Entrevista a Sónia Araújo, Psicóloga, Sexóloga, Terapeuta Sexual, Formadora

É técnica – Psicóloga numa Equipa Multidisciplinar Especializada de Assistência a Vitimas de Tráfico de Seres Humanos da Região Centro desde Dezembro de 2012. De que modo foi importante e essencial ter trabalhado com a equipa neste projecto de assistência a seres humanos vítimas de tráfico? Como psicóloga, de que maneira foi importante ter dado assistência a seres humanos que vivem situações indignas e de terror?

R: A minha experiência enquanto psicóloga na EME Centro (Equipa Multidisciplinar Especializada de Assistência a Vítimas de Tráfico de Seres Humanos da Região Centro) tem sido muito enriquecedora a vários níveis. Por um lado, permite-me contactar directamente com pessoas que foram vítimas de um crime que atenta contra os direitos humanos fundamentais, pelo que toda a assistência que prestamos, mesmo a mais básica (alimentação, alojamento, vestuário, entre outras) representa uma mais valia com um impacto gigantesco na vida destas vítimas. É portanto muito gratificante poder trabalhar numa equipa cujos resultados em termos de melhoria das vítimas são extremamente visíveis e impactantes, quer a curto, quer a longo prazo. Por outro lado, as histórias de vida destas vítimas relatam situações de extrema vulnerabilidade, a variados e múltiplos níveis, quer em termos sociais, familiares, financeiros, psicológicos, pelo que há muito a fazer em termos de apoio a prestar. Assim, este trabalho é muitíssimo gratificante.

Por outro lado, a nossa equipa aposta muito ao nível da prevenção, pelo que temos sensibilizado e informado milhares de pessoas na região centro acerca do fenómeno do Tráfico de Seres Humanos, quer através do desenvolvimento de ações para diversos públicos-alvo (desde técnicos, a órgãos de polícia criminal, profissionais de saúde, docentes, jovens, populações vulneráveis como jovens institucionalizados ou doentes psiquiátricos, desempregados ou sem-abrigo), quer através de inúmeras campanhas de sensibilização realizadas.

Há ainda a sublinhar que esta equipa é responsável pela criação e manutenção da Rede Regional do Centro de Apoio e Protecção a Vítimas de Tráfico de Seres Humanos, que conta já com 40 entidades da Região Centro, que trabalham em equipa no sentido de prestar um apoio eficaz e eficiente às vítimas de tráfico que nos são sinalizadas.

Foi co-autora do guia “Conceber: guia para profissionais e pessoas com problemas de fertilidade”; como foi a sua experiência de co-autoria deste guia sobre um assunto tão pertinente e delicado? O que é ainda necessário ensinar-se, discutir-se e debater-se? De que forma veio este livro mudar a situação de conhecimento dos profissionais e como veio colmatar as dúvidas, preconceitos e falta de informação correcta?

R: Este guia foi um importante marco no assumir e debate do problema da infertilidade em Portugal. Creio que o seu impacto foi importante, quer para as pessoas que vivem esta situação, quer para os próprios profissionais de saúde, pois foi um trabalho exaustivo de actualização de conteúdos correctos do ponto de vista científico, mas também institucional, providenciando informação muito útil em termos de tratamentos e locais especializados para os obter. Por outro lado, os conteúdos do Guia permitem também desmistificar o assunto e encará-lo de forma a poder procurar soluções práticas, ao invés da paralisação que atinge as pessoas que internalizam o problema com questões de culpa e ineficácia.

Como técnica-psicóloga trabalhou no proecto Sex Trivial, um jogo pedagógico em formato digital cuja finalidade é testar e enriquecer os conhecimentos, bem como trabalhar os sentimentos, atitudes e competências individuais face à sexualidade. De que forma foi enriquecedor ter co-desenvolvido este guia, e de que forma tem este jogo sido positivo e capaz de melhorar as competências, sentimentos e atitudes face à sexualidade?

R: Este jogo foi desenvolvido no sentido de permitir trabalhar os conteúdos da Educação Sexual com jovens adolescentes, em grupo e de forma pedagógica. Tivémos sempre como preocupação trabalhar não apenas conteúdos, mas sobretudo desenvolver sentimentos e atitudes positivas e favoráveis face à sexualidade, bem como comportamentos assertivos, que se traduzam numa vivência saudável e responsável da sexualidade. Foi portanto um desafio muito enriquecedor, na medida em que nos obrigou a ser criativas na criação de situações de jogo que permitissem aos jovens adquirir conhecimentos e treinar situações quotidianas que muitas vezes representam comportamentos de risco a nível sexual, já que as atitudes a ter não costumam ser abordadas num contexto formal de ensino.

É autora do Programa de Educação Sexual para o Ensino Profissional do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), ao abrigo do Programa Melhores Escolhas, Melhor Saúde (MEMS) da APF. Qual a importância, para si, de ensinar educação sexual e de preparar estes profissionais para uma área, tão importante e essencial na vida de cada um, como a sexualidade?

R: É sabido que grande parte da população que frequenta o ensino profissional em Portugal (desde jovens até adultos de meia idade) é sexualmente activa, pelo que apostar na sua educação sexual é fundamental, para prevenir comportamentos de risco que aumentam as infecções sexualmente transmissíveis e o número de gravidezes indesejadas e/ou de interrupções voluntárias da gravidez. Desta forma, construir um Programa tão abrangente e diversificado foi um enorme desafio que abracei com muito entusiasmo, pois acredito que pode ser uma ferramenta fundamental para os formadores que não tiveram outro tipo de formação no âmbito da sexualidade poderem colocar em prática em contexto de sala. O programa está estruturado inclusivamente tendo em conta que existem até contextos em que os formandos possam não saber ler ou escrever, pelo que as actividades que o programa contempla são, para além de muito práticas e activas, muito pedagógicas, no sentido em que foram desenhadas com o propósito de atingir determinados objectivos específicos, o que passa pela abordagem de conteúdos determinantes. Ao estar estruturado dessa forma, acredito que possa de facto ser uma ferramenta prática que os formadores podem ter como aliado para a inclusão (fundamental e urgente) da educação sexual no contexto do ensino profissional. O programa contém cerca de 60 horas de actividades, divididas em vários temas fundamentais ao nível da sexualidade e saúde sexual e reprodutiva, cuja aplicação é flexível, cabendo aos formadores a decisão do que abordar e quando o fazer.

É igualmente autora do Manual de Sugestões de Actividades Digitais ON_Sex, ao abrigo do Programa Projecto Direitos Sexuais e Jovens Vulneráveis (APF/Gulbenkian), cujo objectivo consiste na promoção, num ambiente digital, da cidadania activa e da defesa dos direitos sexuais dos jovens. De que forma pode este projecto sobre os direitos sexuais de jovens vulneráveis representar um ponto-chave na vida destes jovens? Qual a importância do público-alvo deste projecto serem jovens vulneráveis?

R: A elaboração deste Manual foi também um projecto que me deu imenso prazer elaborar, pois acredito que o ambiente digital possa ter inúmeras vantagens do ponto de vista pedagógico, quando utilizado de forma consciente e responsável. A necessidade de elaborar este material prende-se com o facto do ambiente digital ser cada vez mais utilizado por crianças e jovens, sendo que os riscos que esta utilização comporta – sobretudo em matérias de sexualidade – são inquestionáveis, mas não incontornáveis. Como tal, esta ferramenta aproveita o que há de melhor em termos de ambiente digital para a promoção de uma sexualidade consciente e responsável, direccionando os jovens para conteúdos pedagógicos, mas também lúdicos, que permitam abordar estas questões. Cada actividade está construída com objectivos específicos a atingir e contém um conjunto de considerações/orientações para os formadores que a irão desenvolver, no sentido de instrumentalizar a sua utilização.

Trabalhou durante 16 anos na APF/Centro, como psicóloga, terapeuta sexual e formadora; considera que este seu percurso foi enriquecedor? Considera ter sido preponderante a sua prestação de serviço na Associação para o Planeamento da Família?

R: O meu percurso profissional começou na APF, em 2001. Na altura, eu era licenciada em Ciências da Educação e, como tinha feito estágio curricular no ministério da educação, ao nível da promoção da educação sexual em meio escolar, a APF recebeu-me como formadora e, mais tarde, como coordenadora do projecto de educação sexual nas escolas da região centro. Foi para mim uma grande aprendizagem, pois tive oportunidade de apoiar o desenvolvimento de programas de educação sexual para diversos públicos da comunidade educativa: alunos, pais e encarregados de educação, assistentes operacionais e docentes. Entretanto, licenciei-me em psicologia clínica, pelo que comecei também a trabalhar no aconselhamento a jovens em saúde sexual e reprodutiva. Este contacto permitiu-me ter uma visão mais abrangente e também mais incisiva acerca dos comportamentos e atitudes dos jovens face à sexualidade, o que, por outro lado, me permitiu ter bagagem para investir na elaboração de jogos e programas pedagógicos neste âmbito.

Finalmente, a formação que fiz em sexologia clínica certificou-me enquanto terapeuta sexual, pelo que, aliado ao facto de ser psicóloga clínica, comecei a fazer consultas de psicologia e sexologia clínica, também na APF.

Considero portanto que a APF tem sido desde sempre o contexto que me permitiu desenvolver os meus interesses e competências, possibilitando que o meu percurso profissional enquanto formadora, autora de materiais pedagógicos e terapeuta pudesse desenvolver-se.
Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Eu é que agradeço, foi um gosto!

Projecto Vamos Falar de Sexualidade

Entrevista: Pedro Marques

Correcção: António Chagas Dias
31 de Outubro de 2017

 

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Interview to sex writer Kate Sloan

You refer that holistic, magic, changing sex started in 2012 in an attic and that you invested in your studies as sex journalist and has been working with a colleague in the podcast https://thedildorks.wordpress.com/about/. For you, how changing has it been and what have you learned and taught through your texts and lectures? In which way was it enriching to have chosen this path of learning about sexuality and teaching the way to an open mind and positive sexuality?

