a comportamentos sexuais. Falarmos com clareza nas coisas permite que estejamos mais preparados. O uso de barreiras de protecção como preservativos, luvas ou lâminas de látex é importante e deve ser incentivado. Deve também ser claramente falado no que é saúde sexual e haver uma informação e educação coerente e adequada ao que realmente acontece. Sabemos que grande parte da população não usa preservativo nem lâminas aquando a prática de sexo oral, o uso deve ser incentivado, óbvio, mas também deve ser dito que riscos estão a correr, a que DSTs se estão a expor e quais as formas de reduzir estes riscos. Isto como um exemplo…
Na entrevista que deu, na resposta sobre a incapacidade de prazer sexual por parte da mulher e pela dificuldade em ter orgasmos, referia que hoje ainda existe um enorme ataque perante a sociedade de que o prazer é algo de errado e que, os orgasmos, a masturbação é algo não natural para a mulher. Como pensa que isto pode existir nos dias de hoje? De que forma é possível quebrar esta condenação? E este problema de que só o homem é que pode ter prazer e a mulher não?
A ideia circula entre um espectro extremo de que o prazer é errado até ao outro lado em que um orgasmo é compulsório. É importante haver um maior conhecimento geral da fisiologia dos órgãos genitais, mas também uma desobstrução e deginitalização da sexualidade. Uma sexualidade de corpo inteiro. O prazer pode ser encarado como propriedade de cada um, com a obrigação de cada um tem de o conhecer. Auto-conhecimento é obrigatório. Oferecermos o nosso prazer ao outro depois de o sabermos obter sozinhas parece-me um bonito presente. Auto determinação em relação ao próprio corpo e sexualidade e um cada dia maior incentivo a que isto aconteça. Todos estes temas são focados no workshop AUTOEROTISMO, CONHECIMENTO E PRAZER, workshop de masturbação para mulheres.
Além de tudo o prazer deveria ser considerado um direito universal, não?!
Nos dias de hoje toda esta situação não devia estar extinguida?
Como tantas outras, mas julgo que andam por aqui uns quantos a lutar e transformar o mundo num lugar mais diverso e de aceitação.

http://www.carmogepereira.com/
Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.
Projecto Génesis Pelo Prazer
Entrevista por: Pedro Marques
Correcção por: Miss B
Dia 10 de Setembro de 2014

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