Entrevista à Associação LGBT – Portugal Gay por João Paulo

JPPaulo
Editor PortugalGay.pt
Ativista p/ Direitos Humanos

Entrevista à Associação LGBT – Portugal Gay por João Paulo

Em 96 criaram a plataforma para romper com o estado em que os homossexuais viviam, para lhes darem apoio e como forma de facilitação de aceitação da homossexualidade.
Desde então que passos têm conseguido dar no sentido de permitir uma união entre todos, aprenderem a aceitar-se, a saírem do armário?

PG – Esta é uma questão complicada. A ideia do PG foi dar informação ás pessoas LGBT sobre o que era ser-se LGBT, ao mesmo tempo tentar ajudar a que conseguissem viver as suas vidas o melhor possível, afinal era 1996, quase 20 anos atrás. Expressões como lésbica, gay, bissexual ou transexual eram complicadas de serem proferidas em espaços comuns, e entendidas pela maioria da população, população da qual os nossos amigos e familiares fazem parte. Por isso o PG contina como contem informação de como reagir e ou contar às diferentes pessoas importantes para nós. Houve muitos avanços de lá para cá, eu enquanto editor fui tomando uma posição de ativista e por isso aos poucos fui dando a cara pelo tema. Isso levou-me a programas de TV mais ou menos polémicos e conseguidos mais ou menos bem, afinal não só o tema era novo para a população e jornalistas como a minha posição era para mim muito nova. A única coisa que posso garantir é que sempre tive uma postura de crueza e por isso de verdade naquilo que disse e digo. Veio também as idas às escolas com palestras sobre essa parte da sociedade a LGBT, e posso dizer que no geral o resultado é bastante positivo.

Como base de apoio e informação, têm disponibilizado vários textos e artigos sobre LGBTTIs (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Trangéneros, Transexuais e Intersexo), qual é a importância para vocês que os leitores quer estejam inseridos neste grupo, quer sejam heterossexuais tenham acesso a mais informação, possam aprender?

PG – Toda! A ignorância presente nos comportamentos homofóbicos mais ou menos agressivos a nosso ver existe por falta de informação. Um ser humano informado pode não concordar com este ou aquele tema e ou situação mas a sua reação será sempre (espero eu) mais civilizada tendo em conta o saber que possui. Depois os mesmos textos proporcionam à academia interesse demonstrado nas diversas colaborações havidas com trabalhos quer do secundário quer universitários sobre direitos humanos e em particular LGBTI. Convínhamos que já os nossos avós diziam “O saber não ocupa lugar”.

Tendo em conta que a sociedade ainda é preconceituosa, incluindo a comunidade onde se insere a vossa plataforma, qual é a importância de trabalharem textos e documentos, focarem problemas e formas de apoio?

PG – Verdade que ainda é preconceituosa mas também é verdade que já foi mais. Se por um lado queremos esclarecer e informar cada vez mais as pessoas, pelo outro preocupamo-nos sim em apresentar soluções e ou meios de apoio para aqueles/as que são ainda hoje vítimas da ignorância alheia. Mas não pintemos este quadro com cores monocromáticas, porque a ignorância e a agressão vária também vem de dentro desta comunidade, por vezes com diagnósticos preocupantes de homofobia internalizada.

Têm secções como Prosa, Teatro/Espectáculos, Poesia entre outros que fazem parte da cultura. No trabalho que fazem de partilha destes eventos de que forma é que a cultura pode trazer benefícios para uma sociedade que aceite a comunidade LGBTTIs e a própria comunidade se desenvolva, seja mais coesa, haja mais e melhor aceitação entre todos?

PG – A frase não é minha e por isso posso não a estar a transcrever corretamente, “Uma sociedade sem cultura é uma sociedade sem identidade”. Dito isto a cultura vária das diferentes facções da sociedade identifica-a torna-a única enquanto identidade plural enquanto parte de uma outra cultura mais vasta que se apresenta como um mix. Vê-se isso na música por exemplo, onde estilos criados em espectros diferentes hoje se coligam numa nova sonoridade numa nova cultura musical. Da mesma forma outras culturas surgem emergentes de um mix de culturas, que se expressam nas mais variadas formas, se isso faz as pessoas entenderem melhor uns e outros, penso que sim, porque para misturar (mix) é preciso conhecer para multiplicar o que antes viveu dividido.

Com um maior desincentivo por parte do estado para com a educação, a cultura, a questão da discriminação de género e de orientação sexual tem tendência a agravar-se. De que forma através de informação, e outras formas podem e devem ser usadas para por termo a este problema?