On a broad level, learning about sexuality has taught me a lot about empathy. When you truly and deeply adopt a sex-positive attitude – that is to say, the attitude that any risk-conscious and consensual sex act is acceptable and valid – it opens your mind to the idea that people can be diametrically opposite to you in many ways and still be good people. I think the whole world could use a dose of empathy, even if that comes in the form of thinking, “You know, that person is into a kink that I can’t imagine finding hot, but they’re doing it safely and consensually so I think that’s great!”

The early times of your work as a sex writer and lecturer were dedicated to sex toys. As a sex writer, how do you think this work about sex toys and related openness to masturbation can contribute to a higher level of pleasure?

It’s often said that you can’t fully love someone else until you learn to love yourself, and I think that’s true sexually as well: you won’t reach your full pleasure potential in partnered sex until and unless you figure out your own body through masturbation. That’s not to say everyone has to masturbate or use sex toys – some people genuinely aren’t into that, and that’s fine! – but you’ll have a much better sense of what to ask for from a partner, and how to access pleasure in general, if you masturbate.

I think masturbation is especially powerful for people who have been raised as women, because our culture constantly tells us to put others first and to take care of other people (especially men) before we take care of ourselves. Masturbation is an avenue through which we can reclaim some of our power over our own bodies and our right to pleasure.

Your university entrance essay was abou handjobs and massage-parlour. According to this study and to what you have been developing in your work about sexuality how can we men learn to know our body better so we can masturbate better? (Correction: my studies in university weren’t on massage-parlor handjobs; it was only my university entrance essay that was about that. I studied journalism in university.)

I think men – and, honestly, most people – tend to stumble upon one masturbation method that works really well for them and then stick with it. While it’s great when you find a technique that brings you pleasure, getting locked into patterns can limit your ability to feel pleasure from other things: the touch of a partner, for example, or even just masturbation that isn’t explicitly orgasm-focused.

On the advice of a friend who studied sexological bodywork, I’ve recently been trying to mix up my masturbation routine so I’m not just replicating the same pattern every time. I’ve been experimenting with different techniques, positions, toys, breathing patterns, fantasies, and speeds. While this experimentation can initially feel frustrating, I think it’s starting to open me up to other avenues of pleasure, which is definitely a good thing!

A major part of your work is focused on pornography and you also refer you started writing about eroticism when you were about 9 years old. You wrote a text in which you show how eroticism can be excellent to mental health. How do you think eroticism and mental health are related and how does this relation has contributed for your overview on sexuality?

In living with bipolar disorder and social anxiety disorder, I’ve learned that there are a few things which can reliably affect my mood for better or for worse. These don’t outright cure my mood issues – nothing really can, because my mental health conditions will probably be with me for life – but they can sway them one way or the other. For example, listening to music I love, spending time with friends, working on creative projects, and going to comedy shows can all lift my mood, whereas ruminating on past relationships, staying up too late, skipping meals, and isolating myself all tend to worsen my mood.

I’ve found that eroticism is one thing that can improve my mood, I guess just because I love sex and find it interesting. I don’t know that this would work for everyone, or even for most people, but it works for me. Good sex with a trusted partner can snap me out of negative thought loops and kind of reset my neurotransmitters. If I have good sex in the middle of a depressive or anxious episode, it won’t entirely lift me out of that episode, but it’ll lift my mood enough that maybe I can implement some other self-care behaviors and get back on track toward a steadier mood.

I’ve also written about how spanking, in particular, helps with my mental health. There’s some scientific evidence that this happens for actual neurological reasons: pain releases endorphins, and BDSM can put participants in a psychological state known as “flow,” which is associated with improvements in mood and temperament. There’s still a lot of research that needs to be done on this before we can say definitively that kink is good for your mental health, but for me, it certainly is.

What led you to work about pornography and how can it be gratifying and seen in a positive way?

I find porn interesting for the same reasons I find television, cinema, and literature interesting: it all says something about our culture. It holds a mirror up to our cultural ideals and tropes, and is worth examining for that reason, among others.

I also think porn can hold up a mirror to your own innermost desires and interests. There have been many times when I’ve found a particular porn scene hot and been confused as to why. Maybe it contained a kink I hadn’t yet acknowledged was a kink of mine; maybe it starred a performer whose gender presentation differed from the people I’d typically been attracted to before; maybe it used language I hadn’t realized I found arousing. You can learn a lot about yourself, and the cultural stigmas in which you’ve been steeped, by watching porn critically.

You said in this interview http://coffeeandkink.me/interviews/sex-educator-interviews-1-kate-sloan/ that sometimes you have problems having your work valued. How do you face this lack of appreciation of your research work and writing, where you try to solve and talk about important sexual issues?

Some people think sex is a trivial issue. They see it as being ultimately about pleasure, a diversion from the “real, important issues.” When I encounter people with this viewpoint, I like to explain why they’re wrong. Sexuality influences almost everything we do as humans, whether we like it or not. Our sexual drive – like our drives for social connection, accomplishment, and basic bodily needs – affects many of the choices we make, sometimes consciously, sometimes not.

On a geopolitical scale, a lot of historical and cultural movements (good and bad) have been influenced by humans’ desire to either express or suppress sexuality. In his book O: The Intimate History of the Orgasm, journalist Jonathan Margolis argues that testosterone might be the most influential chemical in human history, owing in part to how our sex drives affect what we do. I think he’s right!

As a writer who focuses on eroticism, pornography, sexual toys, masturbation, …, what more do you consider we can learn about these themes and what doors can be opened through greater openness of minds and attention?

Like I said earlier, I think you can learn a lot about empathy by studying the spectrum of human sexuality. Becoming more empathetic is always, always a worthy goal!

I also think that the more you know about your own sexuality, the less ashamed you become in general. For many of us, our core sexual desires are huge sources of shame, whether acknowledged or unacknowledged – and holding onto shame that intense can really limit your ability to be bold, brave, and self-actualized. When you constantly work on acknowledging and unlearning your shame – sexual and otherwise – you free up resources within yourself, increasing your ability to do great things and help other people do the same. That’s what I think, anyway!

 

Thanks for your time, and all the best wishes for your work.

Project Let’s Talk About Sexuality

Interview: Pedro Marques

Translation and Correction and: Jú Matias

Entrevista a Anna B. Volk

Entrevista a Anna B. Volk, Investigadora e Escritora de Artigos Porno

O que aprendeu e concluiu sobre a presença massiva da pornografia o mencionada nas questões das relações de género e questões económicas? Teve mais facilidade em encontrar respostas e compreendêlas em relação às questões de género por ter sido feminista e abraçar as questões das mulheres?

ABV A sociedade não fala de pornografia porque não consegue situar a pornografia em esfera alguma. Claramente não ésomente” cinema; também não é prostituição. Não é arte mas pode ser arte, e é arte sem poder ser arte. A pornografia é aquele espaço no canto da sala com o qual não sabemos o que fazer e que acaba passando desapercebido a menos que alguém o reclame. Ultimamente, até como resultado de um novo movimento de atuação feminina em redes sociais, queses como sex work e pornografia têm figurado mais em discussões, sejam essas acadêmicas ou não. É como se finalmente compreendessem que ignorar a pornografia não fará com que ela desapareça, então é melhor tratar dela e tirar dela o que ela pode oferecer – que são essas discussões sobre relações sociais na atualidade, por exemplo.

Me incomoda, no entanto, que muitas dessas discussões ainda estejam encerradas nos anos

70, ou num pseudo-ativismo feminista que se recusa a abaixar os cartazes e a ouvir quem de verdade participa dessas queses sobre pornografia e sex work, por exemplo. Meu afastamento do movimento feminista na verdade é uma recusa em participar de diálogos com textos fechados de pensadoras como Andrea Dworkin, por exemplo, que era avessa à questão da pornografia e que não pode mais rever seu trabalho. Ou ainda repetir que “pornografia é a teoria, estupro é a ptica” quando, em 2017, as questões econômicas funcionam de maneira diferente de 1974 quando Robin Morgan falou aquilo. Não me interessa um feminismo de cineclube, que invoque nomes para sessões nas quais a mulher ainda é o alvo. Preciso de um feminismo que olhe em volta e entenda a questão da pornografia, da prostituição, do aborto como queses socioeconômicas atuais, e que precisam ser discutidas tendo em vista a melhoria da situação da mulher contemponea sem queila em uma nova fogueira de Inquisição na qual o fogo se mantém aceso porque repete discursos que expiraram há tempos.

De que forma é que os estudos sobre porno e os filmes podem ser vistos como um trabalho credível? Como se podem quebrar desconfortos, descrenças e preconceitos?

ABV Há 20 anos, quando eu comecei a pesquisar literatura homossexual masculina e AIDS o que imediatamente me fez receber o rótulo de lésbica, independentemente da minha sexualidade – eu ouvi de uma professora universitária que ela teria medo de ficar sozinha em sala comigo porque eu certamente abusaria dela sexualmente. Hoje, na mesma universidade, vejo em sala alunas de graduação falando abertamente de sua homossexualidade. Da mesma

maneira que o mundo acadêmico não estava preparado para lidar com a questão homoerótica vinte anos atrás, ainda engatinha no que tange à questão da pornografia. Os estudos acadêmicos sobre pornografia encontram muitos obstáculos porque ninguém admite saber do que está se falando. É como se o público que assiste a filme s pors não frequentasse a universidade o que é um disparate. Toda questão sexual ainda é um pouco tabu dentro do mundo acadêmico porque vem carregada de várias camadas de préconceitos sobre o pesquisador, como acontecia nos estudos gays e lésbicos no início dos anos 90. Ainda não se trata a pornografia como uma disciplina (e não uso aqui o conceito de disciplina de Foucault, mas disciplina enquanto corpus de estudo), apesar de ela apontar para uma face das relações de gênero, de raça, de relações econômicas, de classe e de relações sociais importantíssimas para discussões dos estudos culturais, por exemplo.

O trabalho maior do porn scholar, portanto, é desvelar que, por baixo de todo o preconceito no qual a pornografia vem submersa, existe uma gama absurda de possibilidades de espaços de discurso e debate que podem elucidar queses que estão sendo debatidas atualmente em várias áreas de conhecimento, e que talvez encontrem na pornografia uma visão tão periférica que na realidade centraliza queses em locais completamente inesperados. Eu fui questionada recentemente sobre como lidaria com a questão de vocabulário em minha tese

porque aparentemente a academia não está preparada para palavras como dupla penetração

e me espantou que em 2017 ainda se preocupem com conservadorismos linguísticos que restringem quais discursos têm acesso ao pensamento acadêmico e a quais a entrada é proibida.

A pornografia que comou a observar foi homossexual, primeiro masculina e depois feminina (feita para mulheres). O que a motivou a comar por pornografia específica para homossexuais? Através do seu trabalho de estudo e observação, qual é a importância de estes filmes se focarem nas pessoas homossexuais? Em que é que pornosbico comercial pode denegrir ou descontextualizar o que são as verdadeiras relações?

ABV O primeiro filme pornô a que eu assisti era um set up clássico de entrega de pizza, e a estética não me atraiu. Isso era 1988, aproximadamente. No mesmo dia, assisti a um gay masculino, e a veracidade foi o que me capturou os olhos. Me parecia e eu tinha 13 ou 14 anos que era mais real do que o setup falsificado do entregador de pizza: uma sede de fazenda com homens gays fazendo sexo sem preâmbulos ou desculpas me parecia muito mais plausível do que o que eu havia acabado de assistir no pornô heterossexual. Então na verdade não houve uma escolha” consciente minha: houve uma aceitação crítica maior da pornografia gay dos anos 80/90 porque me parecia menos engessada, mais orgânica apesar de eu não saber nomear essas coisas ainda.

A questão homossexual na pornografia varia muito entre o que é considerado gay e o que é considerado lésbico. Trabalha-se com intencionalidade, com finalidade, com o quê? Se define o que é pornografia gay por mostrar dois homens tendo relações sexuais, mas se na tela

aparecem duas mulheres isso é pornografia lésbica? Muitos dirão que não, que a pornografia

é feita exclusivamente para o olhar masculino e que por isso e não vai levar em consideração a questão do lesbianismo. A zona escura do pornô lésbico é que muitas vezes ele reforça o estereótipo de lesbianismo existindo somente para o prazer masculino. As relações lésbicas são geralmente retratadas na pornografia comercial como um preâmbulo para a inserção masculina no ato: elas não se sustentam em si. Em alguns casos, quando há exclusividade de mulheres em cena, o olhar que recai sobre o ato ainda é essencialmente masculino.

Há, claro, a pornografia lésbica que contraria esses princípios, por assim dizer. Estúdios como o Pink & White, da Shine Louise Houston, a Crash Pad Series, artistas como Courtney Trouble conseguem fazer uma pornografia lésbica que desvincula o masculino por completo da

cena. Curiosamente, são essas mesmas produtoras que intitulam seu material como

pornografia queer, e não lésbica: porque lésbica’ virou um rótulo para venda de uma pornografia feita para homens e que, em sua maioria, não se preocupa com a sexualidade feminina.

O olhar, o trabalho e a forma de estarem e pensarem pornografia e sexualidade destas actrizes Zoey Holloway, Dylan Ryan, Katsuni, Sovereign Syre em que é que a ajudam a mostrar uma maior positividade da pornografia e que conhecimentos adquire?

É inegável que nos últimos dez anos houve uma mudança na demografia dos performers pornográficos o que impulsionou uma nova tendência no mercado produtor e, por consequência, no mercado consumidor de pornografia. A presença da internet proporciona

um profundo debate sobre o processo de criação de identidade, performance, posicionamento

potico e questionamentos de gênero dentro e fora dessa indústria majoritariamente californiana. A ativa participação de mulheres no Vale de San Fernando, não mais somente frente às câmeras, aliada a uma mudança no perfil dos performers que entram para a indústria, de uma maior normatização do produto pornográfico e da regulamentação legislativa acerca de procedimentos para filmagem de cenas transcendeu os limites da “porta verde” e adentrou o escopo das discussões públicas sobres os elementos que comem esse universo.

O discurso das performers citadas, por exemplo, coloca a pornografia sob um novo prisma de discussão, até porque traz a história pessoal mesclada à história pública, permitindo uma perspectiva mais abrangente sobre o real papel potico do performer pornográfico, o que garante uma maior compreensão deste universo que costumava acontecer exclusivamente longe de olhos públicos, ainda que o produto fosse destinado ao consumo. Mais importante, no entanto, é a possibilidade de se ouvir uma voz que antes não era percebida por não se fazer presente: a da própria pessoa por trás da persona sexual que se apresenta às câmeras. Pela primeira vez o “objeto do desejo vira o sujeito do discurso”: e isso altera completamente o

ponto de vista de onde se observa a pornografia. A performer pornográfica hoje em dia não mais é narrada em terceira pessoa, mas em primeira, com afirmações em tempo real sobre o que acontece e como se percebe não somente dentro da discussão pornô, mas também

dentro do mundo civil. Ela não mais necessita de porta-voz: ela fala do seu lugar, através de

seu lugar, e sobre o seu lugar diretamente com o público, o que a alça a um novo patamar dentro da pluralidade de discursos sociais existentes. É uma das coisas mais preciosas acontecendo na pornografia hoje em dia: o livre posicionamento das performers na esfera social, mudando por completo a maneira como elas são percebidas pela sociedade. E, independentemente de como pensam, o fato de estarem explicitando suas posições sobre quaisquer assuntos as solidificam enquanto sujeitos dentro de um discurso que, até então, som ente as considerava objetos.

Referiu ao whackmagazine que ao ver porno se sente mais atraída pela forma como tratam

a sexualidade e a sexualidade feminina, porque é que é tão importante para si que haja uma grande preocupação pela sexualidade? O que é que o público pode ganhar com uma pornografia mais realista, cuidada, e dada às preocupações com a sexualidade?

Pornografia não é sobre sexo: é sobre sexualidade. As possíveis variações do ato sexual são finitas, e estariam extintas se a pornografia lidasse somente com o sexo. A sexualidade, no entanto, se configura de maneiras tão plurais que permite que filmemos e refilmemos um mesmo assunto de maneiras infinitamente diferentes. Quando analiso um filme pornô estou muito menos preocupada com o ato sexual em si do que com o discurso que tal ato sexual promove – mesmo que falemos somente de uma cena, uma vignette, e não de todo um filme. Não é a parte gráfica da pornografia que excita: é o que ela diz, mesmo que veladamente, sobres mesmos, sobre nossa sexualidade, nossos desejos, nossos interesses, nosso papel social, nossos pontos de vista. Não sei se isso significa uma pornografia mais cuidada, mas uma pornografia mais atenta às queses da sexualidade i ter um papel mais importante do que uma pornografia que se reduza à representação do ato sexual em si.

Como académica investigadora, de que forma os seus estudos a ajudam e permitem interpretar melhor a pornografia? Desde que começou a estudar pornografia o que é que evoluiu na instria e de que maneira os seus conhecimentos evoluíram?

Minha formação é quase toda voltada para a área de literatura e estudos culturais. Eu comecei ainda na graduação com uma bolsa de pesquisa sobre literatura homoerótica, o que me deu uma carga de leitura bastante grande voltada para queses de gênero e sexualidade e

que, sem sombra devidas, funciona como o arcabouço teórico das pesquisas que desenvolvo hoje em dia.

Mas essa indústria muda diariamente. O foco muda diariamente, as performers entram e saem da indústria, novos diretores, novos nichos. É quase impossível ficar atualizado com tudo o que acontece, e eu acabo por me ver circulando dentro dos mesmos meios que são os que me interessam enquanto material de pesquisa e me surpreendendo com tudo de novo que aparece. É muito importante para mim perceber quão mais claro e mais acessível esse discurso está hoje em dia, comparado há cinco, dez anos. Em 2013, em conversa com Cindy Gallop, fui questionada por ela sobre meu interesse por pornografia. Minha resposta explicita minha luta constante para a reestruturação social baseada na inclusão da mulher enquanto agente: É nosso último espaço para a luta, o único que ainda não exploramos. Conquistamos

a academia, a vida potica, o mercado de trabalho: tudo o que nos era negado antes do movimento feminista está hoje a nosso alcance. A única esquina que ainda não dobramos é a da pornografia. Ela ainda é entendida como se feita exclusivamente para homens, mesmo sendo consumida igualmente por homens e mulheres. Está na hora de reclamarmos nosso lugar. E dessa vez em Porn Valley. ”

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vamos Falar de Sexualidade

Entrevista: Pedro Marques

Correcção: Jú Matias

01 de Julho de 2017

Interview with Andrea Zanin – Queer poly gender-fluid perv. Writer, speaker

You hold several Non-Monogamy and Relationship Skills workshops;

Dominance and Submission; BDSM Play; BDSM Community; Sex Skills; We’re Here, We’re Queer!

How is it important and essential to keep researching about the BDSM existence in our society, BDSM practices, non-monogamic relationships, sexual abilities and about being queer? What can we learn and which obstacles and faculties do you intend to overcome?

The classic approach to the study of sexuality has been to focus on the idea of deviance, and to ask the question of why people deviate from the norm. And this question has not classically been asked in a friendly way the aim has been to pathologize, punish or “treat,” as though difference were a sickness. The norm itself has often evaded study or question. It’s like taking a vice squad approach to studies of sexuality. The key paradigm has been a normative vs deviant model, as opposed to a model that includes questions of coercion vs consent, or happiness and wellness, or even a harm reduction model.

It is heartening to see that in the last number of years, research has begun to take new directions, toward more of a benign intellectual curiosity. New research is asking much more interesting questions about “deviant” or marginalized sexualities questions such as, what valuable lessons can the mainstream learn from those on the margins? How do people on the sexual and relationship margins understand themselves, how do they learn and teach, how do their identities form, what are their communities’ norms and standards of behaviour, what language do they use for themselves, and what are their cultures and histories like? How do society’s institutions – marriage, the law, culture more broadly – enforce normative notions of sexuality, and how can those be shifted toward greater inclusivity?