PG – Os problemas não tem termo, tem alterações. Tem quem não aceite nunca que o normal é a anormalidade existente em cada um de nós, porque nem todos respondemos da mesma forma ao mesmo estímulo, e por isso quando resulta de conseguir solucionar um problema logo alguém levanta outro. Veja-se por exemplo a questão do casamento e da adoção.
Antes de haver casamento entre pessoas do mesmo sexo, já podíamos adotar e ou candidatarmo-nos à adoção, depois que se aprovou a alteração à lei e podemos casar, disseram mas não podem adotar. Antes tínhamos um problema, não podíamos casar, e assim que se resolveu este problema criaram outro, podem casar mas agora não podem adotar enquanto casados, mas a lei diz que posso adotar se não for casado com uma pessoa do mesmo sexo. Tínhamos um problema que resolvemos e ao invés de solucionar um segundo “se não” criamos então um novo problema, que agora está a ser contornado com a coadoção, porque há filhos de relações anteriores que vivem com duas pessoas do mesmo sexo casadas e filhos que foram adotados antes de se casar, que no dia-a-dia chamam os seus educadores de pais e mães mas que no papel são apenas e só filhos de um dos lados.
Dito isto penso que todos os meios são importantes, textos divulgados, estudos, participar em entrevistas, colaborar em debates, certos porém de que nunca o problema maior vai estar resolvido.

O vosso trabalho está prestes a fazer duas décadas que progressos têm notado sobre o vosso trabalho informativo e cultural dos demais trabalhos da comunidade?

PG – Penso que o trabalho que temos desenvolvido tem sido positivo e cuidado no que respeita ao respeito pelo outro e à ética jornalística, deixamos de postar notícias de outros sites e ou fontes como fazíamos no início, e passamos a redigir pela nossa mão essas notícias. Aumentámos de forma bem visível as reportagens fotográficas dos eventos, tentamos sempre que possível estar presentes no maior número de eventos LGBT que consideramos relevantes. Esse esforço tem-nos garantido um número considerável de fiéis seguidores muitos connosco desde o início.

Publicaram recentemente na página do facebook notícias sobre censuras e leis anti-gay, que estão a acontecer um pouco por todo o mundo. Qual é a vossa opinião sobre este retrocesso e de que maneira se deve combater este atentado aos vossos direitos e liberdades?

PG – Não me interprete mal mas não são os “vossos direitos e liberdades?”. Quando cortamos os direitos e liberdades de alguém e ou de uma facção da sociedade estamos a cortar os NOSSOS ou seja de nós todos. Costumo dizer aos alunos da escolas onde vou quando me fazem perguntas sobre “vossos direitos e liberdades?” o seguinte:
Imaginemos um casal heterossexual que sempre achou que os temas vários dos direitos humanos e outros eram problemas de quem os vivia na pele e por isso nunca tiveram uma posição nem participaram sequer num abaixo-assinado.
Um dia casam-se e são o casal mais feliz do mundo, vivem numa sociedade onde basta ser branco e saudável ter emprego e educação para se ser gente. Como é um pouco senso comum tem dois filhos, um rapaz e uma rapariga, a quem prestam a melhor educação segundo os seus parâmetros claro está. Um dia já mulher a filha chega a casa e apresenta o namorado e aquele que vai ser seu esposo, trata-se de um imigrante negro, muçulmano. As questões da imigração, do racismo e da religiosidade assalta esta família que nunca antes se interessou pelo tema e passam a ter opinião sobre o assunto, afinal os bons pais querem ver os seus filhos felizes.
Mais à frente o filho com 18 anos apresenta o seu namorado, mais uma vez um tema que era dos outros passou a ser também destes pais, a felicidade do seu filho acima de tudo, e até já vão às marchas gay, que afinal agora vista de dentro não são aquele folclore que muitas vezes a imprensa faz querer.
Num dia mais cheio o pai no regresso a casa tem um acidente de carro e fica numa cadeira de rodas e assim as questões do MB estarem todos eles altos demais, balcões de serviços públicos altos, falta de rampas e transportes adequados tudo passou a ser também um problema que antes era “vosso” para agora ser “nosso”, por isso tudo as questões LGBTI não são um problema meu quanto homossexual mas de toda a sociedade enquanto um todo e interessada na felicidade e dignidade dos seus concidadãos.
O problema do retrocesso é porque num mundo a viver uma crise financeira que levou milhares se não milhares para o desemprego as questões ditas menores deixam de ser prioridade e ou bonitas de defender, afinal que é mais importante, dar de comer a quem tem fome ou aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo!? O grande problema deste pensamento generalizado é que a meu ver uma coisa está violentamente interligado com tudo o resto. Que me adianta casar com quem amo se não tenho emprego e por isso não tenho condições de sobrevivência, ou que me interessa ter emprego se não posso viver a minha sexualidade em pleno e ser feliz!? Que adianta a terra sem semente, ou ter terra e semente sem água, uma coisa não vive sem a outra.
Termino dizendo que nunca podemos pensar numa sociedade sem pensar que ela é feita por pessoas com uma multiplicidade de itens aos quais é preciso dar resposta tendo em vista a felicidade, a dignidade e a sustentabilidade de cada um desses seres humanos, conseguido isso temos a felicidade, a dignidade e a sustentabilidade de toda uma sociedade.

Obrigado pelo “seu” tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Génesis Pelo Prazer

Entrevista por: Pedro Marques
Correcção por: B.T.

13 de Agosto de 2015

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