As well, new research and theorizing has begun to turn the lens of analysis in the other direction, and to look critically at the norm itself. As such, we are seeing studies of heterosexuality as one orientation among many, as opposed to based on the assumption that it’s the only valid one; we are seeing theory and history work that questions how heterosexuality came to exist, how it operates and what its problems are. These questions are also being asked about monogamy. We’re still only at the very beginnings of seeing this approach applied to kink and BDSM, or rather, to vanilla sexuality, probably because the dividing line between “normal” and “deviant” here is a lot murkier than it is even for queer sexuality and non-monogamy; but I believe it will happen there too, or that the approach will at least be attempted. I think all of these are very promising trends, and I hope they continue to evolve so that we can get a clearer picture of human sexuality in all its complexity. We all stand to benefit, even those with less marginalized experiences.

For me, my academic work, blogging, teaching, activism and community organizing all combine. They are all ways in which I try to press forward with this progressive approach to alternative sexualities. I think practitioner perspectives are valid and worth listening to; I think that we, as communities, are able to think critically and analytically about what we do, are able to research our own histories and proclivities, and that we have an appetite for this self-understanding. I think we have been forced to waste a lot of our energy defending ourselves against people and institutions that have judged without learning about us from the source. I welcome the culture shifts we have slowly brought about, shifts which have carved out enough space that we can now devote more of our energy to this deeper and less embattled work. There is still, of course, a long way to go.

How is it to live in a polyamory relationship?

You write, research and teach. For the lady who experienced polyamory relationships and who is an expert and researcher on the theme, how is it to teach, discuss and write about this subject, yet to be more meaningful and approached?

Polyamorous and other non-monogamous relationships are radically different for each person or group doing them. Really, knowing that someone is non-monogamous tells you very little about what they actually do or desire – all it tells you is that it’s about more than a couple. For me, non-monogamy has taken many different forms over time, and I suspect they will continue to. That has included being unpartnered but dating many people; being partnered with two people in a triad for many years; being one end of a V; and these days, being partnered with only one person, but open to possibilities. The important thing, in my experience, is not to be attached to a specific form of non-monogamy, but to live it as an ethical value system that permits many possible arrangements.

I do want to clarify, though: I don’t research non-monogamy. It’s not my area of academic focus. My research is on BDSM. I have certainly done some academic reading on non-monogamy, but my writing and teaching on the topic come mostly from my personal and community experience and critical thinking, not from scholarly study.

We live in a highly monogamic world, ruled mostly by religious influence and its guidelines. How can we open our mind to polyamory, end the prejudice about LGBT, BDSM and even sexuality?

I wish I had an easy answer to this! I think it is a struggle on many fronts at once, some of them massive and others very, very small. Macro and micro. We need to change laws and policies that make our lives needlessly difficult, in every country in the world. We need to research, write and educate, to produce readily available and well-founded data about the truths of our lives, which can be used to counter myths, stereotypes and baseless fears. We need to work on language, on finding the right words to express what we are doing in all its diversity, and on getting that language out into the wider world so that we are spoken about accurately. We need to build and sustain communities and friendships with one another both within and across our differences, so that we can support each other as we live our lives and do this work. And we need to work toward changing people’s minds through individual human connections. We have already made great strides in this work, and I expect I will see much more in my lifetime.

You have been working for a few years on LGBT, BDSM, sexology, sexuality, queer and so on. How is it for you to talk, teach, discuss these ideas wether in articles, lectures or interviews? What have you learnt and how have you shared this knowledge? You have walked a long way in the teaching of these subjects. How do you perceive the evolution of these ideas, what is there left to do and how can we evolve in our sexuality and in the BDSM, LGBT way of life?

I started teaching more than 15 years ago, and it amazes me how the longer I do this work, the more there is for me still to learn. I think the conversations within our various communities have evolved greatly over time, thanks to research and writing and slow political change; we keep developing new language and greater nuance in how we understand ourselves and learn about each other. From a historical perspective, different groups have achieved different things in different places. It would be impossible to summarize briefly, and there’s a great deal of discrepancy between various groups. But suffice to say, I think the space we have carved out for ourselves as people who live our relationships and sexualities in non-normative ways in the world has, by and large, gotten bigger over time.

As such, we are seeing another wave of yet further marginalized groups begin to find their voice and create community: asexuals; genderqueer, gender-fluid and other non-binary-gendered people; queer kids and elders; intersex people; specialized groups that gather around specific kinks; the voices of people of colour and people with disabilities within kink, queer and poly communities; and other valuable voices and perspectives. I hope that, going forward, the perspectives continue to multiply and diversify, and also that we find as much common ground as we can to move our struggles forward and learn from each other.

I think we will increasingly find ways to join forces on specific projects in our given contexts that may benefit each other in a way that cuts across identities. For instance, as I understand it, there’s a great deal of conceptual overlap between ideas that are key to the asexual community and those that are fundamental to polyamory and non-monogamy. If, taking our cue from the asexual community, we stop insisting that sexual attraction is the factor that should define our intimate relationships and living situations, then suddenly monogamy becomes of less central importance. That, in turn, can help us discover (or rediscover) ways to build families and communities beyond the heterosexual nuclear family – ways that benefit everyone, including heterosexual monogamous vanilla people! Against the backdrop of rising housing costs and cost of living, and the increased prevalence of blended post-divorce families even in the hetero/monogamous world, we all need to find ways to collaborate and share resources in order to survive, as many peoples and cultures have done before us and continue to do today. I predict that in the coming twenty or thirty years, we’ll see a lot more large, non-nuclear, constantly evolving families with multiple adults and kids that rely on friendship, resource-sharing, co-housing and group commitments, and that include or leave space for the adults to have individual romantic and sexual connections, including BDSM and queer relationships. Last week I saw an ad for a financial group that has been pioneering the idea of group mortgages so that more than two adults can buy a home together. Of course that’s directly useful for some poly people, but it’s the sort of social change that can benefit everyone – queers forming chosen family, friends sharing resources, and also hetero nuclear families!

You write and are connected to feminism in a time when there is still so much inequality between men and women and where, in some places, women have no freedom, where the power over their sexuality is stolen from them, where genital organs are still cut away from them. How is it fundamental for you to approach and being there in the fight for woman rights, for an equal and satisfying sexuality?

It is complicated to articulate, but I feel like I’m part of the second wave and third wave of feminism at once. So for instance, I absolutely agree that women still have a long way to go in terms of dismantling the patriarchy and achieving equality; those challenges look different in different parts of the world, but it’s true everywhere. Meanwhile I also challenge the category of “woman,” and understand it as a social construct that can sometimes be used in ways that harm: gender essentialism, transphobia, homophobia, racism and more. And I try take an intersectional approach, which tries to de-centre white straight Western cisgender able-bodied people and look at issues from a wider range of perspectives, particularly from the points where lived realities meet, such as the struggles of Black people, Indigenous people and people of colour, people with disabilities, sexual and gender minorities and more.

And of course my position is that bodily self-determination is key to all of these things working together. That means respecting individuals’ choices about what to do with their own bodies. If your idea of feminism includes telling some women that they are suffering from false consciousness or are hampering the movement because they wear lipstick, do sex work, have kids, have abortions, are dykes, get married, wear a hijab, do BDSM, choose to be homemakers, make porn, smoke weed or whatever else, then even if you’re doing good work in some respects, you’re still lending your energy to the forces that are keeping other women down, and other people in general. I’m way less interested in policing women, or policing the boundaries of who counts as a woman, and way more interested in pushing for change toward greater respect for everybody’s self-determination. Bodily self-determination is intricately tied up with the idea of consent; consent is basic to respectful sexuality. The people whose consent is most egregiously disrespected most often in a patriarchal society are women and anyone who doesn’t conform to rigid norms of gender and sexuality. But men’s consent and bodily self-determination are also violated, often by other men. If the patriarchy crumbles, everybody gets a better deal. And better sex!

You have written several erotic tales, about many polyamory, BDSM and LGBT topics. What have you learnt and how fundamental have these works been for your learning and for a better teaching?

I write erotica because it’s fun and sexy. My erotica is also political, but I don’t write erotic stories primarily in order to convey a political message; I write them when a character drops into my brain and says “Hi, I have a story to tell!” and then I just write down what they show me as quickly as I can. I suppose in a way my fiction writing relates to my teaching, in that I certainly try to write about sexual acts and sexual thinking in a way that’s realistic and that reflects the way real bodies work and real people think. But I don’t write erotica for the purpose of teaching.

I often find that erotic storytelling that’s too focused on the teaching aspect can end up reading awkwardly; the characters don’t feel real, they end up being mouthpieces for the author instead of fully developed and well-rounded voices. Which is funny, because I know a lot of people don’t think that any of this is important in porn in the first place! But I do. I like erotica that makes me cry, that takes me so deeply into a character that I am emotionally invested, and where there’s a story arc that’s about more than rubbing body parts together and having an orgasm. A story that uses language, voice and tone in a way that feels authentic to the characters, that gives me a sense of place and time. All of this can be done, even in a short story. And because erotica is a written story, not a picture or a film, I really value good writing, even more than I value whether or not it’s sexually exciting to me. The story’s believability and readability comes first, and that includes accuracy about sexual details; turn-on comes second, and is more subjective; intellectual and political messaging comes third. As such, I don’t read erotica to learn from it, either, other than to learn how to write it better; a story shouldn’t read like an instruction manual.

Thanks for your time, and all the best wishes for your work.

Project Let’s Talk About Sexuality

Interview: Pedro Marques

Translation and Correction and: Joana Correia

Interview with Olga Mathey

You work the eroticism and sexuality through embroidery. Where did the will to approach eroticism and sexuality from embroidery come from? And why explore different sorts, as your first project, Circus?

The relation between eroticism and embrodery came really naturaly, like a real need. Later I descovered a lot of other “feminist” artists who use this medium to speak about sexuality, tabous, whoman rights all over the world. For me, sexuality and eroticism is a subject without limites, there are as many sexualities and way of experimenting it as there are human beings. My first project was about Circus cause I wanted to explore the contorsionist and aerobatic way of sexuality. Circus is interesting because it’s a mix of dreams and nightmares, it’s shiny and freaky. It’s something always present in my work, this duality between attraction and repulsion. Now I explore the topic of pagan rituals witch contains this same duality.
It’s was a good starting point, and after that, I continued to explore my proper univers untill I left to live in Mexico for one year. Ovethere I interviewed different kind of people from all sexualities, all ages and social backgrounds, about Erotism and how it’s perceived in their culture. From there on, I got my inspiration from those relationships with my interviewee. I work principally on command, people tell me erotic stories and I embroide an erotic and intimate “object” for them. It feeds my imagination, and thereby the relation we have is not just client/artist, I have not a role of psychologist, it’s something other, something really precious.

What does the sacred Eroticism mean to you, what have you learnt about it and how can it be a positive and important aspect for sexuality?

For me there is a clear link between the religious and the sexual extase. This moment when you leave your body and your social rules. It’s like a transe you can see in religious rituals. It was present in my mind since a really long time but it took all its meaning when I was in Mexico. There, religious and pagan beliefs cohabits constantly, as does life and death. On the other hand, I perceived a strong link between feminism and relation to the earth, even in the way of living agriculture for example… All is linked and all is ritualised. It was a big learning for me and I have reclaimed that in my life and my artistic work. In my serie “Erotismo Sagrado” (Sacred Eroticism), I have hijacked famouses figures of Mexico (the guadaloupe virgin, death, lucha libre…) making them erotic. It was not to schock but to signifiate that Mexico is an erotic culture in its hot food, in its rituals, in its colors… but despite that Mexicans might seem reserved or shy over their sexuality, surely due to the overwhelming presence of the catholique religion and the education. But here in Europe, people think they are more open and free over that, but it’s often false.

In your drawings you approach the body and its nudity. What do these representations mean to you?

Well, I think it’s important to not see nudity like a tabou and not compare. To accept that we’re all different, we’re not perfect and see this difference like a power. If you look at your body in a miror like if you look a landscape for exemple, all seems different. It’s less individual, and when you accept its “imperfections” : Waw, your relations in general are so much simpler.

Which is for you the importance of having this communication channel to approach nudity?

The embrodery is an interesting medium because people are always impressed by the technic and the time one dedicate to it. Through embrodery, it’s easier to “seduce” shy people and lead them to confess sexual stories. I’m often touched because when I show my work around, people from very different backgrounds might get interested. Children are fascinated by the colors and the atmosphere (I use a lot of shinny threads), old people are impressed by the technic and finally the topic is not such a problem. And my “public” is really mixte, and that’s a thing I’m really proud of, cause I want to explode the walls.

You are a naked model for drawing classes. Naked modeling for the representation of the body, the promotion of the female way, of something natural, is all of this fundamental and important to you? What does your openness and your way of dealing with your body represent?

I have a real affection for this work. It’s interesting for my performance researches, to feel the limites of the body and to expose nudity in an other context than intimity to exorcice it. Nudity is the most natural thing we can do and however, it’s just so ridiculous how we can be puritans about it ! I live it like a ritual, this short moment when one remove one’s clothes, when one passes from the dressed state to the naked. And, for sure, this job helps me to asumate the body with its particularities and with what the beauty standards call “imperfections”.

You make reference to your work as a feminist act. How essential is it, the fight for women, their sexuality and their sexual freedom?

When I say “feminist”, indeed I talk about free women assuming fully their sexuality. Because I think the feminin sexuality has always been over interesting, while diresgarded, overshown, while hidden. Women have to reclaim their pleasure, they have to know their body, to understand their vulva and vagina. But for, to be “feminist” is wider than that. It’s more about accepting all kinds of pleasures, desirs, all sexualities, all fantasm and not squaring things or thinking in silos. And also in this way I include men. We all have feminity and masculinity in our bodies and it’s important to feel and play with it. For exemple I really like to be a woman with a curvy body but I’m really attracted by gay sexuality and sometimes I feel like a men inside but I don’t want to change my sexe, I like to cultivate those two parts, or more?

How do you get across this feminist activism and encourage women to follow that lead through your work on eroticism/sacred eroticism and sexuality?

I harvest stories and try to give them back through a constant dialogue, without any judgements.

You have studied eroticism, sacred eroticism, you compare cultures, and drawn on sexuality in your work since 2011. How did all this knowledge helped in the evolving of your sexuality and in your openness to the erotics, the sacred and pornography?

Yes, when I look back I’m a bit impressed about how I’ve evolved, I think it’s really clear when I watch my work from 2011 till this year. Then I was 21, and though sexuality or masturbation have been quite present during my life, it’s clear we evolve, and our look at it changes from 13, 21, 27, 45, 80 years, and I’m really curious to learn about the sexuality of old people. Specially when you’re a whoman, there is a lot of transformations in your body, it does of course change your sexuality.

You refer that the practice of stitching with a needle is just like penetration. You have started by pillows and underline its intimate and object-masturbation qualities. You also start from objects, sentences, costumes to “eroticize” and “sexualize” it.
In which way are these steps and acting channels aiming at a naturalization of sexuality and eroticism fundamental?

Well, through my imagination, my art and in my life I try to apply it, there are no walls. I can think about sexuality just opening my fridge. And even if I deal with serious topics, I try to make them funny light and delightful…

Thanks for your time, and all the best wishes for your work.

Project Let’s Talk About Sexuality

Interview: Pedro Marques

Translation and Correction and: Joana Correia

Interviewing Karen B K Chan

Karen – sexual and emotional literacy educator

Karen you’re a sexual and emotional literacy educator. In which ways can you – through sexual and emotional education – help the people who watch your videos and ask for advice, improving their sexual lives?

In individual work: I help by shining a light on issues that they may not see, identifying patterns of interaction that are not working, helping people figure out what they hope to achieve, suggesting and encouraging ways to shift those patterns towards their goals.

With groups: I help by demystifying common sexual fears and misunderstandings, giving permission and tools to be accepting of self and others, training professionals (medical, legal, social service, and other helping professions) in competence in dealing with sexual diversity and difference.

In which ways does emotional literacy education differ from usual sexual education?

A lot of sex education comes from a history of medical/health education, which is anchored in providing “facts” and in prescribing “healthy” or “correct” behaviors and outcomes. Emotional intelligence accounts for the complex interests and motivations that people have, and also for the rapport that’s necessary for people to believe and connect with their sex educators. Sex education that is void of emotional intelligence can feel irrelevant, judgmental, and alienating to the audience.

Your video Jam has reached 95 thousand people. How, through this metaphor comparing music and sex to highlight innovation, experimentation, search, freedom, knowledge, consent, how can you channel how sex and sexuality can be seen?

Like many creative, human pursuits, sexual experience is and can be unscripted, untidy, and full of surprises. Many of the current social expectations about what sex looks and feels like are skewed, limiting (and often, totally incorrect). From my perspective, comparing sex to musical jamming is not a new idea. It’s returning a natural human endeavor to a simpler, less fabricated state. It’s a reminder and permission to be as we are.

Your video was watched by many people. How do you think it has changed and how can this video be important for one’s learning?

Much of the feedback I received was from people who wish to practice (or already practice) sexuality in an unscripted way. The video resonated with them and affirmed their philosophy.

Many people also said that they wish young people could hear these messages, so that they could develop their sexuality in ways that are loving toward themselves and toward others. I think the video can be a great tool for widening the possibilities of sexual experience, easing anxieties around sexual expectations, and promoting communicative, caring sexual exchanges between people.

Action Canada for Sexual Health and Rights. You are developing this job since 2014 of Authoring and editing curricula and lesson plans on sexuality… How important and enriching can this job of curricular editing sexuality lessons be?

It’s an honor to create sexuality lesson plans. Many educators draw on these plans to deliver sex ed curricula. How information is delivered matters a lot, and through writing exercises and scripts, I get to help shape that “how”. I get the chance to promote critical thinking, normalize human diversity, and make sexual education fun and engaging.

What have you learned since the beginning of this project?

I’ve learned that balance is a fine art in education. It’s hard to balance between didactic teaching and participation, critical thinking and the flow of popular culture, honoring a student’s reality and offering additional possibilities.

I’ve also learned how to stop. Specifically, how to stop ceaselessly editing something. It can be an infinite process! At some point, I just have to see that it’s “good enough” and stop.

You address the sexual violence issue and how can there be excitation, either by hardened nipples, erection of the penis, of the clitoris, vaginal secretion. What took you to study this theme which you consider difficult to talk about? How important is it to talk about this problematic?

It’s very important to talk about this. Many people, in many realms, equate physiological arousal to sexual consent, and/or pleasure. This can lead to many misunderstandings and hurts – like long-term partners feeling unwanted by a partner with low desire (whereas the pleasure and consent are still there), or people who have trouble feeling physical pleasure believing that they therefore aren’t sexual (whereas there are many other ways to desire sexual experience).

When it comes to sexual violence, it’s important to discern between arousal, desire/consent, and pleasure because it is sometimes used against survivors of sexual violence. Physiological arousal is sometimes held as proof that the violation was “wanted” (and therefore not assault). This has real implications in holding perpetrators accountable legally and socially. It is also very confusing for the survivor, if they mistakenly believe that they “asked for” the assault. It can deteriorate the trust they have for themselves, their bodies, and boundaries.

How can we see the answer of excitation to something so negative as sexual violence?

We can understand physiological arousal during violence as what it is – the excitation of the nervous system during high stress and fear. It is like the flushed cheeks, increased heart rate, and whole-body arousal while sky-diving or running away from a predator. Just because the body reacts and activates against stimuli does not mean that it’s a positive, wanted, or enjoyable experience.

Thanks for your time, and all the best wishes for your work.

Project Let’s Talk About Sexuality
Interview: Pedro Marques
Translation and Correction and: Jú Matias

Interview with Kaleigh Trace, disable queer sex educator

How did you learn to talk about sex and how did you, from there, got to learn more about sexuality and help people as a sexual queer educator?

I’m still very much learning how to talk about sex! While I’ve certainly grown and evolved as a communicator, there is always more to learn. The skills that I do have are things that I’ve learned from watching others. Working in a sex shop throughout my 20’s exposed me to a lot of different kinds of people and ways of having sex/experiencing pleasure, so that taught me a lot. And too, growing up disabled forced me to get comfortable discussing human bodies at a young age – the ways we function, the messes we make, the things we need. Talking about sex and talking about disability can really mirror one another in the vulnerability that both conversations may elicit.

You are the author of “Hot, Wet and Shaking”. Was it motivating and fundamental to write this book and being able to talk about your experience as someone who was sexually ignorant as well as about your path along your learning and sexual experiences? What did you learn while writing this book?

Oh man, writing a book is hard work! Hot, Wet & Shaking is over two years old now and my feelings about it are ones of relative discomfort. I am glad that I wrote it and that another personal narrative of sex and disability exists in the world, but sometimes thinking about it makes me feel like I’m 16 again and standing naked in the middle of my high school cafeteria. So, while I am not sure that I would call the experience of writing it motivational or fundamental, I would say that I am grateful to have had the opportunity to write a book, and that I really believe that more and more disabled voices need to be heard in the world.

In different interviews as in your book you make note of your disability. Is it important for you to talk about disability in sexuality? For someone who was once shy about sex, how was it to overcome twofold the barriers and to learn and teach about sexuality to people of all conditions?

Yes, talking about sexuality and disability in tandem is of great importance to me. The perceptions of people with disabilities is so skewed and limited – we are so often cast as not having sexual desires nor being sexually desirable; or we are rendered invisible; or we are fetishized in a way that might feel good for some but alienating for others. Rarely are disabled people allowed the opportunity to define our selves outside of these socially constructed parameters. So for me initiating conversations that broaden our collective ideas about bodies and value is really important.

As a queer sex educator you took part in Halifax Dyke & Trans march, you read “Show Yourself To Me: Queer Kink Erotica” and you hold a section dedicated to queer culture. How important have the reading, your part in the march and the exclusive writing on queer culture been important to the knowledge and queer living and evolution for you as a sexual queer educator?

Wow, you’ve done your research! Yep, I definitely get around and get involved in a lot of different things.
Identifying as queer is really important to me, and participating in queer culture is a place where I feel safe. Queerness makes sense for me because it often feels like when I am with a bunch of people who have already had to push beyond the traditional limits of gender and orientation, my body can be more seen and understood. While queerness and disability are not the same, I think that often difference can meet difference with more openness.

Your work is also about organizing sexual toys workshops and approaching the sexual health topic. How are sex toys important and essential to everyone’s sexuality and eroticism? In your workshops how do you present sex toys and the ways in which they can be used as a complement and beneficial to sexuality?

I love sex toys! I’m not going to claim that they are important for every single human to enjoy or to use, but in my experience, sex toys can offer a chance to experience and own your body in whole new ways. Sex toys can create sensations, can reach new places, and can offer a sense of pleasure that for some, it can be hard or impossible to do solo. For some folks who have a hard time reaching orgasm, sex toys can be totally eye opening. For people with injuries, disabilities and/or limited mobility, sex toys can provide a lot more access to pleasure.
I respect and understand that a lot of people might be imitated by sex toys. I think some people view them as competition, or others think that they are only for single people. So in my work I try to present sex toys as just another way one might want to experience physical pleasure – just as fun as eating a really good sandwich.

You have approached the sexual health topic in your work. Having in consideration the on going marginalization of disable and general sexuality, what is your perspective on the sexual health issue?

Disabled people are marginalized in a myriad of ways. We are excluded by the inaccessibility of spaces, by the unwillingness of nondisabled people to look at us and take us seriously, by so many visible and invisible barriers. Sexuality is one of many arenaa where we don’t get to experience the full breadth of our human rights – the right to pleasure, the right to self-identify, the right to treatment (often doctor’s offices are inaccessible and STI tests can’t be conducted). And so I am heartened by disabled folks who are doing work to make sexuality and sexual health more accessible (see Andrew Gurza, Loree Erikson, or Lyric Seal for example).

Thanks for your time, and all the best wishes for your work.

Project Let’s Talk About Sexuality
Interview: Pedro Marques
Translation and Correction and: Joana Correia

Entrevista a Rui Ferreira Carvalho

Entrevista a Rui Ferreira Carvalho, Coordenador do SexED – Projecto de sexualidade dedicado às Escolas do Ensino Básico e Secundário para colmatar a falta de Educação Sexual em Portugal (https://www.facebook.com/S3xED.edu/)

De que forma é que é fundamental a realização de sessões sobre sexualidade nestas idades escolares?

A educação para a sexualidade é um elemento essencial do desenvolvimento pessoal. Antes de mais, é necessário distinguir que sexualidade (e consequentemente as informações veiculadas pelo nosso projecto SexED -https://www.facebook.com/S3xED.edu/ – nas sessões de educação sexual) engloba muito mais do que somente sexo; ao ser um conceito amplo e abrangente que inclui diversas esferas de relações interpessoais, familiares e íntimas, incluindo temáticas sociais, biológicas e psicológicas.
O que temos notado relativamente à educação sexual no Ensino Básico e no Ensino Secundário é que, apesar de estar previsto na lei, os alunos queixam-se do facto das suas formações (e informações) nesta área serem deficitárias (recorrendo frequentemente a pares para tirar dúvidas – o que raramente se traduz na informação mais correcta).
O nosso projecto constitui uma forma informal, jovial e, até certo ponto, educação pelos pares (pela nossa idade e postura), mas com informação com correcção científica e sociológica, baseada na nossa formação como médicos e no nosso investimento pessoal na área da sexologia.

A partir dos temas debatidos, com orientação sobre a gravidez indesejada, a anatomia normal e funcional do sistema reprodutivo de ambos os sexos entre outros temas, de que forma é que pode ser conseguida uma sexualidade mais satisfatória com menos riscos e mais prazer?

Ao já ter sido demonstrada a ineficiência da educação sexual centrada na abstinência (e com pouca informação biológica e anatómica) na prevenção de gravidez na adolescência ou na alteração de qualquer tipo de comportamentos de risco, o nosso projecto tem como linha orientadora a formação e o acesso a informação correcta e adequada à idade como modo de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e de gravidez indesejada na adolescência.
É importante salientar que o maior acesso a informação sobre sexualidade não se encontra associado a uma idade de início de actividade sexual mais precoce (pelo contrário!). Da mesma forma, informar acerca de contraceptivos, bem como divulgar e facilitar o seu acesso, permite uma sexualidade mais livre, com menos riscos (preservativo como único meio de prevenção de ISTs; restantes métodos para prevenção de gravidez indesejada).

Desde que começaram a fazer sessões, que principais lacunas têm encontrado? Como podem estas sessões melhorar e consciencializar as crianças e as pessoas envolventes para a sexualidade?

Apesar das dúvidas normais acerca de biologia masculina e feminina e de ISTs, a componente que é mais deficitária dentro da formação da sexualidade é a componente psico-sociológica relacionada com Orientação sexual e Identidade de género. Infelizmente, ainda existem muitos mitos perpetuados acerca da homo/bissexualidade, desconhecimento de outras orientações sexuais, incredulidade perante a assexualidade e transfobia (em relação com desconhecimento, preconceitos ou mesmo confusão de conceitos).

Partilharam um vídeo da Unicef sobre a mutilação genital feminina, num projecto de sexualidade, de ensino e aprendizagem. Para vós, em que é que este acto bárbaro pode prejudicar o normal funcionamento do órgão sexual da mulher e a sua sexualidade?

Numa sessão que contou com a participação de associações com acções em África (nomeadamente Guiné) e comunidades portuguesas com população guineense em que pude estar presente foi salientada a relevância deste tema para a comunidade portuguesa. Estima-se que esta prática tenha ocorrido em mais de 125 milhões de mulheres e crianças em 29 países em África e no Médio Oriente, mas também ocorre mais perto do que possamos imaginar (foi precisamente este o fundamento da campanha publicitária anti-FGM “It happens here”, também divulgada pelo SexED).
A Mutilação Genital Feminina (MGF) classifica-se em vários tipos de acordo com as estruturas genitais externas que são manipuladas ou excisadas/removidas; indo desde modificações que incluem “apenas” a excisão do prepúcio do clítoris até procedimentos que têm como objectivo a remoção do clítoris (“o órgão do prazer feminino”) e dos pequenos lábios e até mesmo fundir (com queimaduras ou suturas) os grandes lábios. Estes são procedimentos feitos em crianças/adolescentes sem qualquer tipo de assepsia ou condições de higiene, podendo pôr em risco a vida da mulher devido a infecções ou complicações hemorrágicas. Para além deste perigo imediato, as complicações para a sua saúde sexual e reprodutiva (e mental) podem perdurar para o resto da vida; existindo relatos de dor com excitação, dor/dificuldade com penetração, dor com o orgasmo, dificuldades num eventual parto por via vaginal, entre outros.
Outros nomes/expressões para esta mutilação incluem: “corte”, “submeter-se à tradição”, “fanado”, “circuncisão”.

Um artigo que partilharam sobre sexo e consentimento refere que 29% consideram que sexo sem consentimento pode ser justificado. De que forma pode ser prejudicial para o bem-estar psicológico, afectando a sexualidade e a própria vida? Como o vosso trabalho pende para as escolas, de que forma deve este tema ser retratado?

Sexo sem consentimento é violação. Este conceito tem de estar presente nas mentes de toda a gente; e é essa uma das mensagens-chave do SexED. Nunca é excessivamente salientado na comunicação social ou na comunidade em geral a relevância de não existirem áreas cinzentas no que toca a violação versus consentimento. Ninguém nunca está “a pedi-las”/”asking for it” no que diz respeito a actos sexuais não consensuais; independentemente de roupa, género, comportamento, estado de consciência ou embriaguez, mudanças de decisão (o consentimento é revogável em qualquer momento)…
Quanto ao bem-estar psicológico, é evidente e está amplamente descrita a ocorrência de Perturbação de Stress Pós-Traumático em vítimas de violação. Nas nossas sessões, chamamos sempre à atenção o facto de ocorrer violação no sexo masculino (inclusivamente por mulheres), que é muitas vezes sub-reportada ou subvalorizada pelas vítimas, seus pares e autoridades (constituindo uma forma de perpetuar a vitimização secundária).
Como conclusão, é necessário que esses 29% (e restantes pessoas que poderiam não estar conscientes do imperativo da necessidade de consentimento) que responderam dessa forma a esse estudo passem a ter noção que responderam “sim” à questão “violação pode ser justificada?”; o que é completamente desumano.

Partilharam igualmente uma notícia sobre as declarações da Presidente da Associação dos Psicólogos Católicos. Que visão transmitem para as crianças em relação ao tema da homossexualidade?

A nossa visão corresponde à visão da Organização Mundial de Saúde (OMS/WHO) e da American Psychological Association (APA) acerca da orientação sexual: não é uma escolha, não é hereditária (e não se encontrou fundamento genético único – “causa”), não é uma patologia, nem é um estilo de vida. É difícil reduzir um comportamento tão complexo a certos aspectos biológicos ou psicológicos.
Orientação sexual refere-se ao padrão de atracção física e emocional (incluindo fantasias, actividades e comportamento sexual) e ao género dos indivíduos pelos quais se exerce essa atracção. A avaliação individual que um indivíduo faz da sua orientação sexual constitui a sua identidade sexual.
Divulgamos, nesse sentido, o “Dia Nacional contra a Homofobia e a Transfobia” #IDAHOT, celebrado a 17 de Maio. Este dia “é celebrado em todo o mundo e reconhecido oficialmente em diversos Estados e na própria União Europeia como a data em que se assinala o longo percurso do combate à discriminação homofóbica e transfóbica e a luta pelo reconhecimento de direitos face à lei, recordando o momento em que, em 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua classificação internacional de doenças, derrubando uma barreira simultaneamente real e simbólica de preconceito homofóbico”.
Desde 2004 (há 12 anos atrás) que a APA – American Psychological Association (entidade de referência científica internacional) adopta uma resolução a favor da adopção por casais do mesmo sexo, baseada em vários estudos científicos (de qualidade).

Enquanto ainda alunos de quintos e sextos anos da universidade e jovens médicos, é importante e enriquecedor para vós a criação deste projecto voluntário de partilha de sabedoria sobre educação sexual e sexualidade para as escolas? O que têm aprendido e como têm conseguido quebrar a enorme falta de educação sexual?

Neste momento, todos os elementos do nosso projecto de educação sexual SexED concluíram a Licenciatura em Estudos Básicos da Saúde (incluída no Mestrado Integrado em Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa). Alguns dos nossos membros, incluindo eu, são já Médicos (com Mestrado) Internos de Ano Comum em hospitais na região de Lisboa e Vale do Tejo. Assim, em acréscimo à formação da componente curricular anatomofisiológica, biológica, clínica e médico-legal adquirida na Faculdade de Medicina de Lisboa, foi necessário um investimento pessoal para frequentar formações extra-curriculares relacionadas com Sexologia e investigação própria em bibliografia de relevo científico e sociológico no âmbito do estudo da sexualidade; desenvolvendo as temáticas menos discutidas em Medicina (como orientação sexual, identidade de género, violação e consentimento, violência de género e papéis de género).
Aprendemos sempre imenso com as sessões que fazemos e as dúvidas que nos colocam, pelo que apelamos sempre que nos contactem, sem vergonhas ou inibições, pelo nosso Facebook https://www.facebook.com/S3xED.edu/ ou pelo nosso email sexed.edu@gmail.com

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Daniel Abrunheiro
11 de Janeiro de 2017

Entrevista ao Psicólogo e Investigador Tiago Pereira

Para o seu mestrado está a estudar: “O Papel da Discrepância de Desejo Sexual na Satisfação Sexual e Relacional em Homens: O Papel da Orientação Sexual”. O que o levou a querer investigar sobre a sexualidade, o desejo e a satisfação sexual e relacional entre homens?

O meu interesse pela área da sexualidade surgiu já no início do meu Mestrado Integrado em Psicologia na Universidade do Minho e desde cedo foi meu objetivo trabalhar nesta área. Nos primeiros anos do curso, envolvi-me no projeto de colaboradores de investigação que a Escola de Psicologia disponibiliza aos seus alunos e a partir desse momento tive a oportunidade de contactar tanto com a área da sexualidade como dos relacionamentos amorosos, ao acompanhar as investigações realizadas pela Professora Doutora Joana Arantes. No âmbito desse projeto, acompanhei investigações que se debruçavam sobre o impacto da infidelidade no desejo sexual, atratividade e qualidade do relacionamento e sobre o impacto do diagnóstico de cancro nos relacionamentos íntimos. O envolvimento nesse projeto proporcionou-me, além do contacto com os diversos temas mencionados, o desenvolvimento de competências de investigação e pesquisa.
Chegado ao 2º ciclo do Mestrado Integrado e tendo oportunidade de trabalhar e investigar sobre sexualidade decidi agarrar esta oportunidade. Inicialmente, não havia um tema definido, mas após algumas leituras e com a ajuda da minha orientadora, a Doutora Manuela Peixoto, cheguei a este tema. O desejo sexual e, em particular, a discrepância de desejo sexual despertaram-me particular interesse, tendo-se elaborado, por isso, uma investigação nesse sentido. Ao perceber que existia uma lacuna na literatura e por questões metodológicas, a investigação foi delineada no sentido de se estudar o papel da discrepância de desejo sexual sobre a satisfação sexual e relacional numa amostra masculina. Uma vez que a maioria dos estudos se foca numa perspetiva heteronormativa decidiu-se expandir o estudo a todas as orientações sexuais, também com o objetivo de perceber se a orientação sexual tem alguma influência sobre o papel da discrepância do desejo sexual.

O que tem aprendido com o seu estudo sobre este papel do desejo sexual? Que importância tem para si e para as pessoas este estudo? De que forma pode ser fundamental para a compreensão e uma visão diferente do papel do desejo sexual e da satisfação sexual?

Desde o início do estudo que tenho aprendido bastante sobre o tema, sendo que o desejo sexual pode definir-se, de uma forma muito sumária, como o componente motivacional do ciclo de resposta sexual. Este pode preceder e acompanhar a excitação sexual e regra geral sofre flutuações ao longo do tempo, não só na vida de um indivíduo como de um casal. Num casal o nível de desejo sexual pode estar sincronizado ou pode acontecer que um indivíduo experiencie maior ou menor desejo sexual do que o parceiro, havendo nesse caso uma situação de discrepância de desejo sexual.
O desejo sexual é um dos principais fatores que afeta não só a satisfação sexual como relacional dos indivíduos e do casal. Segundo a literatura, a discrepância de desejo sexual é comum entre os casais e de acordo com a capacidade dos indivíduos para lidar com esta diferença ao nível do desejo do casal pode ou não constituir um problema, podendo de igual forma ter um impacto significativo sobre a satisfação sexual e relacional.
De entre os problemas sexuais mais apontados pelos pacientes em terapia, destacam-se os problemas com o desejo sexual. Na maioria das vezes, o foco é o parceiro com baixo desejo sexual, e menor atenção é dada ao parceiro com elevado desejo sexual, isto porque ter maior desejo é visto como normal e saudável. Por outro lado, ter baixo desejo é visto como patológico. No entanto, não existem padrões de desejo sexual, e ter mais desejo sexual não é necessariamente melhor que o contrário, sendo o mais importante o equilíbrio satisfatório entre o casal. O estudo das discrepâncias de desejo sexual entre parceiros torna-se fundamental para a prática clínica, uma vez que permitirá, por exemplo, o entendimento do baixo desejo sexual dentro da relação de intimidade de cada casal, impedindo a atribuição de diagnósticos precoces de problemas de desejo sexual. Tal como Zilbergeld & Ellison (1980) defendem, o tratamento perante situações de discrepância de desejo sexual passará pelo foco no casal, tentando em simultâneo aumentar o desejo sexual de um parceiro e diminuir o do outro.

O prazo do estudo conclui em Fevereiro de 2017, no entanto o que é que já nos pode falar sobre os objectivos do estudo?

O estudo tem como objetivo principal perceber se a discrepância de desejo sexual dentro de um casal tem impacto sobre a satisfação sexual e relacional do homem, e perceber se existem diferenças entre homens que mantêm relacionamentos com mulheres e homens que mantêm relacionamentos com outros homens. De momento, o estudo encontra-se ainda em fase de recolha de dados, mas, e de acordo com a literatura existente sobre o tema, é esperado que homens que experienciam discrepância de desejo sexual no seu relacionamento e a consideram problemática se sintam menos satisfeitos sexual e relacionalmente em comparação com homens que não experienciam discrepância de desejo sexual ou não a consideram problemática, independentemente da sua orientação sexual.

Tradução e Validação da Escala de Funcionamento do Sistema Sexual para a Língua Portuguesa. –
Em 2014 fez a apresentação do póster dos resultados preliminares da investigação do V Seminário de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho. O que significou este trabalho para si? De que forma foi enriquecedor este trabalho de apresentação dos resultados e do funcionamento do sistema sexual?

Esse trabalho foi desenvolvido em conjunto com outras colegas no âmbito de uma unidade curricular de investigação, no segundo ano de do curso. Por essa altura, fomos desafiados pela docente responsável pela UC, a Professora Doutora Joana Arantes, não só a traduzir e validar este instrumento como a apresentar os resultados preliminares da investigação desenvolvida. Este trabalho permitiu tanto o desenvolvimento de competências ao nível da investigação, como o desenvolvimento de um trabalho sobre sexualidade, nomeadamente, sobre funcionamento sexual. Um bom funcionamento do sistema sexual requer a coordenação das motivações e ações de ambos os parceiros, e depende não só da capacidade de atrair um parceiro, mas também da disponibilidade para as preferências sexuais do parceiro. Esta escala permite avaliar as diferenças individuais no sistema comportamental sexual e como estas podem afetar o bem-estar pessoal e interpessoal.
A apresentação deste trabalho num simpósio de investigação permitiu a exposição do mesmo, o contacto com outros investigadores e a partilha de conhecimentos e opiniões.

“Está a decorrer um estudo sobre discrepância de desejo sexual em homens, no âmbito da dissertação de Mestrado Integrado em Psicologia (Universidade do Minho) do aluno Tiago Pereira. Para participar basta ter mais de 18 anos, ser homem e estar numa relação monogâmica (independentemente da orientação sexual). O questionário é muito breve e tem a duração de cerca de 5 minutos. Para participar basta aceder ao link:https://goo.gl/forms/VOULkViUJ5JpZUEP2

Desde já agradeço a sua colaboração.”

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: J.M.
06 de Janeiro de 2017

Entrevista a Carla Felício

Entrevista a Carla Felício – Massagista, Naturista, Massagista Tântrica, Tailandesa, Ayurvedic, Lingam e Yoni

Faz massagem Tântrica, Yoni, Tailandesa e Ayurvedic. De onde surgiu a vontade de trabalhar estas vertentes das massagens, a sexualidade e o prazer nelas inerentes? De que forma é que o seu trabalho desenvolve a sexualidade dos seus pacientes através das massagens Tântricas e Tailandesas?

Sempre tive um enorme gosto pela saúde e o tratamento de corpo. Desde cedo fui revendedora de marcas de cosmética e já me atraia aquilo que aprendia nas formações que ia tendo, no entanto nunca me despertou grande interesse a massagem.
Gostava e gosto de SPA e massagens e tudo o que envolva esses temas e ambientes, mas não me via a mim como massagista.
O caminho que me trouxe até este trabalho nada teve a ver com um interesse meu mas uma última alternativa para resolver a minha vida. Sou uma pessoa bastante sensível, e após o meu divórcio sofri algumas desilusões amorosas que me foram deixando emocionalmente muito frágil. Por outro lado, sendo o pilar de uma família monoparental num país que pouco ajuda, também a minha situação económica estava completamente desastrosa, passámos alguns momentos complicados, por vezes ficávamos sem electricidade, ou sem gás, e muitas vezes já não sabia o que dar de comer às crianças.
Qualquer emprego que tivesse, não só não era suficiente para eu poder viver, como me deixava muitas vezes sem alternativas para estar e cuidar dos meus filhos.
Toda esta pressão sobre mim, tornou-se um desespero e um dia acabei por ceder a uma proposta de uma colega para entrar no mundo da prostituição. Bastaram-me uns dias para perceber que não gostava desse trabalho. É demasiado frio, demasiado insensível para o meu feitio. Um dia recebi uma chamada de uma massagista que pretendia uma colega. Na mesma altura fui também chamada para uma formação de estética e massagem e comecei a conhecer e a gostar da massagem. Fiz os primeiros anúncios de massagem, fui aprendendo e evoluindo o que já tinha aprendido. 3 anos passados, considero que gosto do meu trabalho que como qualquer outro tem coisas boas e menos boas.
Gosto de dar prazer e bem estar aos outros, existem prazeres que muitas vezes as pessoas não se dão oportunidade de os sentir. O toque, o envolvimento geral de uma massagem mesmo sem sexo, especialmente se tiver a componente Yoni ou Lingam, é realmente muito intenso e prazeiroso.
Por vezes recebo clientes que não procuram bem o que eu tenho para oferecer. Querem somente sexo, trazem na ideia uma qualquer imagem pornográfica e acham que eu estou aqui para lhes realizar essas fantasias. Normalmente esses clientes não levam o que de melhor tenho para oferecer. Primeiro porque nem deixam que eu faça a massagem devidamente e depois porque o resto já não é tão bom como deveria ser pois eu não gosto desse tipo de pressão.
O meu trabalho é muitas vezes mais terapêutico a nível emocional. Mais que uma vez alguns clientes acabam por desabafar problemas sexuais que vivem, ou problemas em relacionamentos, às vezes choram, eu também já chorei com alguns clientes. No fundo estamos nus de corpo e alma, ali naquele quarto não há julgamentos, eu tento ajudar naquilo que posso mas também tenho clientes que se tornam meus confidentes. Este trabalho tem-me mostrado um mundo masculino cheio de carências de afecto, cheio de solidão, de problemas sexuais ou emocionais. Um mundo que passa um pouco ao lado do que é a visão do sexo masculino. Tento sempre ajudá-los a entender a mulher e o que aprendo com eles, tento ajudar as mulheres a entenderem os homens.

Desde que começou a desenvolver o trabalho para a sexualidade, o que aprendeu e conseguiu melhorar na sexualidade das mulheres e dos homens que procuram o seu trabalho?

O objectivo do meu trabalho em relação à sexualidade de quem procura, é libertar as pessoas dos tabus, do receio de conhecerem melhor o próprio corpo e os prazeres que podem sentir. Aprendi algumas coisas que tento sempre transmitir a quem me quer ouvir. Por ex: que muitas vezes os homens amam as suas parceiras, mas com os anos deixam de ter apetite sexual com elas. É como o perfume, se usamos muito tempo deixamos de o sentir, mas continuamos cientes que ele cheira bem e que gostamos dele. Se mudarmos de perfume uns tempos, quando voltamos a usar o outro, já o conseguimos cheirar novamente. Acho que isto se passa com muitos homens, quando procuram outras mulheres, outras sensações, normalmente voltam a sentir também maior desejo pelas companheiras. Porque ao contrário das mulheres, um homem que não sinta desejo não consegue ter sexo. Neste sentido seria bom haver mais abertura entre os casais para entenderem estas coisas. Há muita falta de abertura no que toca a assuntos sexuais, por vezes por parte da mulher, outras por parte do homem. Muitos querem viver muitas coisas mas não as querem viver com os parceiros ou têm receio de falar sobre isso com eles, isso acaba muitas vezes por arruinar a vida sexual dos casais.
Aprendi que os homens não pensam só em sexo como é normal as mulheres pensarem, e até eles se confundem um pouco e confundem carência de afecto com falta de sexo.
Descobri que existem mulheres que vivem ainda uma sexualidade muito reprimida, ou pela educação que tiveram, ou pelo receio dos julgamentos sociais. O número é bem maior do que eu imaginava.

Como podem as pessoas conhecer melhor estas vertentes da sexualidade, do erotismo e das massagens para que possam retirar mais prazer e ter uma melhor sexualidade?

As pessoas podem conhecer melhor estas vertentes da sexualidade procurando, conhecendo-se melhor, explorando o mundo dos desejos no seu intimo e deixarem-se levar entregando-se à realidade de os viver. Como pode alguém oferecer prazer a outra pessoa se não tiver ciente do que é ter prazer? Como pode alguém ter e dar prazer se não de libertar para isso?

Nos seus blogues tem publicados vários contos eróticos. De que forma é que escrever estes contos, a dupla que faz com Laura, o serviço de Suaves e Sensuais Dominações, a fazem ter uma mente mais desperta e aberta para o erotismo, a sexualidade e a fazem desenvolver nesse sentido?

O que me leva a escrever é o gosto pela escrita, mas acima de tudo é a forma de continuar em contacto com que me segue e me gosta de ler e de partilhar os meus ideais que podem servir de ajuda a outros. Sempre gostei de escrever e contar fantasias minhas e ao longo dos anos as pessoas a quem eu mostrava ou falava as minhas fantasias, todas me foram aconselhando criar um blog, e assim fiz. Fiquei um pouco surpresa pois não imaginava que em tão pouco tempo fosse ter tanta visualização. Por vezes não ando inspirada algum tempo, há sempre coisas da nossa vida privada que nos podem tirar a vontade de escrever de vez em quando. Quando passo um tempo sem lançar nada de novo, começo a receber mensagens dos leitores que querem sempre ler mais qualquer coisa. Por vezes os clientes também querem que escreva sobre os nossos momentos. Eu tento escrever para todos, por vezes coisas que vivo, outras coisas que fantasio, e por vezes misturo um pouco de tudo. Também costumo escrever alguns desabafos, nestes trabalhos sofremos quase todos os dias algum tipo de discriminação ou insultos. Escrevo também para mostrar ao mundo que o sexo é algo natural, que deve ser vivido em liberdade, que não devemos discriminar opções ou a sexualidade de cada um. As pessoas não são o sexo, não são as relações que têm ou as profissões que fazem, as pessoas são aquilo que são. Podem existir pessoas fantásticas ou menos boas em qualquer trabalho ou com qualquer tipo de vida sexual.

Escreveu um texto sobre masturbação. Como é importante para si a prática da masturbação, falar-se sobre masturbação e haver uma maior abertura para esta prática natural e sexual?

Como já tinha referido anteriormente, não se pode dar prazer aos outros sem sabermos dar prazer a nós mesmos.
Todos nós nascemos com a curiosidade de descobrir o corpo e em determinada altura todos temos a ideia de nos tocarmos e acariciarmos, é algo natural que nasce connosco, e mesmo sem que tenhamos a menor ideia do que é o sexo, na idade da puberdade começamos a sentir necessidade de conhecer essas novas sensações. Não dá para fugir à natureza das coisas. A masturbação é algo que nos faz conhecer o próprio corpo. Amar-nos a nós mesmos! Independentemente de se ter uma vida sexual mais ou menos activa, acho que todos nós devemos masturbar-nos de vez em quando. Só dessa forma descobrimos melhor o que o corpo tem para nos oferecer e ajuda-nos a descontrair e libertar-mo-nos de pudores e vergonhas. Temos de amar o nosso corpo e aceitar-mo-nos da forma que somos.

Como é que as pessoas conseguem saber até onde as suas massagens as podem levar em termos de erotismo, sexualidade…?

As pessoas só podem saber onde as massagens as podem levar se vivenciarem o momento. Eu adoro sushi, muita gente poderá dizer o mesmo, mas outros não podem com o cheiro. Cada um terá uma opinião sobre a massagem e sobre o erotismo que a envolve. Existem pessoas que só procuram mulheres de peito ou rabo grande, elegantes ou gordinhas, novinhas ou mais velhas. Cada um terá o seu gosto e nas massagens passa-se exactamente o mesmo, alguns irão viajar por mundos paradisíacos, porque gostam e procuram as sensações, o erotismo, o sexo intenso. Outros irão achar que não tenho o corpo perfeito, que não digo muitos palavrões ou não grito, ou que perco muito tempo na massagem etc. Não posso agradar a quem não aprecia este prato.
Quanto aos que procuram relaxar e sentir todo o envolvimento do meu trabalho, com certeza irão gostar, e por vezes tentam também aprender, o que é uma mais-valia, pois acabam por conseguir dar aos outros parceiros algo bom. Fico contente quando vejo que os clientes procuram saber mais sobre como dar prazer aos parceiros. É uma barreira derrubada, é um passo para a evolução sexual ter vontade de aprender e de dar ao outro o que de melhor se pode oferecer.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Vamos Falar de Sexualidade
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: Mário Martins
07 de Janeiro de 2017